terça-feira, 11 de setembro de 2018

UM BRINDE A VIDA


    NALDOVELHO

    Toda a vez que amanhece
    eu brindo aos meus recomeços,
    brindo a possibilidade do desafio,
    ao inevitável arrepio,
    e pelas ruas da minha cidade
    eu colho pétalas, nostalgia, saudades,
    pois assim vive o poeta
    que teima em explorar sua imensidão.

    Toda a vez que amanhece
    eu agradeço a Deus com uma prece,
    mãos espalmadas a acariciar o tempo,
    asas abertas ao sabor do vento
    e revejo planos, compreendo desenganos,
    pois a possibilidade de realizar meus sonhos
    é chama acesa que aquece meu coração.

    Toda a vez que entardece
    eu brindo a possibilidade do amanhã,
    ainda que minhas pernas estejam fracas,
    meus olhos lacrimejem de cansaço
    e minha voz viva aprisionada na garganta,
    restaram as palavras que eu amo,
    e o dom de fazê-las fluir de minhas mãos.

    Toda a vez que anoitece
    eu percebo a suavidade que emerge
    da melodia que abençoa meus passos,
    das águas do mar que acariciam o rochedo,
    da lua que lá do céu conspira em segredo
    para que eu possa me deliciar com mais uma dança,
    pois mais do que nunca, viver é uma paixão.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

LÁGRIMA FUGITIVA


    NALDOVELHO

    Uma lágrima fugitiva
    escapuliu nem sei como
    e numa folha de papel
    um poema absorveu.

    Especial este poema,
    com cheiro e gosto de saudade,
    nostalgia que vez por outra me invade.

    Especial esta lágrima
    que um dia teve nome e endereço,
    mas já faz tanto tempo,
    tanto, que o poeta mente
    e diz que esqueceu.

    E assim foi, uma lágrima fugitiva
    que num cantinho da folha de papel
    um poema de amor absorveu.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O POEMA É OUTRA COISA


    NALDOVELHO


    Poesia é a possibilidade do sonho,
    é manhã ensolarada de outono,
    janelas e portas abertas
    e a passarada toda em festa;
    mas às vezes é nublada e fria,
    e ainda assim um novo dia,
    com café quente e encorpado,
    vontade de fumar um cigarro,
    inventar caminhos de ternura
    onde antes só existia a clausura.

    Poesia é saudade, gastura, nostalgia,
    candeeiro aceso em noite sombria,
    necessidade de viajar mundo afora,
    é pacto feito entre o ontem e o agora,
    licença para se cometer sacrilégio,
    remédio que cura a amargura e o tédio,
    conhaque envelhecido, acalanto,
    magia que dissolve o meu pranto,
    desaguar de águas claras, cachoeira,
    que se faz em rio de romper fronteiras...

    O poema não!
    O poema é outra coisa:
    é mostrar minhas asas de viajar por dentro,
    é a coragem de materializar sentimentos,
    é desconstruir o silêncio a que me obrigo,
    é a necessidade de me comunicar contigo,
    é a ponte que me permite o abraço
    e o carinho a construir novos laços,
    é minha bênção, minha verdade, minha oração,
    é o jeito que eu tenho de acabar com a solidão.




quinta-feira, 9 de agosto de 2018

PRISIONEIRO DA MINHA SOLIDÃO


    NALDOVELHO

    Você nos disse que um dia
    estaríamos crescidos
    e que não mais escutaríamos
    vozes em nossos ouvidos,
    que não existiriam
    feridas em carne viva,
    tão pouco inquietudes
    a perturbar nossas vidas;
    mas o tempo passou,
    e nós ainda estamos perdidos,
    sem saber se o rumo escolhido
    vai nos levar a algum lugar,
    ou se nossas raízes irão frutificar.

    Você nos disse que um dia
    o amor iria nos preencher,
    que ele abriria portas
    e que se caminhássemos de mãos dadas
    seria difícil alguém nos separar,
    e por isso todas as promessas,
    ternuras, loucuras, coisas sagradas,
    próprias de quem ousou sonhar;
    mas o tempo passou
    e quando eu olho ao redor
    você já não mais está,
    e a nossa música continua a tocar,
    e a nostalgia insiste em me assombrar.

    Você me disse que um dia
    eu aprenderia a perceber,
    e que quando isto acontecesse
    a dor que eu sinto não iria mais doer;
    mas o tempo passou
    e eu só percebo vestígios
    da minha imensidão,
    e das paredes que me cercam,
    palavras num idioma estranho;
    algumas eu já consigo compreender,
    a maioria não!
    Acho que por isto que eu ainda sou
    prisioneiro da minha solidão.

 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O TEMPO QUE EXISTE EM MIM


    NALDOVELHO


    O tempo que existe em mim
    pulsa de um jeito diferente
    do tempo de toda essa gente.

    Às vezes arrastado como um bolero,
    em outras, ardido como um tango,
    tem dias que ele pulsa maldito
    como se fora um blues,
    ainda bem que quase sempre
    ele tem leveza de uma valsa.

    No tempo que eu tenho
    lágrimas escorrem quando eu me emociono,
    o sorriso tem a delicadeza de um carinho
    e o carinho é joia rara a ser ofertada    
    toda a vez que o amor supera a paixão.

    O tempo que existe em mim
    é poema que eu não consigo escrever,
    pois toda a vez que eu tento
    ele pulsa patético como quem
   ainda tem muito que aprender.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

ALGO SE QUEBROU


    NALDOVELHO
  
    Algo se quebrou,
    mas pelo chão do quarto
    eu não encontro
    estilhaços do que sobrou.

    Na estante desarrumada
    um relógio marca o tempo
    que me restou,
    e num retrato empoeirado,
    ruínas de uma época
    onde achávamos
    que tudo sabíamos,
    que tudo podíamos.
 
    Em cima da mesa
    um amontoado de livros,
    papeis em desordem,
    rascunhos de poemas,
    e numa vitrola antiga
    Billie Holiday causa um estrago.

    Ainda sinto a falta de um cigarro
    e de uma boa dose de conhaque,
    mas ao abrir as janelas da casa
    eu descubro que de dentro de mim
    você partiu e nem seu deu ao trabalho
    de dizer adeus.

   Algo se quebrou,
   mas em  mim
   eu não mais encontro
   estilhaços do que restou.


sexta-feira, 20 de julho de 2018

DIGA-ME


    NALDOVELHO

    Diga-me quantas estrelas
    você conseguiu colher
    antes do alvorecer?
    Quanta saudade
    conseguiu guardar
    nas trilhas de me esquecer?
    Quantas lágrimas,
    quanta nostalgia,
    noites inteiras
    passadas insones?

    Mostre-me o poema
    que você escreveu
    ao sussurrar meu nome.
    Conte-me da lua pequenina,
    lua nova menininha,
    que você acolheu
    em seus braços
    e que quando crescidinha,
    lua cheia de magia,
    você libertou.

    E eu direi que em mim,
    sobreviveu a loucura,
    o escândalo, a ternura,
    que ainda sinto o seu cheiro
    e sinto o tempo inteiro,
    que até hoje na gaveta
    da mesinha de cabeceira
    eu guardo a calcinha rendada
    que de sacanagem você esqueceu,
    que mantenho o seu retrato
    na terceira prateleira,
    lado esquerdo da estante,
    e que ele sorri toda a vez
    que eu escrevo um poema,
    e que aquela maldita música
    ainda soa em meus ouvidos,
    e não há nada que eu possa fazer.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

EMOLDURADO PELO SILÊNCIO


    NALDOVELHO

    Da janela do meu quarto eu percebo
    um doce lamento trazido pelo vento;    
    um único som emoldurado pelo silêncio.

    No outono dos meus dias
    a insônia ainda é um tormento
    e o menor detalhe que seja
    aguça meus sentimentos.

    Já são quase quatro horas
    de uma noite friorenta de junho,
    das paredes do meu quarto
    brotam palavras no idioma dos anjos,
    algumas eu já entendo, a maioria não.

    Daqui a pouco amanhece
    e a madrugada invade meu quarto
    em busca de palavras que possam
    proporcionar-lhe uma prece,
    anseia em ser traduzida por uma cantiga...
    Triste sina de um lamento
    trazido por um pé de vento.

    Da janela do meu quarto eu percebo
    um sol envolto em neblina
    emoldurado pelo silêncio.


domingo, 1 de julho de 2018

LEMBRO BEM


    NALDOVELHO

    Lembro bem da cantiga de ninar...
    Bênção mãe, bênção pai!
    Dorme com Deus meu filho!
    E eu a sonhar com um trenzinho sem trilhos,
    caixinhas de fósforos amarradas com um barbante,
    e numa velha caixa de sapatos
    a estação de partida era
    ao mesmo tempo a de chegada...
    Eu atravessava rios, lugares ermos,
    serpenteava por vales
    que se perdiam na eternidade,
    pernoitava em solitárias cidades,
    e ao amanhecer:
    limalha de ferro em minhas veias,
    nos pulmões o carvão até hoje queima,
    e no meu coração ainda sinto saudade.

    Lembro bem da cantiga de ninar...
    Mãe deixa a luz do quarto acesa;
    e você respondia que não!
    Que eu dormisse tranquilo
    pois o Menino Jesus iria me olhar,
    e hoje quando fecho os olhos
    ainda brilha uma luzinha azul
    junto à Sua imagem no colo de Maria
    na entrada do quarto.

    Não sei nem dizer o porquê,
    mas até hoje eu acredito em Você!



quarta-feira, 27 de junho de 2018

A INEVITÁVEL DOR DA SOLIDÃO


    NALDOVELHO

    Eu percebo um ar de delicadeza
    nos amanheceres friorentos de julho,
    meu coração enroscado em cobertas,
    lá fora uma névoa fina e fria,
    aqui dentro uma preguiça danada,
    a janela ligeiramente entreaberta,
    um vento macio, quase uma aragem,
    e o sol num bocejo a me dizer: bom dia!

    Eu percebo um ar de sutileza
    no café passado sem pressa,
    a mesa posta e a certeza
    do carinho molhado de orvalho,
    você prometeu que vinha,
    chegou bem cedo e a tempo
    de ver em meus olhos a saudade.

    Eu percebo um ar de cumplicidade
    na fumaça dos cigarros compartilhados,
    no sorriso que eu colho em seu rosto,
    na poesia que brota do seu cheiro,
    que permanece mesmo depois
    que você vai embora,
    e fica assim impregnado
    por todos os cantos e lados,
    principalmente nos travesseiros.

    Eu percebo certa leveza
    nos entardeceres passados ao seu lado,
    música suave, vinho tinto e rascante,
    o seu: ligeiramente doce e inebriante;
    na mistura de suores, odores,
    salivas trocadas, momentos sagrados,
    no adormecer e no acordar
    ao seu corpo aninhado,
    ainda que eu saiba que depois
    você irá viajar para bem longe,
    deixando travesseiros e lençóis molhados,
    a nostalgia própria de um passado,
    e a inevitável dor da solidão.


sábado, 23 de junho de 2018

COMO SE FOSSE UM LOUCO


    NALDOVELHO

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para te ver surgir
    por de trás do horizonte,
    e vou aproveitar para colher
    fios dourados do teu amanhecer,
    e com ele tecer um manto
    que me proteja no meu anoitecer.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para colher águas macias,
    banhar minhas feridas,
    me entregar à magia,
    e como se fosse um louco
    nadar até aquele rochedo,
    soçobrar náufrago em teus braços.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para dizer que te amo,
    e vou mostrar a todos minha paixão,
    causar um escândalo,
    rasgar mapas, roteiros e planos
    e não importa até quando,
    ou se eu vou sobreviver.

    Eu vou atravessar toda a cidade
    só para escrever nas pedras o teu nome,
    elegia ao amor derradeiro
    por quem bebeu todo o meu sangue,
    fatiou minha carne em postas
    deixou marcas, profundas marcas, 
    me matou de prazer.




quarta-feira, 20 de junho de 2018

DEIXEM EM PAZ O MEU POBRE CORAÇÃO


    NALDOVELHO

    Se eu enterrasse meu coração no fundo do quintal,
    não mais teria que me preocupar com a saudade,
    tão pouco saberia das perdas e desencantos,
    escrever poemas de amor, não mais saberia...
    Caminharia, então, por recantos da minha cidade
    sem me preocupar com as armadilhas da paixão,
    não teria mais insônia, nem a danada da nostalgia,
    coisas próprias dos que são reféns da solidão.

    Se eu enterrasse meu coração no fundo do quintal,
    lágrimas no canto dos olhos não mais incomodariam,
    nem cicatrizes que doem na mudança de tempo, 
    medo de madrugadas cinzentas, também não teria,
    dormiria esquecido na aridez de um quarto escuro
    sem me preocupar com o que existe atrás do muro,
    pois descortinar novas realidades eu não saberia,
    e finalmente curaria a maldita da inquietude.

    E no lugar em que meu coração estivesse enterrado,
    lírios, jasmins e crisântemos floresceriam,
    uma fonte de água cristalina surgiria
    e ao lado do pequeno túmulo um epitáfio:

    deixem em paz o meu pobre coração!