terça-feira, 23 de maio de 2017

ATÉ QUANDO?

    NALDOVELHO


    Sobre a pedra polida e fria
    a água se espalha
    em busca de um caminho.
    Sob a pele que permeia o dia
    um leito ressequido de rio.
    Sob a rua enluarada
    os intestinos da cidade.

    Da janela do meu quarto
    eu percebo no horizonte
    pássaros em revoada
    em busca de um oásis distante.

    Minha alma chora,
    mas ainda é cedo para ir embora.
    Não há nada de novo nas horas,
    tudo é hoje como era antes.

    E uma voz numa prece suplicante
    pede ao Pai por piedade,
    pois eles não sabem o que fazem...

    Até quando?



domingo, 7 de maio de 2017

DELICADEZA

    NALDOVELHO

    Eu trago a ternura
    estampada em meu sorriso,
    um olhar meio assim sem juízo;
    mania de caminhar
    entre escombros
    na esperança de colher
    coisas esquecidas por seus donos.

    Eu tenho o defeito
    de levar muitos tombos,
    meus amores, minhas perdas,
    e a teimosia de caminhar
    pela beira do abismo,
    meio sábio, meio demente,
    aprendiz na arte de ser gente.

    Eu tenho o costume
    de orar pelo mundo que eu vejo,
    de construir caminhos
    que dissolvam meus medos,
    de cultivar em mim a solidão
    que alimenta e devora,
    nostalgia que não vai embora.

    Eu trago em mim a delicadeza
    que permeia meus sonhos,
    coisa de quem acredita em magia,
    e que nos estertores da madrugada
    beija sempre a boca de um novo dia
    e chora de emoção
    ao ver o sol nascer.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

É SOBRE PORTAS E JANELAS

    NALDOVELHO

    É sobre portas e janelas
    que eu preciso falar,
    é sobre tessituras de sonhos,
    poder caminhar pela vida,
    molhar meus pés
    nas águas de um rio
    que lá no fim dos tempos
    vai desembocar no mar.

    É sobre cair e levantar,
    possibilidade de mais uma dança,
    sorriso puro de criança,
    vinho suave e encorpado,
    amanhecer de outono ao teu lado,
    coisas simples de se falar,
    noites friorentas,
    magia de luar.

    É sobre mulher amada,
    pernas enroscadas,
    já nem sei quais são as minhas,
    e dá uma preguiça danada,
    madrugadas friorentas de maio,
    café coado sem pressa,
    cigarros compartilhados,
    coisas boas de sonhar.

    É sobre portas e janelas
    e de preferência abertas,
    teu ombro amigo
    nas horas incertas,
    sussurros, gemidos, grunhidos,
    suor, saliva, sêmen, semente,
    água pura de nascente,
    essência de alfazema pelo ar.

terça-feira, 2 de maio de 2017

JÁ NÃO VALE A PENA CONTINUAR

    NALDOVELHO

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema caminha pelas ruas
    em busca de novas possibilidades.
    Ignora o que o passado possa lhe dizer,
    nega nostalgias e saudades,
    e ao tentar dobrar esquinas,
    colhe sementes de pé de vento,
    distanciamentos, fim dos tempos.

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema já não reconhece
    a saudade ardida, a lágrima derramada,
    a despedida...
    Ignora a dor do poeta,
    virou coisa fria e amarga,
    semeia um tempo de indelicadezas,
    nada que possa nos emocionar.