sábado, 23 de junho de 2018

COMO SE FOSSE UM LOUCO


    NALDOVELHO

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para te ver surgir
    por de trás do horizonte,
    e vou aproveitar para colher
    fios dourados do teu amanhecer,
    e com ele tecer um manto
    que me proteja no meu anoitecer.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para colher águas macias,
    banhar minhas feridas,
    me entregar à magia,
    e como se fosse um louco
    nadar até aquele rochedo,
    soçobrar náufrago em teus braços.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para dizer que te amo,
    e vou mostrar a todos minha paixão,
    causar um escândalo,
    rasgar mapas, roteiros e planos
    e não importa até quando,
    ou se eu vou sobreviver.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para escrever nas pedras o teu nome,
    elegia ao amor derradeiro
    por quem bebeu todo o meu sangue,
    fatiou minha carne em postas
    deixou marcas, profundas marcas, 
    me matou de prazer.




quarta-feira, 20 de junho de 2018

DEIXEM EM PAZ O MEU POBRE CORAÇÃO


    NALDOVELHO

    Se eu enterrasse meu coração no fundo do quintal,
    não mais teria que me preocupar com a saudade,
    tão pouco saberia das perdas e desencantos,
    escrever poemas de amor, não mais saberia...
    Caminharia, então, por recantos da minha cidade
    sem me preocupar com as armadilhas da paixão,
    não teria mais insônia, nem a danada da nostalgia,
    coisas próprias dos que são reféns da solidão.

    Se eu enterrasse meu coração no fundo do quintal,
    lágrimas no canto dos olhos não mais incomodariam,
    nem cicatrizes que doem na mudança de tempo, 
    medo de madrugadas cinzentas, também não teria,
    dormiria esquecido na aridez de um quarto escuro
    sem me preocupar com o que existe atrás do muro,
    pois descortinar novas realidades eu não saberia,
    e finalmente curaria a maldita da inquietude.

    E no lugar em que meu coração estivesse enterrado,
    lírios, jasmins e crisântemos floresceriam,
    uma fonte de água cristalina surgiria
    e ao lado do pequeno túmulo um epitáfio:

    deixem em paz o meu pobre coração!    










segunda-feira, 18 de junho de 2018

CAIXINHA DE MÚSICAS



    NALDOVELHO

    Eu tenho uma caixinha de músicas
    e lá eu guardo as mais belas canções,
    e são tantas!
    Vez em quando pego uma
    e invento enredos, poemas,
    revestidos de trilhas sonoras
    que alimentam o meu ser.

    Existem músicas que eu percebo
    encharcadas de orvalho,
    são elas que preparam o amanhecer,
    harmonias próprias da madrugada,
    e eu já amanheci tantas vezes
    que até virei um especialista
    na arte de sobreviver. 

    Outras, penso que sejam outonais,
    e quando isso acontece
    eu fecho os olhos e me vejo
    caminhando pelas ruas da cidade
    de braços dados com um tempo de delicadeza
    apinhado de folhas caídas das árvores,
    brisa macia, tons de dourado, renovação.

    Gosto também daquelas
    que cheiram a entardecer...
    Café servido sem pressa,
    as rolinhas passeando pela sala,
    janelas propositadamente abertas,
    e a lua que chega a me dizer saudade:
    eu vim aqui só para te ver.

    Mas existem também
    as ardidas de desencontros,
    de insônia que brota insistente
    das paredes do meu quarto,
    Lady Day sussurrando em meus ouvidos,
    uma garrafa de uísque já pela metade
    e eu me percebo abraçado a um blues.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

DESENHOS NO AR



    NALDOVELHO

    Pegue um lápis
    em sua caixinha de magia
    e desenhe no ar uma nuvem,
    depositando nela muita luz. 
    Mas que seja azulada!

    Agora faça-a chover
    dentro do seu quarto,
    de forma a que suas gotas
    tragam para a sua pele
    o frescor da restauração.

    Depois desenhe um sol
    e deixe que ele amanheça;
    se quiser pode abrir a janela,
    pois este pequeno astro
    ficará cativo de sua imaginação.

    Perceba que gotas de luz
    que chovem azuladas
    quando misturadas
    a amarelidão de uma alvorada,
    fazem crescer relva verdinha.

    Agora um rosto de mulher,
    um sorriso, um olhar preciso,
    um carinho suave e aconchegado...
    Desenhe todas as coisas
    próprias da paixão.

    Aproveite e escreva
    um bom bocado de poemas,
    são ótimos para suavizar o coração,
    pois por lá não haverá mais espaço
    para o amargor da solidão.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

VIAGEM PARA DENTRO DE MIM


    NALDOVELHO

    Eu fiz uma viagem para dentro de mim
    na esperança de saber qual seria o meu fim.
    Encontrei uma caixa apinhada de delicadezas,
    o antídoto para todas as minhas tristezas,
    enredos alinhavados faz tempo,
    madrugadas vadias passadas ao relento,
    a possibilidade de revelar meus segredos,
    a coragem de superar meus medos,
    o carinho da mulher amada,
    brisa macia, pele branca, suas sardas,
    música suave, vinho tinto e rascante
    e o seu: branco, doce, e inebriante.

    Eu fiz uma viagem para dentro de mim,
    mas por lá não consegui saber do meu fim.
    Encontrei um emaranhado de descobertas,
    clareiras, nascentes, densas florestas,
    o significado da palavra liberdade,
    a vontade de viver numa outra realidade,
    a ventura de ter muito mais do que eu mereço,
    muitas casas de passagem, muitos recomeços,
    uma gaveta lotada de poemas saídos dos escombros,
    uma oração, um terço, o aprendizado a cada tombo,
    a certeza de que nada tenho que seja só meu,
    a sabedoria dos loucos e a presença sagrada de Deus.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

UMA XÍCARA DE CHÁ INOCENTE


    NALDOVELHO

    Preciso urgentemente de um motivo
    para escrever um poema,
    um que seja um sopro de liberdade,
    um pote cheio de verdades,
    um ombro amigo numa noite escura,
    um gesto carregado de ternura.

    Preciso urgentemente de um motivo
    para continuar na estrada,
    um que seja muito mais do que um carinho,
    que possa extrair do meu corpo os espinhos,
    atirar pela janela os fantasmas,
    limpar do meu quarto os miasmas.

    Preciso urgentemente de um motivo
    que afugente dos meus dias a solidão,
    que me propicie sonhar com delicadezas,
    que traga luz às minhas incertezas,
    que me presenteie com um sorriso,
    que não permita que eu perca o juízo.

    Preciso urgentemente de um motivo
    para escrever um poema,
    um que me cure da inquietude,
    que me traga uma xícara de chá inocente,
    a misericórdia de um olhar complacente
    e que tenha a força de uma oração.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

ÚLTIMO DIA DE MAIO


    NALDOVELHO

    Hoje, logo depois do anoitecer,
    lua cheia pousou no meu quintal.
    E ficou lá por um bom tempo;
    segundo ela: assuntos pendentes,
    e também uma boa dose de saudade.
    Fiquei até emocionado!
    Imaginem a lua com saudade do poeta...
    Meus olhos ficaram marejados,
    minha pele toda arrepiada,
    por saber que por mim ela nutria
    tanto bem querer.
    Perguntou-me, então, o porquê
    de eu recusar o poema,
    ralhou comigo fingindo-se aborrecida,
    disse que eu não poderia parar de escrever,
    pois eu não era o dono das minhas verdades,
    nem da magia que eu trazia comigo
    e que o meu compromisso com a poesia
    era o que de mais sagrado poderia haver.
    Teve uma hora que eu fiquei até assustado,
    pois de canto de olho eu vi
    São Jorge de lança em punho
    e o dragão a me olhar de soslaio...
    Pensei até que ele fosse me comer!
    Mas não! Lua cheia disse
    que era só eu tomar tenência,
    pois muito havia ainda o que escrever.
    Depois de um tempo,
    ela sussurrou em meus ouvidos
    coisas que só um apaixonado
    conseguiria entender.
    Acariciou meus cabelos,
    beijou minha boca, e partiu.
    Agora ela está lá em cima no céu
    iluminando toda a cidade
    e eu aqui em meu quarto,
    último dia de maio,
    quase dez horas da noite:
    não faço mais nada
    além de obedecer.

domingo, 27 de maio de 2018

VONTADE DE FALAR


    NALDOVELHO

    Às vezes a vontade de falar é muita,
    aí eu derramo palavras, imagens,
    metáforas, significados,
    pequenas histórias,
    emaranhados de enredos.

    Às vezes a vontade de falar é pouca,
    aí eu mastigo o silêncio
    até extrair dele meus ais.

    Às vezes a vontade de falar é nenhuma,
    aí eu me calo na solidão do meu quarto
    e adormeço abraçado aos meus medos.



sábado, 19 de maio de 2018

SONHOS E FANTASIAS

    NALDOVELHO

    Lembro bem daquela velha senhora,
    cabelos escorridos, agrisalhados,
    olhos amendoados, aprofundados,
    como se pudessem revelar nossas almas.
    E ela gostava de nos contar histórias,
    a maior parte delas ninguém cria,
    mas ainda assim respeitosamente ouviam,
    pois nelas sempre um ensinamento havia.
    Uma em especial até hoje me assombra:
    a do homem que vivia pelas ruas
    a distribuir sonhos e fantasias,
    mas que a maior parte das pessoas
    normalmente recusavam;
    diziam que não era o caso,
    pois aquelas coisas não lhes apeteciam,
    já que eram viciados no dia a dia
    que os alimentava e consumia.
    O homem ainda assim sorria e insistia:
    uma rosa então, vejam como é bela!
    E eles respondiam que não!
    Só se viessem sem espinhos.
    E homem esperançoso
    continuava, então, o seu caminho,
    pois ele sabia que uma hora
    alguém haveria de querer,
    mas resmungava baixinho:
    gente esquisita esta,
    onde já se viu rosa sem espinho?
    É como querer a vida
    sem a dor que ela possa nos trazer,
    só se sabe da verdadeira felicidade
    quando não se tem medo de sofrer.

    Muito sábia aquela velha era,
    conhecia cada história!

domingo, 29 de abril de 2018

QUEM SABE UM DIA EU APRENDO A ORAR?

    NALDOVELHO

    É sempre o mesmo sonho.
    Os tempos são outros,
    mas o espírito é o mesmo
    e apesar do percurso,
    sobrevive em mim o poema.

    É sempre o mesmo amanhecer,
    se não é, parece!
    E ainda que eu não acredite mais
    na magia de um despertar,
    a emoção insiste em me assuntar.

    É sempre a mesma inquietude,
    a mesma solidão de outrora,
    as mesmas portas entreabertas,
    as mesmas janelas escancaradas,
    a mesma vontade de ir embora.

    É sempre o mesmo outono,
    e um trem que nunca passa na hora.
    Às vezes demora demais
    e eu não tenho paciência de esperar,
    às vezes passa antes de eu chegar.

    É sempre a mesma nostalgia,
    vontade de dizer Te amo,
    ainda que eu não saiba
    como pronunciar o Teu nome,
    ou se algum dia eu vou Te encontrar.

    É sempre o mesmo entardecer
    encharcado de suor e lágrima,
    um Pai Nosso que estás no céu
    aprisionado em minha garganta...
    Quem sabe um dia eu aprendo a orar?


CONSTRUÇÃO


    NALDOVELHO

    Na construção de uma casa, nos alicerces,
    juntem um bom bocado de sonhos
    embebidos de ilusão,
    o ideal é no traço quatro por um;
    sonhos não funcionam
    sem que haja um pouco de ilusão.

    Após, na água de preparo da massa,
    despejem alguns baldes de esperança...
    Mas não exagerem!
    Esperança demais atrapalha,
    enfraquece a massa,
    impede que ela endureça no ponto certo
    e põe em risco toda a construção.

    Ao erguerem as paredes, não esqueçam...
    Elas precisam de janelas e portas,
    tijolos necessitam ser vazados
    e o reboco deve ser na proporção
    de três de areia para um de cimento.
    Se for do gosto, substituam cal e aditivos,
    por medidas generosas de magia,
    mas o façam de preferência
    em noites claras de luar.

    Ao pintarem as paredes
    utilizem massa e tinta acrílica
    para a área externa,
    elas funcionam como um escudo,
    ajudam a impermeabilizá-las;
    e nas paredes internas,
    massa e tinta PVA,
    pois elas precisam respirar;
    seus sonhos também,
    só assim eles terão um lar.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O APRENDIZADO DO PESADELO


    NALDOVELHO


    Nem sempre é raso,
    nem sempre é liso;
    muitas vezes ao homem é preciso
    o exercício da aspereza,
    o mergulho nas profundezas,
    naufragar distante do cais,
    ferir seu corpo nos arrecifes de corais,
    soçobrar numa praia estranha
    prisioneiro de sua própria sanha,
    caminhar por ruas desertas
    ao sabor das horas incertas.

    O aprendizado do pesadelo
    nos reduzirá a escombros,
    nos estilhaçará por inteiro,
    mas nos ensinará sobre o bom sonho...

    O nosso acesso se dá entre os ais.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

UMA CASA SOBRE A ROCHA


    NALDOVELHO

    Tem coisas que eu não consigo entender,
    perguntas que ainda não sei fazer,
    lembranças que já não necessito guardar,
    é bem verdade, algumas teimam em me assombrar,
    mas estas ficam por conta dos demônios
    que ainda não consegui exorcizar;
    lugares onde eu não preciso mais ir,
    emoções que eu já não tenho que sentir...
    Já estou cascudo demais para certas coisas
    e hoje eu só quero a paz de continuar a existir
    na quietude da certeza de um porvir
    aonde toda a luz virá me iluminar
    e o inevitável recomeço me abençoar.
    Enquanto isso: no infinitivo vou alicerçando melhor
    a casa que eu teimo em erguer sobre a rocha,
    para no tempo certo construir mais um andar.