quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PRIMAVERA

    NALDOVELHO

    O bruxulear de uma saudade,
    olhos embaçados, tantas verdades,
    um terço enrolado na mão direita,
    uma sombra, o silêncio, uma suspeita,
    madrugada que se arrasta pela cidade,
    é o sol que surge sem fazer alarde,
    é o dia que boceja em minha janela,
    vinte e um de setembro, fim da espera.

    Primavera que se assanha em meu jardim,
    lírios, crisântemos, jasmins,
    um anjo ao meu lado na espreita,
    uma sombra, o silêncio, uma suspeita,
    solidão companheira de tanto tempo
    diz que é hora de partir num pé de vento
    e o terço nas mãos suaviza meu coração,
    acendo uma vela e me ponho em oração.


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

PARA ESPANTAR A SOLIDÃO

    NALDOVELHO


    Eu me lembro daquele menino
    que gostava de colecionar sonhos,
    tinha um olhar meio assim sem juízo,
    andava distraído pelas ruas
    e não raro tropeçava nas palavras que trazia,
    mas que por timidez quase não dizia.

    Até por isto outras manias ele desenvolveu:
    gostava de observar tudo o que ao seu redor existia,
    até aquilo que ele não via,
    mas que nem sei por conta de quê,
    ele milagrosamente percebia;
    não raro conversava com as paredes de sua casa
    e com todas as coisas que por lá existiam;
    dava nomes às portas e janelas
    e dizia que através delas ele podia perceber
    a noite e o dia, a tristeza e a alegria.
    O desamor não, pois essa palavra ele não sabia.

    Acho até que por causa disso
    ele resolveu aprender a fazer poesia,
    palavras, sonhos, conteúdos e significados,
    tudo bem misturado numa folha de papel em branco
    onde o risco dos tropeços ele não corria.

    Faz bem pouco tempo eu o encontrei,
    já não um menino, pois muito se passou.
    Até hoje ele cultiva suas manias:
    continua colecionando sonhos,
    dando vida e conversando com as coisas,
    e adora escrever poemas, parece até que são bons...
    Ele diz que é para espantar a solidão.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

NÃO

    NALDOVELHO


    Imaginem uma palavra que eu não posso dizer,
    asas que já não conseguem voar,
    olhos que não se prestam a perceber,
    ouvidos que não se interessam em escutar,
    braços que não se permitem o abraço,
    mãos que não se dedicam ao carinho.

    Imaginem uma música que eu não devo tocar,
    uma saudade que não eu não posso confessar,
    pernas que já não têm para onde ir,
    esquinas que eu não posso mais dobrar,
    ruas por onde não se pode caminhar,
    um coração que já não sabe como se apaixonar.

    Imaginem lágrimas que eu não posso chorar,
    um poema que eu não quero escrever,
    uma morte que eu não quero morrer.



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

POEMA ESCRITO NA PEDRA

    NALDOVELHO


    Eu sei de uma carta escrita na pedra,
    ilusões alinhavadas em versos,
    palavras de puro desassossego
    de quem revelou seus segredos,
    vivenciou o anjo e o demônio,
    e depois de um tempo se perdeu.

    Eu sei de uma carta que pouca gente leu!
    palavras enxertadas de heresia,
    poema de solidão e clausura,
    versos forjados na demência de um poeta
    que ao rasgar mapas e planos,
    soçobrou naufrago do seu desengano.

    Eu sei de uma carta escrita, faz tempo,
    poema encharcado de ternura,
    vez em quando leio em voz alta
    na esperança de conseguir entender
    a alma demente de um sonhador,
    versos entrelaçados de amor e dor.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

24500

    NALDOVELHO


    Numa caixa de sapatos um monte de retratos,
    a gaveta da mesinha entulhada de recortes,
    uma prateleira na estante entupida de livros,
    pelo quarto espalhados pedaços do meu passado,
    minhas mãos doloridas de cavar uma saída,
    buracos nas paredes, no teto, no chão.

    Janelas e portas emperradas faz tempo,
    e eu continuo prisioneiro da minha história.
    poemas ocultos, encravados lá dentro,
    coágulos nas artérias que regam meu coração,
    nos pulmões ainda restam alguns cigarros
    e nos ouvidos ainda soa aquela canção.

    Primavera, verão, outono e inverno,
    ainda sinto falta de um bom conhaque,
    a glicose continua alta, não consigo controlar,
    a vontade anda fraca, melhor nem tentar,
    cada dia passado é menos um dia,
    qualquer hora dessas vou ter que viajar.

    Pela vidraça eu vejo o dia que passa,
    e são tantos que ultimamente dei pra contar,
    minhas malas estão prontas, já faz um bom tempo,
    levo quase nada que seja só meu,
    mesmo os poemas, não quero levar,
    matriculei-me n'outra escola, vou aprender a pintar.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

CUIDADO

    NALDOVELHO


    Cuidado com a palavra
    que corrói tuas entranhas,
    com versos destrambelhados
    de estranhos significados,
    cuidado com as sombras
    que assombram teus sonhos,
    com o grito preso na garganta,
    com cortes não cicatrizados
    que vez por outra inflamam,
    cuidado com a saudade
    que te invade sem fazer alarde,
    com a solidão das noites escuras,
    com a fome que te leva a loucura.

    Prefira caminhos
    que te permitam amanhecer,
    que tragam a possibilidade
    de dobrar muitas esquinas,
    que te mostrem os mais secretos
    encantos da cidade,
    pois ainda que muitos sejam os tombos,
    e a possibilidade de entardecer
    abraçado aos teus próprios escombros,
    haverá sempre o abraço do amigo,
    o carinho da amante
    e a compreensão do irmão.
    Só assim terá valido a pena viver.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

TODOS OS CAMINHOS

    NALDOVELHO

    Fio, pavio, arrepio...
    a possibilidade do desafio,
    a complexidade da engrenagem,
    a necessidade de se sair em viagem,
    o medo de tropeçar nas próprias pernas,
    a imponderabilidade das coisas eternas,
    a dança perversa das horas,
    a inquietude que às vezes aflora,
    a indisfarçável esperteza do tempo,
    a instabilidade característica dos ventos,
    a calmaria que assola meus dias,
    a vontade de me abraçar na poesia,
    as lágrimas que me suavizam a alma,
    a palavra que provoca e acalma...
    Tudo conspira para uma nova dança,
    o fogo que mantem acesa a esperança,
    a constatação de que todos os caminhos são Seus
    e que a cada passo maior é a minha crença em Deus.




sábado, 8 de julho de 2017

E POR FALAR NO TEMPO


NALDOVELHO

Conversa entre dois homens.

-  É impossível jogar com o tempo,
   quando você menos espera
   ele trapaceia e altera o resultado.

-  Nem sempre!
   Às vezes ele deixa você ganhar
   só para que você sinta
   o amargor de sua vitória.

-  Pois é!
   É exatamente disto
   que eu estou falando:
   é impossível jogar com o tempo!


sexta-feira, 23 de junho de 2017

É DA MINHA ESSÊNCIA

    NALDOVELHO

    É da minha essência
    a luz que alumia meus passos,
    a lua que suaviza o meu espírito,
    o orvalho que cicatriza feridas,
    as madrugadas que habitam meus sonhos...
    Daqui a pouco o sol acontece,
    manhãs preguiçosas de inverno
    e eu envolto em cobertas
    sinto o cheiro do café encorpado bem forte,
    lá fora a passarinhada faz uma prece,
    linguagem de anjo em versos,
    sinfonia igual eu nunca ouvi.

    É da minha essência
    a nostalgia que assombra meus dias:
    vontade de dizer o quanto eu te amo,
    saudades que eu guardo do teu cheiro,
    do frescor do teu corpo inteiro,
    do tempo dos cigarros compartilhados
    em que eu era feliz e não sabia
    e ainda que hoje eu viva de recomeços,
    estará sempre faltando um pedaço
    que por pura maldade você levou. 
    Coisa mais sem graça a casa vazia
    e não saber onde você está.

    É da minha essência
    a solidão que me devora,
    a esperança de quem olha pro céu e ora;
    se não acreditar coração não aguenta
    e embora eu saiba que dia desses ele arrebenta,
    o poema é sempre uma bênção,
    magia que eu pratico faz tempo,
    colheitas de quem sondou firmamentos,
    sobreviveu aos seus muitos tombos,
    aprendeu linguagem dos anjos,
    pois apesar da tamanha inquietude
    é da minha essência acreditar em Deus.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CÍRCULO VICIOSO

    NALDOVELHO

    Caminho em círculos
    daqui pra lá, de lá pra cá,
    faz tempo assim, sem parar.
    Às vezes sinto minha alma em outro lugar,
    às vezes meus olhos me iludem
    e eu penso Te enxergar;
    mas Te enxergar eu não consigo...
    Ilusão, assombração, miragem
    e eu aqui a escrever um monte de bobagens
    na pretensão de forjar com palavras
    chaves que me permitam o acesso,
    versos que arrombem portas,
    que me levem bem distante...
    Mas o distante eu não consigo,
    e uma vez mais eu me vejo
    voltando para o mesmo lugar.
    Heresia diriam alguns!
    Sacrilégio diriam outros!
    Mas eu continuo na ilusão
    de um dia poder Te enxergar.

    Passado, presente e o futuro
    se atritam dentro de mim,
    é o tempo a devorar minhas entranhas.
    Minha mente presa num armário
    e o meu coração de um tempo pra cá
    deu pra bater ao contrário,
    tanto que qualquer dia desses
    eu vou acabar tendo que renascer.
    Mas minhas pernas ainda caminham daqui pra lá,
    e mais que depressa, de lá pra cá,
    faz tempo assim, sem parar.
    E eu a me contorcer nervoso
    tento me esgueirar por uma fresta de janela,
    quero ver o dia raiar!
    Mas a poesia em mim padece aprisionada
    a uma solidão cada vez mais perversa.
    Vou até a cozinha, tomo um café
    e ainda sinto vontade de fumar um cigarro.
    Logo-logo amanhece em meu quarto
    e eu me aquieto no mesmo lugar
    na esperança de um dia poder Te enxergar.

domingo, 11 de junho de 2017

POEMA DE AMOR

    NALDOVELHO

    Quando eu chego dentro de mim
    encontro um mundo de magia
    e será sempre amanhecer de um novo dia,
    certa neblina tomando conta das colinas,
    um friozinho gostoso, relva molhada de orvalho,
    e na janela de uma casinha avarandada
    o amor que eu não vivi me acena e diz:
    seja bem vindo meu poeta!

    Quando eu chego lá nas funduras
    escuto harmonias pontilhadas de sonhos
    e o meu amor a desfiar uma toada
    colhida em noites de espera,
    madrugadas distantes de mim mesmo,
    e ela fala da paixão que entre nós acontece,
    e eu me vejo colhendo luzes pelo caminho
    e me entrego a Deus na contrição de uma prece.

    Quando eu me aquieto dentro de mim,
    me sinto encharcado de ternura,
    esqueço a solidão e a clausura,
    a insônia das noites escuras,
    e me vejo semeando esperanças
    no sorriso puro de uma criança,
    macero palavras numa folha de papel em branco
    e escrevo um poema de amor.







quarta-feira, 7 de junho de 2017

UMA VALSA

    NALDOVELHO

    Deixe os seus dedos
    sobre as teclas do piano.
    Toque-me uma valsa,
    uma que me traga arrepio,
    que me faça caminhar pela vida
    sem ter medo de escorregar no meio fio.

    Toque-me uma valsa,
     uma que me faça esquecer
     dos anos passados sozinho
     nas trilhas dos meus descaminhos,
     uma que me desencrave a lágrima,
     que faz tempo se recusa a chorar.

     Toque-me uma valsa,
     ponta de dedos acariciando o ar,
     janelas abertas, o mês é de outono,
     e você me convida para mais uma dança,
     tomara que esta música
     nunca mais pare de tocar.

  

sábado, 3 de junho de 2017

LUA INQUIETA

    NALDOVELHO


    Eu sei de uma lua inquieta,
    pele irrigada de sardas,
    luz encantada de minhas madrugadas,
    que quando vem a minha janela,
    já nem sei de mim,
    ou se vou sobreviver.

    Eu sei de uma lua repleta
    de tramas, segredos, mistérios,
    que transpassa paredes que me cercam,
    que enrolada em minhas cobertas,
    sussurra indecências
    e finge construir permanências.

    Eu sei de uma lua madrugadeira
    que gosta de se infiltrar nos poemas
    e diz que só assim valerá à pena
    semear palavras molhadas,
    sêmen, suor, saliva, paixão,
    sementeiras de cultivar ilusão.

    Eu sei de uma lua feiticeira
    pois quando a noite vai embora
    ela simplesmente amanhece,
    e o que eu colho no chão do meu quarto
    é o silêncio das coisas vazias,
    é o fruto amargo da solidão.






quinta-feira, 1 de junho de 2017

ALGUÉM POR AÍ TEM UMA PINÇA?

    NALDOVELHO


    Noite friorenta de maio,
    chuva fina, vento macio, delírio.
    Um espinho resiste inflamado,
    lado esquerdo do peito, encravado.
    Uma lágrima no olho engasgada,
    traz certa ardência,
    quer revelar o estrago,
    diz que chorar é preciso,
    só que eu ainda não consigo.
    Na palma da mão, cacos de vidro,
    faz tempo, espetados.

    Vejo ferrugem pra todo lado,
    nostalgia colhida na orla,
    e as palavras indecisas na areia
    dizem que querem ficar,
    mas maré vazante
    quer levá-las pr’um outro lugar.

    E se eu morresse amanhã de manhã?
    E se o silêncio me tomasse de assalto?
    Será que eu conseguiria chorar?

    Noite friorenta de maio...


    Alguém por aí tem uma pinça?

domingo, 28 de maio de 2017

O QUE FALTA SER DITO AFINAL?

    NALDOVELHO


    Por estas paragens desertas
    manhãs derramadas incertas,
    caminhos sombrios, solitários,
    de vento que venta ao contrário
    e dissemina o outono em minha vida,
    cicatrizes antigas feridas.
    sentimento de coisa sem dono,
    rei deposto, sem pátria e sem trono,
    emoção descabida, muitos sonhos,
    e eu assim como se fosse um estranho,
    pergunto ao tempo o porquê,
    e ele responde que é como tinha de ser.

    Um coração que só sabe bater afrontado,
    um trem que só anda atrasado,
    já estou faz tempo nesta estação
    e ainda toca aquela maldita canção...
    a que fala de dias nublados e friorentos,
    mas se queres saber eu ainda aguento
    caminhar por estas paragens desertas,
    dobrar esquinas silenciosas, incertas,
    cultivar palavras de dissipar tempestades,
    dizer que eu te amo apesar da saudade,
    e que a esperança aumenta mais a ansiedade...
    Palavras poemas, bobagens, minhas verdades.


    O que falta ser dito afinal?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

NOVELOS DE LÃ

    NALDOVELHO

    Novelos de lã embaraçados, tapeçaria inacabada,
    janela escancarada, manhã sonolenta de maio,
    um vento frio invade o meu quarto,
    em cima da mesa, folhas de papel em branco,
    faz tempo não escrevo nada.

    Na vitrola um disco de vinil, ainda os tenho!
    Mania de coisas antigas,
    guardados que me alimentam o espírito,
    significados, imagens, poemas,
    coisas de há muito ultrapassadas.

    Pelas ruas floresce a loucura
    e eu aqui a insistir na ternura
    tento desencravar um verso.
    Na estante meus santos conversam,
    o eremita observa e se compadece.

    Maria que a tudo assisti,
    amorosamente sorri!

terça-feira, 23 de maio de 2017

ATÉ QUANDO?

    NALDOVELHO


    Sobre a pedra polida e fria
    a água se espalha
    em busca de um caminho.
    Sob a pele que permeia o dia
    um leito ressequido de rio.
    Sob a rua enluarada
    os intestinos da cidade.

    Da janela do meu quarto
    eu percebo no horizonte
    pássaros em revoada
    em busca de um oásis distante.

    Minha alma chora,
    mas ainda é cedo para ir embora.
    Não há nada de novo nas horas,
    tudo é hoje como era antes.

    E uma voz numa prece suplicante
    pede ao Pai por piedade,
    pois eles não sabem o que fazem...

    Até quando?



domingo, 7 de maio de 2017

DELICADEZA

    NALDOVELHO

    Eu trago a ternura
    estampada em meu sorriso,
    um olhar meio assim sem juízo;
    mania de caminhar
    entre escombros
    na esperança de colher
    coisas esquecidas por seus donos.

    Eu tenho o defeito
    de levar muitos tombos,
    meus amores, minhas perdas,
    e a teimosia de caminhar
    pela beira do abismo,
    meio sábio, meio demente,
    aprendiz na arte de ser gente.

    Eu tenho o costume
    de orar pelo mundo que eu vejo,
    de construir caminhos
    que dissolvam meus medos,
    de cultivar em mim a solidão
    que alimenta e devora,
    nostalgia que não vai embora.

    Eu trago em mim a delicadeza
    que permeia meus sonhos,
    coisa de quem acredita em magia,
    e que nos estertores da madrugada
    beija sempre a boca de um novo dia
    e chora de emoção
    ao ver o sol nascer.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

É SOBRE PORTAS E JANELAS

    NALDOVELHO

    É sobre portas e janelas
    que eu preciso falar,
    é sobre tessituras de sonhos,
    poder caminhar pela vida,
    molhar meus pés
    nas águas de um rio
    que lá no fim dos tempos
    vai desembocar no mar.

    É sobre cair e levantar,
    possibilidade de mais uma dança,
    sorriso puro de criança,
    vinho suave e encorpado,
    amanhecer de outono ao teu lado,
    coisas simples de se falar,
    noites friorentas,
    magia de luar.

    É sobre mulher amada,
    pernas enroscadas,
    já nem sei quais são as minhas,
    e dá uma preguiça danada,
    madrugadas friorentas de maio,
    café coado sem pressa,
    cigarros compartilhados,
    coisas boas de sonhar.

    É sobre portas e janelas
    e de preferência abertas,
    teu ombro amigo
    nas horas incertas,
    sussurros, gemidos, grunhidos,
    suor, saliva, sêmen, semente,
    água pura de nascente,
    essência de alfazema pelo ar.

terça-feira, 2 de maio de 2017

JÁ NÃO VALE A PENA CONTINUAR

    NALDOVELHO

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema caminha pelas ruas
    em busca de novas possibilidades.
    Ignora o que o passado possa lhe dizer,
    nega nostalgias e saudades,
    e ao tentar dobrar esquinas,
    colhe sementes de pé de vento,
    distanciamentos, fim dos tempos.

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema já não reconhece
    a saudade ardida, a lágrima derramada,
    a despedida...
    Ignora a dor do poeta,
    virou coisa fria e amarga,
    semeia um tempo de indelicadezas,
    nada que possa nos emocionar.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

E EU SEM SABER O QUE FAZER DA SAUDADE

    NALDOVELHO

    E mais uma vez eu tento remontar o cenário.
    Em minha mente um maço de cigarros, quase vazio,
    em cima da mesa um cinzeiro lotado
    e uma garrafa de conhaque já pela metade...
    Noite fria e chuvosa de julho,
    e aqui dentro do quarto Belchior canta paralelas:
    paixão, desencontro, desencanto, solidão.
    E eu sem saber o que fazer da saudade,
    percebo vazios, estios, embaraçados os fios...
    A cama desarrumada, cobertor pelo chão  
    e os meus travesseiros massacrados pela solidão.
    
    Mantenho sempre a janela entreaberta,
    apesar do vento frio que vez por outra me invade. 
    Mantenho sempre a luz do abajur acesa,
    um bloco de papel sobre a mesa,
    e exorcizei fantasmas, tristezas.
    Faz tempo não fumo mais cigarros,
    tão pouco bebo do maldito conhaque,
    cauterizou velhas feridas, mas trouxe hemorragia...

    Faz tempo não perambulo pelas ruas da cidade
    e eu continuo sem saber o que fazer da saudade.












quinta-feira, 13 de abril de 2017

UMA VELA ACESA NUM QUARTO ESCURO

    NALDOVELHO

    Uma vela acesa num quarto escuro,
    a necessidade de derrubar um muro,
    é preciso abrir tramelas, portas, janelas, cancelas,
    refletir sobre as coisas que a vida nos revela,
    caminhar noite adentro, madrugadas ao relento,
    viajar com as asas que temos por dentro,
    atravessar ruas, dobrar esquinas,
    aprender passo a passo sobre o que a dor nos ensina,
    quebrar correntes que nos mantém em clausura,
    buscar no carinho ofertado um verso de ternura,
    é preciso colher os frutos trazidos pela inquietude,
    semear esperanças, buscar amplitudes,
    tirar a venda que nos impede a visão,
    libertar a palavra aprisionada em minha solidão.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ENTRE O INFERNO E O PARAÍSO

    NALDO VELHO

    Entre o inferno e o paraíso
    trilhas de pura insanidade.
    Um querubim a tudo assisti e sorri!
    E alguém grita de longe
    que o diabo também já foi um anjo.
    Verdades vazias, frases reticentes,
    portas fechadas, becos sombrios
    e um labirinto de vontades,
    no final dele uma esfinge me observa,
    e diz que um dia vai me devorar.

    Entre o sonho e o pesadelo,
    uma linha esticada, um novelo,
    se afrouxar demais embaraça,
    se esticar muito arrebenta,
    coração quase não aguenta
    andar no limite da loucura,
    viver em busca de ternura,
    naufragar tão perto do cais.
    E a esfinge se põe a sorrir
    na certeza de um dia me devorar.

    Entre a solidão e a clausura,
    um punhado de noites desertas,
    mais de mil poemas escritos
    na tentativa de um dia ser um anjo,
    poder voar como voam os pássaros,
    e a vontade de abrir a janela,
    expulsar a inquietude do meu quarto,
    desembaraçar de vez este novelo,
    e matar a danada esfinge
    que existe dentro de mim.