sábado, 9 de agosto de 2014

RITOS SAGRADOS DA LUA CHEIA

    NALDOVELHO

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    tenta desesperadamente amanhecer,
    eu por aqui, anoiteço ao som de um blues
    e vejo uma lua descaradamente sedutora,
    dou uma volta pelas ruas da cidade
    e colho poeira de estrela
    encharcada de orvalho,
    e me enveneno com a nostalgia
    que maresia da orla me traz.

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    escreve cartas numa língua estranha,
    eu por aqui, aprendo palavras de anjo,
    e com elas cometo heresias,
    acolho em meu quarto, formosa Iara
    e aprendo com ela o mistério das ervas,
    pura feitiçaria de quem venceu sua dor.

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    lê num jornal as notícias de ontem,
    eu por aqui escrevo um livro,
    que provavelmente você nem irá ler,
    pois quando você resolver anoitecer,
    eu e meus poemas seremos pedra
    depositada nas margens de um rio,
    ritos sagrados da lua cheia,
    poesia de quem morreu por amor.
  



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