sábado, 25 de fevereiro de 2017

ENTRE O INFERNO E O PARAÍSO

    NALDO VELHO

    Entre o inferno e o paraíso
    trilhas de pura insanidade.
    Um querubim a tudo assisti e sorri!
    E alguém grita de longe
    que o diabo também já foi um anjo.
    Verdades vazias, frases reticentes,
    portas fechadas, becos sombrios
    e um labirinto de vontades,
    no final dele uma esfinge me observa,
    e diz que um dia vai me devorar.

    Entre o sonho e o pesadelo,
    uma linha esticada, um novelo,
    se afrouxar demais embaraça,
    se esticar muito arrebenta,
    coração quase não aguenta
    andar no limite da loucura,
    viver em busca de ternura,
    naufragar tão perto do cais.
    E a esfinge se põe a sorrir
    na certeza de um dia me devorar.

    Entre a solidão e a clausura,
    um punhado de noites desertas,
    mais de mil poemas escritos
    na tentativa de um dia ser um anjo,
    poder voar como voam os pássaros,
    e a vontade de abrir a janela,
    expulsar a inquietude do meu quarto,
    desembaraçar de vez este novelo,
    e matar a danada esfinge
    que existe dentro de mim.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SUAVE É A NOITE

    NALDOVELHO

    Suave é a noite que transpira outono,
    mês de maio que me abre a janela,
    destila em poemas meus sonhos,
    dá brilho a saudade que eu sinto dela,
    diz que nostalgia é coisa à toa,
    e inconveniente como ela só,
    nem pede licença, diz que veio para ficar.

    Suaves são os acordes do meu violão,
    canção, toada, cantiga de ninar,
    que acariciam meus ouvidos,
    dão sentido aos meus versos,
    e seduzem lua cheia que se aprochega da janela,
    e me pede para entrar,
    diz que traz a cura dos meus males,
    mas ela mente!
    É só mais uma dose de veneno,
    que eu vou ser obrigado a tomar.

    Suaves são os amanheceres de maio,
    a noite já foi embora,
    deixou em minha cama seu cheiro,
    perfume inconfundível de lua cheia,
    travesseiro amassado, jogado num canto,
    lençóis e fronhas molhadas,
    e a cidade ignora meus versos,
    meus cortes, minha saudade, meus sonhos,
    e diz que já é hora de acordar.







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ENCONTRO MARCADO

    NALDOVELHO

    Eu tenho um encontro marcado
    com os sonhos que eu deixei de sonhar,
    com os amores esquecidos no passado,
    com a criança adormecida dentro mim,
    com as madrugadas molhadas de orvalho,
    com o poema que eu não consegui escrever

    Eu tenho um encontro marcado
    e poderia ser até com você!
    Quem sabe então pudéssemos viver
    um tempo de nunca mais esquecer
    a ternura fundamental de um carinho
    e a vontade de nunca mais sermos sozinhos?

    Eu tenho um encontro marcado
    com a possibilidade de dobrar esquinas,
    com a música que eu sempre gostei de fazer,
    com as telas que eu nunca soube pintar...
    Eu tenho um encontro marcado
    com tudo aquilo que eu não fui capaz de criar.

    Eu tenho um encontro marcado
    com a diversidade de trilhas, caminhos,
    com a certeza de poder transpor obstáculos,
    mas também com a derrota que tanto nos ensina.
    Eu tenho um encontro marcado com o meu tempo
    e quem sabe lá no fim eu possa ser digno de Você?


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CONVERSA RIBEIRA

NALDOVELHO

Vó Miudinha era um ser muito especial, dava gosto vê-la caminhar pela vida abraçada às suas peculiaridades, assim como que semeia encantamentos. Lembro, em especial, do café fervido junto com a água, passado sem pressa e borrifado de canela, servido bem quente e melado, que ela adorava dizer encorpado... Sei não, às vezes penso que alguma outra erva, ela ali colocava, pois o vigor que nos trazia era digno de uma poção conjurada em feitiço, ou coisa que o valha. Em suas anotações, que até hoje eu guardo com carinho, bem que procurei a receita, o nome dessa outra erva, mas nada: a velha não revelou.

Vó Miudinha adorava uma prosa, velha faladeira aquela! Mas detestava fofocas, e nos dizia sempre:
- se não tem nada de bom a dizer, melhor deixar quieto!

Não raro eu a encontrava falando sozinha, pelo menos assim eu achava, com as plantas, com os bichos, e até com os objetos, coisas que eu pensava inanimadas, mas que ela sempre nos ensinava:
- tudo tem seu princípio espiritual, sua alma, sua vibração e razão nesse mundo de Deus.

Às vezes eu ficava de longe a apreciar suas conversas com o mundo ao redor, dava gosto de ver! Uma vez peguei-a de “teretetê” no jardim com um banco de ipê, trabalho precioso de um velho carpinteiro, presente dado em reconhecimento a um desmanche de feitiço. E ela gostava de ficar no jardim cercada de plantas e pássaros, dizia que ali era seu paraíso. E dessa feita, fascinado pela cena, acabei por me aproximar mais do que devia, e ela ao perceber minha presença pediu que me sentasse ao seu lado e disse-me: e aí meu neto, fale-me o porquê da curiosidade e espanto?
- Desculpe Vó, é que eu fiquei maravilhado com o carinho, o toque de dedos na madeira trabalhada e na conversa que a senhora estava tendo, e não pude resistir.
- É meu neto, todas as coisas no mundo têm a sua energia, e cada vez que você as privilegia com carinho e ternura mais imantadas de boas coisas elas ficam, e assim é também com este belo banco de ipê. 
- Mas Vó, que conversa vocês estão tendo?
- Ele está a me contar sobre o tempo que era ainda uma árvore frondosa e florida junto de um riacho não muito longe daqui e fala desse tempo com saudade, mas compreende que a vida prosseguiu e que ele hoje tem outras serventias. Fala também do privilégio de ter sido parte da magia que o velho carpinteiro foi capaz ao construí-lo.
- E ele é feliz aqui em nosso jardim, Vó?
- É sim meu filho, mas ele precisa sempre de uma boa prosa, gosta da atenção e do carinho que possamos lhe dar.
- Um dia, eu também vou saber conversar com as coisas, assim como se conversa com toda a gente.
- É fácil meu neto, você tem uma mente sensível e inquieta e um coração cheio de amor e ternura, então é só intuir, é eu já te disse, você vai ser um poeta, desses que vão espalhar beleza e encantamento, e da mesma forma que eu bordo meus panos e faço meus feitiços, de muita serventia você também será.

            Nunca mais eu me esqueci daquela lição, dali em diante, não raro eu me via também a conversar com as coisas, com as plantas, com os bichos, com o vento, com o rio, com tudo o que há!

            E o mundo até hoje me conta cada coisa!

            Eu gostava muito de conversar com um riacho que existia perto da fazenda, ele me trazia notícia dos longes, me falava da cidade grande e de suas mazelas, do mar que existia, bem depois do horizonte, das pedras redondinhas que ele torneava pelo caminho, e até de um rochedo enorme, lá perto dos jardins de Oxalá! Dizia que ele era um rochedo sabido, muito antigo, mais antigo até do que o homem, quantas histórias ele tinha a me contar. E em troca eu lhe levava notícias do seu velho amigo ipê, não mais florido a cada inverno, mas agora banco nos jardins da Vó Miudinha, e que ele era feliz em viver por lá.

            Velha feiticeira a Vó Miudinha me ensinou até a ler nas paredes das casas as histórias que elas têm para contar.
- É fácil meu neto, é só intuir, com o tempo você há de se acostumar! 


    

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

JÁ É HORA DE PROSSEGUIR

    NALDOVELHO

    Ando com os olhos marejados
    por conta dos meus muitos estragos,
    colecionando retratos,
    recortes, bobagens...
    Já não dou conta dos descaminhos,
    das noites passadas sozinho,
    das madrugadas friorentas,
    coração já não aguenta,
    qualquer dia desses implode,
    nostalgia insistente; vê se pode,
    você foi embora, foi viver longe daqui
    e na janela um bem-te-vi
    me espiona assustado e grita:
    - menino levanta daí!

    Ando com a boca ressequida
    pelos desencontros desta vida...
    Saudade do café da Vó Miudinha,
    fervido junto com a água,
    só pra ficar mais encorpado,
    saudade da primeira namoradinha,
    seios pequenos e arrebitados,
    e seus lábios umedecendo meus lábios,
    suas pernas assanhadas e entrelaçadas
    às minhas pobres pernas embriagadas,
    janela aberta, lua assustada...
    Se Vó Miudinha vê uma cena destas
    ia ficar toda ruborizada.
    - Este meu neto sabe de coisas!

    Ando com o coração afrontado
    por palavras embevecidas,
    pois cada vez que escrevo um verso
    mais marejados os olhos ficam,
    mania de chorar por qualquer bobagem,
    mania de acreditar que um poema
    possa exorcizar o meu passado,
    possa abrir portas e janelas
    e trazer pra dentro do quarto
    um bando de bem-te-vis:
    - menino levanta daí!
    Na cozinha um café passado sem pressa,
    pareço escutar Vó Miudinha:

    - meu neto já é hora de prosseguir!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

PALAVRAS DE ILUMINAR CAMINHOS

    NALDOVELHO

    E existia em mim um menino
    que sabia palavras de iluminar caminhos,
    e os dias eram coloridos e perfumados,
    e as noites pontilhadas de sonhos.

    O tempo passou e o menino cresceu,
    aprendeu palavras outras,
    algumas bastante sombrias,
    tais como amargura e melancolia.

    Mas ainda assim o menino resistia,
    e só de molecagem insistia
    em brincar como quem navega  
    em rios de irrigar poesia.

    E nas noites de inquietude e abandono
    povoadas de solidão e insônia,
    o menino trabalhava a palavra magia,
    e depois em seu leito de sonhos, dormia.

    Há tempos o menino em mim envelheceu
    e seus dias já não são tão coloridos;
    pele áspera, olhos cansados, nostalgia,
    mas ainda assim ele brinca em rios de irrigar poesia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

HÁ QUEM DIGA

    NALDOVELHO

    Há quem diga
    que depois daquela porta
    o tempo não importa,
    e que a eternidade é só um caminho,
    onde todos são peregrinos
    em busca de um sonho, um oásis,
    materializar uma miragem,
    encontrar uma razão de se viver.

    Aqui do meu lado da porta
    o tempo não para,
    a glicose anda alta,
    coração bate afrontado,
    respiração ofegante,
    e a necessidade de acreditar
    que do lado de lá, um dia,
    eu vou me encontrar.

    Enquanto isto
    eu escrevo poemas,
    a bem da verdade,
    um jeito de me construir por dentro,
    uma forma de negociar com o tempo,
    pois a vontade de viver um pouco mais
    mantém acesa a chama,
    e esta vela ainda tem o que queimar.

    Há quem diga
    que Deus a tudo assiste
    e misericordioso permite...
    Eu que não sou bobo nem nada,
    tomo uma porrada de remédios,
    faço orações, acendo vela pros santos,
    pois há quem diga
    que esta é uma história sem fim!

    Custa nada acreditar!


domingo, 22 de janeiro de 2017

POEMA ROMÂNTICO

    NALDOVELHO

    Quando duas almas convergem
    para um mesmo destino.
    não importam os descaminhos,
    os desvios, os atalhos,
    as teias, os labirintos,
    as mortes, os conflitos,
    não importam os livros escritos;
    palavras serão esquecidas,
    poetas serão devorados,
    pois na boca do mundo
    todos os sentidos conspiram,
    toda a verdade é exposta,
    e nossos corpos servidos em postas,
    para saciar a fome dos tempos,
    e só sobrarão os ossos,
    que serão cremados, 
    reduzidos a cinzas,
    mas ainda assim estaremos juntos,
    entrelaçados e felizes
    no dia do juízo final. 

    Quando duas almas convergem
    Deus é cúmplice,
    nada pode impedir.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

NADA MAIS LEVAREI

    NALDOVELHO

    Nada mais levarei
    além da vida que me consome,
    nem mesmo o poema que tem o seu nome,
    eu levarei.
    Não levarei o esquecimento das pessoas,
    as lágrimas que às vezes escoam,
    os espinhos dos amores que eu inventei,
    mesmo os versos que eu lhes dediquei,
    não levarei.

    Nada mais levarei
    além da magia dos sonhos que eu sonhei,
    mesmo os pesadelos em que eu me enredei,
    não levarei.
    Não levarei a inquietude, as perdas, o quanto eu errei,
    a nostalgia que habita minhas madrugadas,
    os descaminhos de minha jornada,
    nem mesmo as saudades que por tolice eu chorei,
    eu levarei.

    Nada mais levarei
    além da esperança que permeia o meu entardecer,
    nem mesmo a solidão que costuma me corroer,
    eu levarei...
    Mesmo a inevitável dor da minha morte,
    não levarei.

domingo, 8 de janeiro de 2017

ÁGUA DE RIO

    NALDOVELHO

    Tem vez que o rio
    desemboca no mar,
    tem vez que desemboca
    num outro rio;
    já vi até rio alimentar lagoa...
    Cada um com sua sina,
    cada qual com sua serventia.

    Eu que já fui água de nascente,
    ainda não sei bem onde vou dar.
    Só sei que desde então,
    já fui água de navegar,
    corredeira de espalhar semente,
    e espelhei luz de luar. 
    Hoje sou filete entre pedras
    em busca de um lugar para desaguar.

     



sábado, 7 de janeiro de 2017

LÁGRIMAS DE POETA


NALDOVELHO

Olhem as lágrimas que hoje escorrem, são novas feridas, posto que as antigas, restam cicatrizadas e ainda que vez por outra incomodem, é só quando muda o tempo. Acho que é assim com todo mundo, nada que deva nos assustar.

Mas ainda assim, eu sei que há quem faça muitas orações ao Pai, pedindo janelas e portas abertas, saúde, amores, fartura, proteção contra o tédio, cura paras dores da alma, para solidão e a loucura; e pedem tantas coisas, e praguejam a cada passo, a cada embaraço, ao amanhecer, ao entardecer e até na hora da Ave Maria, ao anoitecer. Mas esquecem de olhar em volta, são tantos os presentes; não percebem o dia, o nascer do sol, a magia, a poesia de viver, a suavidade da saudade e da nostalgia, que apesar da ardência que nos traz certo desconforto, fortalece e nos faz crescer.

Eu aqui no meu canto, quase não oro, fico constrangido em incomodar o Pai com minhas bobagens, com as tranqueiras que eu mesmo acumulei vida afora, com a minhas hemorragias, feridas que inflamadas incomodam... Já disse, acho que deve ser assim com todo mundo, então: melhor eu mesmo por mãos à obra, pois o Pai deve ter coisa mais importante a fazer.

Pois é, para tanto eu me utilizo da palavra poema e desconfio seriamente que esta tenha sido a melhor ferramenta que o Ele pode me fornecer, e a impressão que eu tenho é que com assim Ele esta a me dizer: vire-se, você é o comandante do barco, trabalhe, construa, abra portas e janelas, fortaleça-se para poder superar o tédio, a solidão e a loucura, cure-se você mesmo das dores da alma, aprenda a se utilizar das asas de voar por dentro, construa um novo homem, nem que para isto você tenha que nascer mil vezes, trilhar infinitos caminhos, se perder e se achar, morrer e novamente nascer, só que diferente... E esta é tua sina, o teu rito sagrado, não se esqueça, um dia, em algum lugar distante Ele pode precisar de você.

Quanto às lágrimas que hoje escorrem, deixe-as chegar ao chão, fertilize-o; lágrima de poeta é semente que um dia brotará poema, que alguém há de querer. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

MINHA SABEDORIA

    NALDOVELHO

    Eu busco minha sabedoria
    nas horas mornas que povoam o dia,
    nos menores gestos de ternura,
    nos pequenos sinais de loucura,
    nas sombras que assombram meus sonhos,
    nas ideias que eu teimo e proponho,
    nos monstros que me habitam as entranhas,
    na danada da inquietude que ainda arranha,
    nas perguntas que eu não consigo fazer,
    na vontade que eu tenho de crescer.

    Minha sabedoria eu procuro
    nas dores escondidas num canto escuro,
    na importância de cada um de nós,
    no emaranhado de fios e em seus inúmeros nós,
    nos enredos alinhavados, histórias,
    nos ensinamentos guardados em minha memória,
    nos desencontros, desenganos, desencantos,
    na esperança cultivada no silêncio do meu pranto,
    nas asas que eu tenho de voar por dentro,
    na mania que eu tenho de negociar com o tempo.

    Eu busco minha sabedoria
    nos pensamentos adocicados na heresia,
    nos erros que eu cultivo em segredo,
    já faz tempo e eu ainda sinto medo,
    nos momentos de solidão e clausura,
    quarto vazio, noite fria e escura,
    no amanhecer de uma cidade nublada,
    na teimosia em caminhar com as pernas trocadas,
    nos poemas que eu insisto em escrever,
    quem sabe um dia você possa ler e entender.





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

UMA NOVA HISTÓRIA

    NALDOVELHO

    Vou te contar uma história,
    uma que possa espantar teus medos
    que saúde em ti o sono dos puros,
    que brinde a possibilidade
    de sonhares assim como sonham os anjos,
    que ao estares abraçada ao teu travesseiro
    possas sentir o cheiro das manhãs de outono,
    e por teres nascido livre de pecados,
    possas colher sorrisos, carinhos, abraços...
    - seja bem vinda, minha menina,
    aconchega-te ao nosso lado.

    Vou te contar uma história,
    uma que seja alinhavada de poemas
    que mostrem o quanto é sagrado o caminho,
    e que apesar da crueza desses dias,
    sempre valerá a pena ter esperança,
    acreditar na possibilidade do amigo,
    arregaçar as mangas, construir abrigos,
    portas e janelas abertas,
    principalmente as do coração.

    Vou te contar uma história,
    uma que nos faça chorar finalmente;
    não pela dor que por tempos se fez presente,
    mas pela emoção que se sente
    quando a delicadeza nos envolve em seus braços,
    quando a beleza nos traz o arrepio
    de se saber que és bem vinda, minha menina,
    há tempos te esperávamos,
    agora já podemos sorrir.

    Vou te contar uma história,
    e ela será a tua história,
    só te restará vivê-la,
    e quem sabe até escrevê-la,
    fique certa que de onde eu estiver
    eu vou poder ler.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NA ÁRVORE DOS ENFORCADOS

    NALDOVELHO

    Na árvore dos enforcados
    um ser padece solitário,
    pela dor de mil e uma jornadas,
    boa parte delas do lado errado da estrada,
    por ter recusado a cura
    a um coração dilacerado,
    por de ter negado o abraço
    a uma alma em suplício,
    por ter andado embriagado
    pela beira do precipício,
    por ter mergulhado no abismo,
    pelo prazer de não querer retornar
    e por isso ter que repetir tudo desde o início,
    até conseguir compreender
    a força libertadora de um sorriso,
    de uma lágrima, de um carinho,
    de um aperto de mão.

    Na árvore dos enforcados
    um ser padece solitário,
    pelas riquezas escondidas
    no fundo do seu armário,
    pelas almas pisoteadas pelo caminho,
    por ter escrito a ferro e fogo seus desenredos,
    por não ter libertado a palavra
    guardando-a enclausurada em segredo
    e por ter dado as costas aos seus irmãos.

    Na árvore dos enforcados
    o silêncio é a derradeira paga
    daquele que se negou a redenção.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

LIVRINHO DE MAGIA

    NALDOVELHO

    Eu tinha um livrinho de magia,
    e quem me deu foi Vó Miudinha,
    e nele todos os dias eu aprendia
    feitiços de encantar coração.

    Aprendia também a fazer poções,
    onde ervas eram maceradas, sem pressa,
    com palavras fazedeiras de poesia,
    e elas curavam nostalgia,
    feridas que custavam inflamadas
    e chás que aliviavam dor de partida,
    e espantavam a tristeza daqueles
    que teimavam em caminhar na solidão.

    Eu tinha um livrinho de magia,
    nem sei bem onde deixei,
    algumas receitas lembro bem,
    outras fiz cópias por precaução,
    mas a maior parte, acho, ficou perdida
    quando a casa que eu tinha
    foi destruída na demolição.

    A casa faz tempo foi reconstruída,
    mas o livrinho não vi mais não!

    Hoje fico aqui na incerteza
    de qual erva devo usar
    para curar esta dor abestada
    que corrói minhas entranhas
    toda a vez que amanhece outono,
    dia nublado, de entardecer chuvoso,
    e eu na janela do meu quarto,
    buscando me livrar desta paixão.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CORRUPIÃO

    NALDOVELHO

    Vai corrupião,
    voa e pega aquele canto que nasceu
    lá nas funduras daquelas matas
    e traz para mim,
    é com ele que vou tecer o amanhã,
    é com ele que vou encantar
    aquela mocinha de olhar enluarado,
    de pele orvalhada e cabelo desgrenhado
    que quando passa
    incendeia meu coração.
    Vai corrupião,
    mas não revela o nosso trato,
    feitiço de lua cheia só dá certo
    se mantido em segredo.

    Vai corrupião, mas voa depressa,
    antes que eu morra de paixão.


domingo, 4 de dezembro de 2016

O VENTO QUE ME ACARICIA

    NALDOVELHO

    O vento que me acaricia o rosto
    é brisa suave que vem de longe,
    e traz cheiro de mato,
    perfume extraído do desejo,
    que afasta de mim os meus medos
    e desperta no poeta uma fome,
    coisa estranha e selvagem,
    que revira minhas entranhas,
    e aí eu me lanço em viagem,
    nem sei bem pra onde vou.

    O vento que me acaricia o corpo
    varre a poeira do meu quarto,
    afasta de mim o cansaço,
    prorroga o tempo que eu tenho,
    me convida pra mais uma dança,
    me envolve em carícias indecentes,
    encontro marcado ao anoitecer,
    e assim vou como se fosse um louco
    pelas ruas da minha cidade
    girando até desfalecer.

    O vento que me beija o rosto,
    sussurra em meus ouvidos palavras,
    poemas, gemidos, loucuras,
    um amontoado de sonhos, ternura,
    e desperta lá das funduras
    a vontade de amar outra vez.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AO SOM DE UM BLUES

    NALDOVELHO

    Trago comigo um dia frio de outono,
    já faz muitos e muitos anos,
    uma história mal alinhavada,
    muita poeira de estrada
    a garganta seca, os olhos cansados,
    um monte de memórias em meus guardados,
    uma janela aberta, raízes do passado,
    um pote de delicadezas
    estrategicamente colocado
    em cima de uma mesa,
    vez em quando pego uma
    e escrevo pra vocês.

    Trago comigo uma brisa suave,
    chuva fininha ao cair da tarde,
    um tempo que lentamente escoa,
    palavras fazedeiras que vez por outra ecoam,
    lágrimas no canto dos olhos escondidas,
    cicatrizes, medalhas, algumas feridas,
    a engrenagem dos tempos, a solidão dos loucos,
    um monte de espinhos, ainda restam uns poucos,
    uma gaveta cheia de quinquilharias,
    coisas desimportantes, bobagens, poesia,
    pedrinhas brilhantes, cristais de quartzo,
    ainda bem que as tenho, iluminam meu quarto.

    Trago comigo um canto maldito,
    perdas e danos de um coração aflito,
    harmonias dissonantes, melodia estranha,
    uma garrafa de conhaque, uma sede tamanha,
    uma cigarrilha cubana, muita fumaça, conflitos,
    o sangue coagulado, veias entupidas, detritos,
    a vontade de crescer, apesar dos meus medos,
    um monte de segredos, coração em desterro,
    dúvidas, incertezas, um amontoado de erros,
    ultimamente dei pra rezar, mas o faço em segredo,
    normalmente antes de dormir e ao som de um blues.

  

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

HOUVE UM TEMPO

    NALDOVELHO

    Houve um tempo de amanheceres nostálgicos,
    dias e dias de desassossego e saudade,
    onde ainda na mais tenra idade,
    meus cabelos já denunciavam um tempo
    diferente daquele que eu devia ter,
    e nos meus olhos o peso de uma bagagem
    que nem sei o porquê eu trazia,
    mas não conseguia compreender.

    Houve um tempo de sonhar com romances,
    histórias sutilmente alinhavadas,
    e encantado vivia sempre em busca
    de mais uma dança; rostinho colado,
    paixão a aflorar dos meus olhos
    e ingênuo que era, eu acreditava
    na eternidade de um instante
    que ficasse em meus guardados
    e que me trouxesse motivos para viver.

    Houve um tempo de brilho nos olhos,
    atrevimento, insensatez e loucura,
    de andar perdido pelas ruas,
    apesar do medo e da solidão,
    e eu não sabia ainda que a poesia
    era o remédio capaz de curar feridas,
    e apaziguar meu coração.

    Houve um tempo, agora é outro,
    onde a dor, a solidão e a clausura,
    não conseguiram me aprisionar na amargura,
    pois sabedor na ternura que existe
    nos caminhos de se viajar por dentro,
    vivo hoje abraçado a minha imensidão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MINHA SOMBRA

    NALDOVELHO

    Minha sombra
    normalmente caminha em silêncio
    observando tudo o que eu faço,
    vez por outra me dá um abraço,
    uma espécie de carinho
    e aí sussurra palavras
    no idioma dos anjos;
    algumas já consigo decifrar,
    a maioria não!
    Mas as que consigo,
    revelam coisas
    que me dão força
    para poder continuar.
    Sombra sabida está!
    Desde que eu nasci
    caminha comigo,
    não me pede nada,
    só precisa que o meu corpo
    lhe sirva de abrigo.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ENCANTAMENTO DE POETA

    NALDOVELHO

    Vida que escorre, ampulheta bendita!
    Cada grão de areia um momento,
    e o tempo sedento pede por mais vida,
    e o meu coração valente resiste,
    tem sempre mais um por do sol,
    uma noite nostálgica, um poema,
    uma madrugada molhada de sonhos,
    um amanhecer em festa,
    e a passarada traz notícias dos longes,
    há sempre uma esperança no ar,
    defeito dos que creem em Deus.

    E no teto do meu quarto
    uma orquestra de pirilampos e estrelas,
    e uma lua exibida e faceira
    me chama para mais uma dança,
    mas exige que seja um bolero,
    gosta de dançar agarradinha,
    só para poder sussurrar indecências,
    lua danada, adora uma saliência!
    Seu retrato da cabeceira da cama sorri,
    e diz que eu não tomo jeito,
    adoro mergulhar numa viagem.

    Mas ao longe eu percebo
    uma cidade que transpira incertezas,
    becos sombrios, esquinas desertas, tristezas...
    Faz tempo não ando por suas ruas,
    faz tempo vivo exilado em meu jardim,
    cultivando bromélias, lírios e jasmins,
    prisioneiro dos meus próprios poemas,
    sorvendo a vida que pulsa dentro de mim.

    Encantamento de poeta!