segunda-feira, 18 de junho de 2018

CAIXINHA DE MÚSICAS



    NALDOVELHO

    Eu tenho uma caixinha de músicas
    e lá eu guardo as mais belas canções,
    e são tantas!
    Vez em quando pego uma
    e invento enredos, poemas,
    revestidos de trilhas sonoras
    que alimentam o meu ser.

    Existem músicas que eu percebo
    encharcadas de orvalho,
    são elas que preparam o amanhecer,
    harmonias próprias da madrugada,
    e eu já amanheci tantas vezes
    que até virei um especialista
    na arte de sobreviver. 

    Outras, penso que sejam outonais,
    e quando isso acontece
    eu fecho os olhos e me vejo
    caminhando pelas ruas da cidade
    de braços dados com um tempo de delicadeza
    apinhado de folhas caídas das árvores,
    brisa macia, tons de dourado, renovação.

    Gosto também daquelas
    que cheiram a entardecer...
    Café servido sem pressa,
    as rolinhas passeando pela sala,
    janelas propositadamente abertas,
    e a lua que chega a me dizer saudade:
    eu vim aqui só para te ver.

    Mas existem também
    as ardidas de desencontros,
    de insônia que brota insistente
    das paredes do meu quarto,
    Lady Day sussurrando em meus ouvidos,
    uma garrafa de uísque já pela metade
    e eu me percebo abraçado a um blues.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

DESENHOS NO AR



    NALDOVELHO

    Pegue um lápis
    em sua caixinha de magia
    e desenhe no ar uma nuvem,
    depositando nela muita luz. 
    Mas que seja azulada!

    Agora faça-a chover
    dentro do seu quarto,
    de forma a que suas gotas
    tragam para a sua pele
    o frescor da restauração.

    Depois desenhe um sol
    e deixe que ele amanheça;
    se quiser pode abrir a janela,
    pois este pequeno astro
    ficará cativo de sua imaginação.

    Perceba que gotas de luz
    que chovem azuladas
    quando misturadas
    a amarelidão de uma alvorada,
    fazem crescer relva verdinha.

    Agora um rosto de mulher,
    um sorriso, um olhar preciso,
    um carinho suave e aconchegado...
    Desenhe todas as coisas
    próprias da paixão.

    Aproveite e escreva
    um bom bocado de poemas,
    são ótimos para suavizar o coração,
    pois por lá não haverá mais espaço
    para o amargor da solidão.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

VIAGEM PARA DENTRO DE MIM


    NALDOVELHO

    Eu fiz uma viagem para dentro de mim
    na esperança de saber qual seria o meu fim.
    Encontrei uma caixa apinhada de delicadezas,
    o antídoto para todas as minhas tristezas,
    enredos alinhavados faz tempo,
    madrugadas vadias passadas ao relento,
    a possibilidade de revelar meus segredos,
    a coragem de superar meus medos,
    o carinho da mulher amada,
    brisa macia, pele branca, suas sardas,
    música suave, vinho tinto e rascante
    e o seu: branco, doce, e inebriante.

    Eu fiz uma viagem para dentro de mim,
    mas por lá não consegui saber do meu fim.
    Encontrei um emaranhado de descobertas,
    clareiras, nascentes, densas florestas,
    o significado da palavra liberdade,
    a vontade de viver numa outra realidade,
    a ventura de ter muito mais do que eu mereço,
    muitas casas de passagem, muitos recomeços,
    uma gaveta lotada de poemas saídos dos escombros,
    uma oração, um terço, o aprendizado a cada tombo,
    a certeza de que nada tenho que seja só meu,
    a sabedoria dos loucos e a presença sagrada de Deus.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

UMA XÍCARA DE CHÁ INOCENTE


    NALDOVELHO

    Preciso urgentemente de um motivo
    para escrever um poema,
    um que seja um sopro de liberdade,
    um pote cheio de verdades,
    um ombro amigo numa noite escura,
    um gesto carregado de ternura.

    Preciso urgentemente de um motivo
    para continuar na estrada,
    um que seja muito mais do que um carinho,
    que possa extrair do meu corpo os espinhos,
    atirar pela janela os fantasmas,
    limpar do meu quarto os miasmas.

    Preciso urgentemente de um motivo
    que afugente dos meus dias a solidão,
    que me propicie sonhar com delicadezas,
    que traga luz às minhas incertezas,
    que me presenteie com um sorriso,
    que não permita que eu perca o juízo.

    Preciso urgentemente de um motivo
    para escrever um poema,
    um que me cure da inquietude,
    que me traga uma xícara de chá inocente,
    a misericórdia de um olhar complacente
    e que tenha a força de uma oração.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

ÚLTIMO DIA DE MAIO


    NALDOVELHO

    Hoje, logo depois do anoitecer,
    lua cheia pousou no meu quintal.
    E ficou lá por um bom tempo;
    segundo ela: assuntos pendentes,
    e também uma boa dose de saudade.
    Fiquei até emocionado!
    Imaginem a lua com saudade do poeta...
    Meus olhos ficaram marejados,
    minha pele toda arrepiada,
    por saber que por mim ela nutria
    tanto bem querer.
    Perguntou-me, então, o porquê
    de eu recusar o poema,
    ralhou comigo fingindo-se aborrecida,
    disse que eu não poderia parar de escrever,
    pois eu não era o dono das minhas verdades,
    nem da magia que eu trazia comigo
    e que o meu compromisso com a poesia
    era o que de mais sagrado poderia haver.
    Teve uma hora que eu fiquei até assustado,
    pois de canto de olho eu vi
    São Jorge de lança em punho
    e o dragão a me olhar de soslaio...
    Pensei até que ele fosse me comer!
    Mas não! Lua cheia disse
    que era só eu tomar tenência,
    pois muito havia ainda o que escrever.
    Depois de um tempo,
    ela sussurrou em meus ouvidos
    coisas que só um apaixonado
    conseguiria entender.
    Acariciou meus cabelos,
    beijou minha boca, e partiu.
    Agora ela está lá em cima no céu
    iluminando toda a cidade
    e eu aqui em meu quarto,
    último dia de maio,
    quase dez horas da noite:
    não faço mais nada
    além de obedecer.

domingo, 27 de maio de 2018

VONTADE DE FALAR


    NALDOVELHO

    Às vezes a vontade de falar é muita,
    aí eu derramo palavras, imagens,
    metáforas, significados,
    pequenas histórias,
    emaranhados de enredos.

    Às vezes a vontade de falar é pouca,
    aí eu mastigo o silêncio
    até extrair dele meus ais.

    Às vezes a vontade de falar é nenhuma,
    aí eu me calo na solidão do meu quarto
    e adormeço abraçado aos meus medos.



sábado, 19 de maio de 2018

SONHOS E FANTASIAS

    NALDOVELHO

    Lembro bem daquela velha senhora,
    cabelos escorridos, agrisalhados,
    olhos amendoados, aprofundados,
    como se pudessem revelar nossas almas.
    E ela gostava de nos contar histórias,
    a maior parte delas ninguém cria,
    mas ainda assim respeitosamente ouviam,
    pois nelas sempre um ensinamento havia.
    Uma em especial até hoje me assombra:
    a do homem que vivia pelas ruas
    a distribuir sonhos e fantasias,
    mas que a maior parte das pessoas
    normalmente recusavam;
    diziam que não era o caso,
    pois aquelas coisas não lhes apeteciam,
    já que eram viciados no dia a dia
    que os alimentava e consumia.
    O homem ainda assim sorria e insistia:
    uma rosa então, vejam como é bela!
    E eles respondiam que não!
    Só se viessem sem espinhos.
    E homem esperançoso
    continuava, então, o seu caminho,
    pois ele sabia que uma hora
    alguém haveria de querer,
    mas resmungava baixinho:
    gente esquisita esta,
    onde já se viu rosa sem espinho?
    É como querer a vida
    sem a dor que ela possa nos trazer,
    só se sabe da verdadeira felicidade
    quando não se tem medo de sofrer.

    Muito sábia aquela velha era,
    conhecia cada história!

domingo, 29 de abril de 2018

QUEM SABE UM DIA EU APRENDO A ORAR?

    NALDOVELHO

    É sempre o mesmo sonho.
    Os tempos são outros,
    mas o espírito é o mesmo
    e apesar do percurso,
    sobrevive em mim o poema.

    É sempre o mesmo amanhecer,
    se não é, parece!
    E ainda que eu não acredite mais
    na magia de um despertar,
    a emoção insiste em me assuntar.

    É sempre a mesma inquietude,
    a mesma solidão de outrora,
    as mesmas portas entreabertas,
    as mesmas janelas escancaradas,
    a mesma vontade de ir embora.

    É sempre o mesmo outono,
    e um trem que nunca passa na hora.
    Às vezes demora demais
    e eu não tenho paciência de esperar,
    às vezes passa antes de eu chegar.

    É sempre a mesma nostalgia,
    vontade de dizer Te amo,
    ainda que eu não saiba
    como pronunciar o Teu nome,
    ou se algum dia eu vou Te encontrar.

    É sempre o mesmo entardecer
    encharcado de suor e lágrima,
    um Pai Nosso que estás no céu
    aprisionado em minha garganta...
    Quem sabe um dia eu aprendo a orar?


CONSTRUÇÃO


    NALDOVELHO

    Na construção de uma casa, nos alicerces,
    juntem um bom bocado de sonhos
    embebidos de ilusão,
    o ideal é no traço quatro por um;
    sonhos não funcionam
    sem que haja um pouco de ilusão.

    Após, na água de preparo da massa,
    despejem alguns baldes de esperança...
    Mas não exagerem!
    Esperança demais atrapalha,
    enfraquece a massa,
    impede que ela endureça no ponto certo
    e põe em risco toda a construção.

    Ao erguerem as paredes, não esqueçam...
    Elas precisam de janelas e portas,
    tijolos necessitam ser vazados
    e o reboco deve ser na proporção
    de três de areia para um de cimento.
    Se for do gosto, substituam cal e aditivos,
    por medidas generosas de magia,
    mas o façam de preferência
    em noites claras de luar.

    Ao pintarem as paredes
    utilizem massa e tinta acrílica
    para a área externa,
    elas funcionam como um escudo,
    ajudam a impermeabilizá-las;
    e nas paredes internas,
    massa e tinta PVA,
    pois elas precisam respirar;
    seus sonhos também,
    só assim eles terão um lar.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O APRENDIZADO DO PESADELO


    NALDOVELHO


    Nem sempre é raso,
    nem sempre é liso;
    muitas vezes ao homem é preciso
    o exercício da aspereza,
    o mergulho nas profundezas,
    naufragar distante do cais,
    ferir seu corpo nos arrecifes de corais,
    soçobrar numa praia estranha
    prisioneiro de sua própria sanha,
    caminhar por ruas desertas
    ao sabor das horas incertas.

    O aprendizado do pesadelo
    nos reduzirá a escombros,
    nos estilhaçará por inteiro,
    mas nos ensinará sobre o bom sonho...

    O nosso acesso se dá entre os ais.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

UMA CASA SOBRE A ROCHA


    NALDOVELHO

    Tem coisas que eu não consigo entender,
    perguntas que ainda não sei fazer,
    lembranças que já não necessito guardar,
    é bem verdade, algumas teimam em me assombrar,
    mas estas ficam por conta dos demônios
    que ainda não consegui exorcizar;
    lugares onde eu não preciso mais ir,
    emoções que eu já não tenho que sentir...
    Já estou cascudo demais para certas coisas
    e hoje eu só quero a paz de continuar a existir
    na quietude da certeza de um porvir
    aonde toda a luz virá me iluminar
    e o inevitável recomeço me abençoar.
    Enquanto isso: no infinitivo vou alicerçando melhor
    a casa que eu teimo em erguer sobre a rocha,
    para no tempo certo construir mais um andar.

domingo, 21 de janeiro de 2018

TARDE CHUVOSA DE JULHO

     NALDOVELHO

     Tarde chuvosa de julho,
     típica de um homem cativo
     que tenta a todo custo
     se equilibrar na merda do meio fio.
     Tentativa de sobreviver ao tempo
     que atiça antigas feridas
     e espalha pelas ruas
     todos os meus guardados:
     cartas, retratos, recortes, poemas,
     inclusive a danada da nostalgia.
     Saudade de quem sem mais nem menos
     disse que era hora de partir
     e abraçada a um pé de vento
     desapareceu no firmamento,
     nunca mais se viu por aqui.
     Coisa de gente arredia!
     E o que ficou foi uma sensação estranha,
     um buraco no peito,
     que poema algum
     consegue dar jeito.

     Tarde cinzenta de julho
     e de lá pra cá em todo entardecer
     chove e faz frio,
     pelo menos dentro de mim.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O CADERNINHO

    NALDOVELHO

    Ele tinha um jeito tímido, um olhar tristonho,
    gostava de explorar praças, dobrar esquinas,
    caminhar por travessas, becos, ruínas,
    colher pelas ruas o que a vida nos ensina.
    Quando dormia aconchegado em seu canto,
    solitariamente sonhava com praias desertas,
    águas do mar acariciando rochedos,
    conchinhas, pedrinhas, multiplicidade de enredos,
    histórias que ele alinhava em segredo
    e na maioria das vezes acordado.
    Pouco falava, mas tinha um caderninho onde tudo anotava
    e sorria encabulado se alguém lhe pedisse para ler.

    Quando eu o conheci parecia ter a idade do tempo
    e dizia que há muito já havia passado a sua hora,
    que ali ainda estava somente a espera de alguém
    a quem pudesse dar seu caderninho,
    mas que era preciso que esse alguém concordasse
    em ser também um sonhador e que o fizesse em segredo.
    Perguntou se eu queria, disse-lhe então que não,
    pois eu queria ser um poeta e não saberia esconder minha dor,
    que tudo que eu colhesse logo transformaria em versos,
    que espalhados pelos quatro cantos falariam do meu amor.
    Ele riu e ainda assim me deu seu caderninho e partiu.
    Virou poeira de estrela, mora hoje numa nebulosa,
    a milhões de quilômetros daqui.

    Desde então eu falo, mas minhas palavras não ecoam,
    eu choro, mas minhas lágrimas não escoam,
    eu canto, mas o faço para dentro,
    prisioneiro que sou da solidão e do silêncio.
    Sei hoje, que a minha hora se aproxima...
    Quero ser enterrado com o maldito caderninho,
    não devo condenar ninguém a viver desta maldição.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A POESIA NÃO PRECISA DE MIM

    NALDOVELHO

    A poesia não precisa de mim,
    a palavra que brota assombrada, sim!
    E ela escorre adocicada
    na mistura de veneno e orvalho
    com o medo de morrer num naufrágio,
    da necessidade de seguir em viagem
    com a esperança que levo na bagagem,
    do sangue que se arrasta em minhas veias
    com os feitiços conjurados na lua cheia,
    da solidão que me envolve e alicia
    com a mania de acreditar em magia.
    
    A poesia não precisa de mim!
    Eu é que preciso dela até o fim.

domingo, 12 de novembro de 2017

VERSOS DE AMOR

    NALDOVELHO

    Mergulhe fundo no coração de sua casa,
    diga a ele para abrir portas e janelas,
    cômodos precisam respirar.
    Expulse de lá a umidade e o mofo,
    tire a poeira que insiste
    em tomar conta do lugar,
    depois, rabisque nas paredes
    versos a quem te trouxe dor e prazer.
    Mas não revele o nome do pecado,
    solidão, nostalgia, saudade,
    coisas que só a você interessa saber.
    Se depois de escritos os poemas parecerem patéticos,
    não se importe, versos de amor assim costumam ser.