terça-feira, 27 de dezembro de 2016

MINHA SABEDORIA

    NALDOVELHO

    Eu busco minha sabedoria
    nas horas mornas que povoam o dia,
    nos menores gestos de ternura,
    nos pequenos sinais de loucura,
    nas sombras que assombram meus sonhos,
    nas ideias que eu teimo e proponho,
    nos monstros que me habitam as entranhas,
    na danada da inquietude que ainda arranha,
    nas perguntas que eu não consigo fazer,
    na vontade que eu tenho de crescer.

    Minha sabedoria eu procuro
    nas dores escondidas num canto escuro,
    na importância de cada um de nós,
    no emaranhado de fios e em seus inúmeros nós,
    nos enredos alinhavados, histórias,
    nos ensinamentos guardados em minha memória,
    nos desencontros, desenganos, desencantos,
    na esperança cultivada no silêncio do meu pranto,
    nas asas que eu tenho de voar por dentro,
    na mania que eu tenho de negociar com o tempo.

    Eu busco minha sabedoria
    nos pensamentos adocicados na heresia,
    nos erros que eu cultivo em segredo,
    já faz tempo e eu ainda sinto medo,
    nos momentos de solidão e clausura,
    quarto vazio, noite fria e escura,
    no amanhecer de uma cidade nublada,
    na teimosia em caminhar com as pernas trocadas,
    nos poemas que eu insisto em escrever,
    quem sabe um dia você possa ler e entender.





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UMA NOVA HISTÓRIA

   
    NALDOVELHO

    Vou te contar uma história,
    uma que possa espantar teus medos
    que saúde em ti o sono dos puros,
    que brinde a possibilidade
    de sonhares assim como sonham os anjos,
    que ao estares abraçada ao teu travesseiro
    possas sentir o cheiro das manhãs de outono,
    e por teres nascido livre de pecados,
    possas colher sorrisos, carinhos, abraços...
    - seja bem vinda, minha menina,
    aconchega-te ao nosso lado.

    Vou te contar uma história,
    uma que seja alinhavada de poemas
    que mostrem o quanto é sagrado o caminho,
    e que apesar da crueza desses dias,
    sempre valerá a pena ter esperança,
    acreditar na possibilidade do amigo,
    arregaçar as mangas, construir abrigos,
    portas e janelas abertas,
    principalmente as do coração.

    Vou te contar uma história,
    uma que nos faça chorar finalmente;
    não pela dor que por tempos se fez presente,
    mas pela emoção que se sente
    quando a delicadeza nos envolve em seus braços,
    quando a beleza nos traz o arrepio
    de se saber que és bem vinda, minha menina,
    há tempos te esperávamos,
    agora já podemos sorrir.

    Vou te contar uma história,
    e ela será a tua história,
    só te restará vivê-la,
    e quem sabe até escrevê-la,
    fique certa que de onde eu estiver
    eu vou poder ler.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NA ÁRVORE DOS ENFORCADOS

    NALDOVELHO

    Na árvore dos enforcados
    um ser padece solitário,
    pela dor de mil e uma jornadas,
    boa parte delas do lado errado da estrada,
    por ter recusado a cura
    a um coração dilacerado,
    por de ter negado o abraço
    a uma alma em suplício,
    por ter andado embriagado
    pela beira do precipício,
    por ter mergulhado no abismo,
    pelo prazer de não querer retornar
    e por isso ter que repetir tudo desde o início,
    até conseguir compreender
    a força libertadora de um sorriso,
    de uma lágrima, de um carinho,
    de um aperto de mão.

    Na árvore dos enforcados
    um ser padece solitário,
    pelas riquezas escondidas
    no fundo do seu armário,
    pelas almas pisoteadas pelo caminho,
    por ter escrito a ferro e fogo seus desenredos,
    por não ter libertado a palavra
    guardando-a enclausurada em segredo
    e por ter dado as costas aos seus irmãos.

    Na árvore dos enforcados
    o silêncio é a derradeira paga
    daquele que se negou a redenção.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

LIVRINHO DE MAGIA

    NALDOVELHO

    Eu tinha um livrinho de magia,
    e quem me deu foi Vó Miudinha,
    e nele todos os dias eu aprendia
    feitiços de encantar coração.

    Aprendia também a fazer poções,
    onde ervas eram maceradas, sem pressa,
    com palavras fazedeiras de poesia,
    e elas curavam nostalgia,
    feridas que custavam inflamadas
    e chás que aliviavam dor de partida,
    e espantavam a tristeza daqueles
    que teimavam em caminhar na solidão.

    Eu tinha um livrinho de magia,
    nem sei bem onde deixei,
    algumas receitas lembro bem,
    outras fiz cópias por precaução,
    mas a maior parte, acho, ficou perdida
    quando a casa que eu tinha
    foi destruída na demolição.

    A casa faz tempo foi reconstruída,
    mas o livrinho não vi mais não!

    Hoje fico aqui na incerteza
    de qual erva devo usar
    para curar esta dor abestada
    que corrói minhas entranhas
    toda a vez que amanhece outono,
    dia nublado, de entardecer chuvoso,
    e eu na janela do meu quarto,
    buscando me livrar desta paixão.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CORRUPIÃO

    NALDOVELHO

    Vai corrupião,
    voa e pega aquele canto que nasceu
    lá nas funduras daquelas matas
    e traz para mim,
    é com ele que vou tecer o amanhã,
    é com ele que vou encantar
    aquela mocinha de olhar enluarado,
    de pele orvalhada e cabelo desgrenhado
    que quando passa
    incendeia meu coração.
    Vai corrupião,
    mas não revela o nosso trato,
    feitiço de lua cheia só dá certo
    se mantido em segredo.

    Vai corrupião, mas voa depressa,
    antes que eu morra de paixão.


domingo, 4 de dezembro de 2016

O VENTO QUE ME ACARICIA

    NALDOVELHO

    O vento que me acaricia o rosto
    é brisa suave que vem de longe,
    e traz cheiro de mato,
    perfume extraído do desejo,
    que afasta de mim os meus medos
    e desperta no poeta uma fome,
    coisa estranha e selvagem,
    que revira minhas entranhas,
    e aí eu me lanço em viagem,
    nem sei bem pra onde vou.

    O vento que me acaricia o corpo
    varre a poeira do meu quarto,
    afasta de mim o cansaço,
    prorroga o tempo que eu tenho,
    me convida pra mais uma dança,
    me envolve em carícias indecentes,
    encontro marcado ao anoitecer,
    e assim vou como se fosse um louco
    pelas ruas da minha cidade
    girando até desfalecer.

    O vento que me beija o rosto,
    sussurra em meus ouvidos palavras,
    poemas, gemidos, loucuras,
    um amontoado de sonhos, ternura,
    e desperta lá das funduras
    a vontade de amar outra vez.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AO SOM DE UM BLUES

    NALDOVELHO

    Trago comigo um dia frio de outono,
    já faz muitos e muitos anos,
    uma história mal alinhavada,
    muita poeira de estrada
    a garganta seca, os olhos cansados,
    um monte de memórias em meus guardados,
    uma janela aberta, raízes do passado,
    um pote de delicadezas
    estrategicamente colocado
    em cima de uma mesa,
    vez em quando pego uma
    e escrevo pra vocês.

    Trago comigo uma brisa suave,
    chuva fininha ao cair da tarde,
    um tempo que lentamente escoa,
    palavras fazedeiras que vez por outra ecoam,
    lágrimas no canto dos olhos escondidas,
    cicatrizes, medalhas, algumas feridas,
    a engrenagem dos tempos, a solidão dos loucos,
    um monte de espinhos, ainda restam uns poucos,
    uma gaveta cheia de quinquilharias,
    coisas desimportantes, bobagens, poesia,
    pedrinhas brilhantes, cristais de quartzo,
    ainda bem que as tenho, iluminam meu quarto.

    Trago comigo um canto maldito,
    perdas e danos de um coração aflito,
    harmonias dissonantes, melodia estranha,
    uma garrafa de conhaque, uma sede tamanha,
    uma cigarrilha cubana, muita fumaça, conflitos,
    o sangue coagulado, veias entupidas, detritos,
    a vontade de crescer, apesar dos meus medos,
    um monte de segredos, coração em desterro,
    dúvidas, incertezas, um amontoado de erros,
    ultimamente dei pra rezar, mas o faço em segredo,
    normalmente antes de dormir e ao som de um blues.

  

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

HOUVE UM TEMPO

    NALDOVELHO

    Houve um tempo de amanheceres nostálgicos,
    dias e dias de desassossego e saudade,
    onde ainda na mais tenra idade,
    meus cabelos já denunciavam um tempo
    diferente daquele que eu devia ter,
    e nos meus olhos o peso de uma bagagem
    que nem sei o porquê eu trazia,
    mas não conseguia compreender.

    Houve um tempo de sonhar com romances,
    histórias sutilmente alinhavadas,
    e encantado vivia sempre em busca
    de mais uma dança; rostinho colado,
    paixão a aflorar dos meus olhos
    e ingênuo que era, eu acreditava
    na eternidade de um instante
    que ficasse em meus guardados
    e que me trouxesse motivos para viver.

    Houve um tempo de brilho nos olhos,
    atrevimento, insensatez e loucura,
    de andar perdido pelas ruas,
    apesar do medo e da solidão,
    e eu não sabia ainda que a poesia
    era o remédio capaz de curar feridas,
    e apaziguar meu coração.

    Houve um tempo, agora é outro,
    onde a dor, a solidão e a clausura,
    não conseguiram me aprisionar na amargura,
    pois sabedor na ternura que existe
    nos caminhos de se viajar por dentro,
    vivo hoje abraçado a minha imensidão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MINHA SOMBRA

    NALDOVELHO

    Minha sombra
    normalmente caminha em silêncio
    observando tudo o que eu faço,
    vez por outra me dá um abraço,
    uma espécie de carinho
    e aí sussurra palavras
    no idioma dos anjos;
    algumas já consigo decifrar,
    a maioria não!
    Mas as que consigo,
    revelam coisas
    que me dão força
    para poder continuar.
    Sombra sabida está!
    Desde que eu nasci
    caminha comigo,
    não me pede nada,
    só precisa que o meu corpo
    lhe sirva de abrigo.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ENCANTAMENTO DE POETA

    NALDOVELHO

    Vida que escorre, ampulheta bendita!
    Cada grão de areia um momento,
    e o tempo sedento pede por mais vida,
    e o meu coração valente resiste,
    tem sempre mais um por do sol,
    uma noite nostálgica, um poema,
    uma madrugada molhada de sonhos,
    um amanhecer em festa,
    e a passarada traz notícias dos longes,
    há sempre uma esperança no ar,
    defeito dos que creem em Deus.

    E no teto do meu quarto
    uma orquestra de pirilampos e estrelas,
    e uma lua exibida e faceira
    me chama para mais uma dança,
    mas exige que seja um bolero,
    gosta de dançar agarradinha,
    só para poder sussurrar indecências,
    lua danada, adora uma saliência!
    Seu retrato da cabeceira da cama sorri,
    e diz que eu não tomo jeito,
    adoro mergulhar numa viagem.

    Mas ao longe eu percebo
    uma cidade que transpira incertezas,
    becos sombrios, esquinas desertas, tristezas...
    Faz tempo não ando por suas ruas,
    faz tempo vivo exilado em meu jardim,
    cultivando bromélias, lírios e jasmins,
    prisioneiro dos meus próprios poemas,
    sorvendo a vida que pulsa dentro de mim.

    Encantamento de poeta! 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

SERVO DA MINHA SOLIDÃO

    NALDOVELHO

    Sempre sonhei em ser um herói,
    guerreiro desbravador e audaz,
    sempre fui um bom sobrevivente,
    Dom Quixote atormentado e demente,
    que buscava encontrar um lugar para ficar,
    mas que de um jeito ou de outro
    partia a cada amanhecer,
    nunca fui bom em permanecer.

    Sempre tive adoração pelo futuro,
    dobrar esquinas, caminhar pelo escuro.
    Por isto, sempre fui nostalgia,
    inquietude insistente, poesia,
    desafiar meus limites, apesar do medo,
    só para poder depois retornar
    com lágrimas cristalizadas, saudade,
    náufrago dos meus próprios desenredos.

    Nunca tive jeito para o segredo,
    tão pouco fui um bom amante,
    minhas paixões sempre mal resolvidas,
    desencantos, desencontros, despedidas,
    sangue pisado, cicatriz em carne viva,
    nunca soube do amor de se aprisionar;
    melhor prisioneiro da minha imensidão,
    servo da minha solidão.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

NOVEMBRO

    NALDOVELHO

    E num repente amanheceu novembro,
    se bem me lembro, de pássaros bandoleiros
    na figueira evidenciando o assalto,
    se não ajo depressa comiam todos,
    não sobrava unzinho pra mim.
    Mas ainda assim primavera,
    de sonhos, imagens, quimeras,
    cheiro de vida espalhada pelos cantos,
    lírios, orquídeas, acalantos,
    violetas a brindar o dia...
    Beija-flor em festa
    fixou morada em meu jardim.

    E num repente amanheceu novembro,
    de lembranças, fantasmas, saudades,
    de versos derramados sem pressa,
    e no ar uma cantiga que se apressa,
    e traz para perto a nostalgia,
    roseira chorona se desespera,
    ainda sente falta do jasmim,
    e eu aqui a inventariar estragos,
    alguns ainda sangram dentro de mim,
    ainda bem que a maioria cicatrizados
    já não doem tanto assim.

    E num repente amanheceu novembro,
    de vento macio e janelas escancaradas,
    de coração apaziguado pela ação do tempo,
    já faz tempo eu estou por aqui,
    e cada dia é uma bênção,
    e cada benção mais um passo,
    coisa de quem acredita
    que vive uma história sem fim.

domingo, 6 de novembro de 2016

SUAVE, LICOROSO E TINTO

    NALDOVELHO

    Uma garrafa de vinho
    suave, licoroso e tinto.

    Janela entreaberta,
    cidade molhada de outono
    e cada vez mais eu percebo
    cicatrizes, incertezas
    e a possibilidade de uma lágrima
    apesar do frio e da aspereza.

    É só prestar atenção,
    existirão sempre vestígios,
    num sorriso ensimesmado,
    num olhar mal disfarçado,
    num pequeno gesto de ternura,
    num acidental encontro de mãos.

    Tem sempre uma história
    por trás da solidão e da clausura,
    tem sempre uma esperança
    apesar de toda a loucura,
    tem sempre a sede e a fome
    a nos impulsionar pelo caminho
    e a necessidade do amor
    em cada gesto de carinho.

    Tem sempre um poema
    precisando ser escrito,
    um amor faz tempo proscrito,
    um fantasma escondido no armário,
    uma saudade em busca de agasalho,
    um vento arruaceiro,
    uma sensação estranha,
    um aperto no coração.

    Uma garrafa de vinho
    suave, licoroso e tinto.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

ABRE A JANELA E DEIXE

    NALDOVELHO

    Abre a janela e deixe
    primavera amanhecer em seu quarto.
    Ando muito assustado com a quietude dos sonhos,
    com as noites acinzentadas de abandono,
    com a indiferença das palavras,
    com a solidão que às vezes você se propõe.

    Abre a janela e deixe
    que a primavera derrame pelo chão do seu quarto
    coisas que por descuido você esqueceu.
    Ando muito assustado 
    com as folhas de papel entristecidas,
    com a cadeira de balanço vazia
    e como o tempo a devorar seus dias.

    Abre a janela e deixe
    que a vida percorra os quatro cantos do quarto,
    e imóvel permita que ela beije sua boca,
    acaricie seus cabelos, dissolva seus receios...
    Ando muito assustado com a sua incapacidade
    de se imaginar amando outra vez,
    e uma vez mais, por que não?

    Abre a janela e deixe
    que o vento macio que acaricia a cidade
    varra de dentro de você a solidão e a saudade.
    Ando muito assustado com as impossibilidades.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

LOUCURA DE POETA

NALDOVELHO


Certa feita, já faz um bom tempo, com esta mania de colecionador que tenho, cismei em ter na prateleira da minha estante um bom punhado de entardeceres, desses de sol mergulhando nas águas, diversos tons de dourado, banhados de nostalgia, coisa para nunca mais se esquecer.

E assim saia eu todos os dias a colher tais preciosidades, e junto, acabava por trazer tantas outras, agregadas que estavam: brisa macia que varria a cidade, beira do mar a inspirar poesia, praia deserta, solidão e desassossego, e lá pras bandas do meu desterro, aqueles rochedos que insistiam em sobreviver à fúria do mar. E aquele era o lugar ideal para se colher pedrinhas, conchinhas e os mais lindos poemas que eu já consegui escrever, e é claro: os mais lindos entardeceres.

Só que com o tempo, prateleiras eram poucas em minha estante, e os entardeceres eram tantos e tão belos, que derramados pelo quarto ocupavam todo o espaço e eu acabava entardecendo também.

Foi então que lembrei Vó Miudinha e suas sapiências, e já me sentido assim meio acabado, orei pedindo ajuda e orientação. Vó Miudinha velha sabida que era, lá de longe respondeu: para curar a nostalgia que brota da tarde, eu precisava colher madrugadas; muitas... E que fossem todas encharcadas de orvalho, pois só assim eu conseguiria amanhecer.   

E assim ficou o meu quarto: depositário de entardeceres, madrugadas e amanheceres, tudo junto e misturado. Haja poemas para conseguir sobreviver. E Vó Miudinha já havia me alertado sobre isto: poeta é assim mesmo meu neto, se não tomar cuidado pode até enlouquecer.

A PELE DA NOITE

    NALDOVELHO

    A pele que envolve a noite
    normalmente é estrelada,
    mas às vezes é negra como o breu.
    Nunca vi noite pálida,
    mas já vi noite esquálida,
    esmirradinha, sem graça.

    A pele que envolve a noite é fina,
    papel de seda esticado,
    quando se rompe no horizonte
    trespassa-lhe a luz;
    lua invasora que derrama seu prateado,
    traz magia, seduz.

    A pele que envolve a noite às vezes é morada
    de lágrimas no canto dos olhos...
    Quando se libertam, já é madrugada,
    e aí é tarde, e você não conseguiu dormir.
    Se olhar bem, toda a noite é nostálgica,
    mesmo as salpicadas de luz.

    A pele que envolve a noite é poema
    do entardecer ao nascer do dia,
    seria até mais fácil eu rimar com poesia,
    mas esta é muito maior,
    cabe em todas as noites, em todos os dias,
    é muito mais do que se possa escrever.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

EU TE DIREI

    NALDOVELHO

    E eu te direi das sementes
    que germinam em minha alma,
    das ilusões que trago comigo,
    das emoções que macero em meu umbigo,
    das imagens que eu cultivo em segredo,
    das orações que vencem meus medos,
    do ser que eu construo pouco a pouco,
    das cicatrizes espalhadas pelo corpo,
    dos escombros, dos restos de demolição.

    E eu te direi dos sonhos que povoam meus dias,
    da estranha mania de escrever poesias,
    das músicas que aquecem o meu coração,
    da necessidade de cultivar a solidão,
    dos enredos desfeitos, dos caminhos estreitos,
    da necessidade de sentir na pele o arrepio,
    de ter em meus olhos uma nascente de rio,
    das lágrimas que choro no chuveiro...


    Ainda que estejas longe, eu te direi!

domingo, 23 de outubro de 2016

VIDA E MORTE

    NALDOVELHO

    Vida e morte caminham
    de mãos dadas por esta estrada
    e nada há de estranho nesta relação,
    cada minuto que passa,
    cada batida do meu coração,
    é uma celebração desta união.

    Vida e morte gostam
    de dançar de rosto coladinho, 
    carícias viscerais e indecentes
    não raro trocam confidências,
    e se devoram num bailado insano,
    mistura de dor e prazer.

    Vida e morte caminham
    de mãos dadas por esta estrada,
    e tanto é assim, que eu não sei
    se cada dia somado
    é no meu tempo menos uma fração,
    ou mais um trecho na minha imensidão.

    Poemas de luz e sombras.




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O POEMA CHEGOU AO FIM

    NALDOVELHO

    Tempo de viajar para o lado de dentro,
    exercer novas possibilidades,
    mexer em emoções pouco exploradas,
    levar luz a recantos sombrios,
    aceitar novos desafios.

    Tempo de viver o amor que eu sinto
    por alguém que existe dentro de mim,
    pois é chegado o meu momento
    e eu vos digo sem dor ou lamento,
    que o poema chegou ao fim.


    Tempo de alicerçar novas construções.

sábado, 15 de outubro de 2016

FIOS DO TEMPO

    NALDOVELHO

    O tempo tece seus fios,
    alinhava enredos,
    descortina segredos,
    e eu aqui já faz um tempo,
    buscando superar meus medos,
    tentando encontrar no outro
    a solução para a solidão
    que me devora.

    O tempo estende seus fios
    pelas trilhas do meu desassossego,
    artérias e veias congestionadas,
    e eu aqui querendo mais um tempo.
    Um que seja suficiente
    para pacificar conflitos,
    não os dos outros,
    mas aqueles que me devoram.
    
    Fiz da palavra um caminho
    de autoconhecimento,
    suavizar minha alma,
    purificar pensamentos,
    dando-lhes a leveza de uma pluma...
    E eu aqui querendo mais um tempo,
    um que me baste,
    preciso me resolver por dentro.



domingo, 2 de outubro de 2016

FILHOS DE DEUS

    NALDOVELHO

    Ao amanhecer naquela cidade
    um menino na mais tenra idade
    caminhava impunemente pelas ruas
    e ele nos trazia braçadas de flores,
    algumas ainda com espinhos,
    outras, de pura felicidade.

    Mas as pessoas que ali viviam,
    por mais olhos que tivessem,
    perceber não conseguiam,
    se afastavam em silêncio,
    pois com medo da verdade
    calavam seus corações.

    Mas com o seu jeito franco
    e um olhar terno e penetrante
    ele insistia em conversar com elas
    como se as conhecesse por dentro,
    e dizia que ele também era filho de Deus,
    só que diferente.

    E assim agia aquele menino
    do amanhecer ao anoitecer
    na esperança de que um dia
    corações e mentes daquela cidade
    pudessem enfim compreender.
    Palavras da salvação!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A JURITI E O GAVIÃO

      NALDOVELHO

      E eu soube de um tempo
      que juriti gemedeira
      espalhava seu lamento,
      por conta de um romance,
      coisa mal resolvida,
      entre ela e um gavião.

      Do alto de uma árvore
      coruja cantadeira
      gostava de contar esta história
      que causava em nós o arrepio,
      lágrimas de lua cheia,
      juras de amor quebradas, estio.

      Desde então, bandos de juritis
      em luta com os gaviões
      numa triste história
      de amor, desamor e lamento...
      Nunca mais houve paz entre eles,
      amor bandido, sentimento sofrido, dor.

      Dizem que o culpado foi corrupião
      que invejoso do amor que existia
      intrigou gavião com a pobre da juriti,
      e inventou tantas safadezas
      que juriti reuniu seu bando
      e expulsou da tapera o gavião.

      Coruja cantadeira
      quando conta esta história
      fica com lágrimas nos olhos.
      Hoje, natureza do gavião é caçar juriti,
      e corrupião, vaidoso na floresta,
      afirma que tinha de ser assim.