sábado, 8 de julho de 2017

E POR FALAR NO TEMPO


NALDOVELHO

Conversa entre dois homens.

-  É impossível jogar com o tempo,
   quando você menos espera
   ele trapaceia e altera o resultado.

-  Nem sempre!
   Às vezes ele deixa você ganhar
   só para que você sinta
   o amargor de sua vitória.

-  Pois é!
   É exatamente disto
   que eu estou falando:
   é impossível jogar com o tempo!


sexta-feira, 23 de junho de 2017

É DA MINHA ESSÊNCIA

    NALDOVELHO

    É da minha essência
    a luz que alumia meus passos,
    a lua que suaviza o meu espírito,
    o orvalho que cicatriza feridas,
    as madrugadas que habitam meus sonhos...
    Daqui a pouco o sol acontece,
    manhãs preguiçosas de inverno
    e eu envolto em cobertas
    sinto o cheiro do café encorpado bem forte,
    lá fora a passarinhada faz uma prece,
    linguagem de anjo em versos,
    sinfonia igual eu nunca ouvi.

    É da minha essência
    a nostalgia que assombra meus dias:
    vontade de dizer o quanto eu te amo,
    saudades que eu guardo do teu cheiro,
    do frescor do teu corpo inteiro,
    do tempo dos cigarros compartilhados
    em que eu era feliz e não sabia
    e ainda que hoje eu viva de recomeços,
    estará sempre faltando um pedaço
    que por pura maldade você levou. 
    Coisa mais sem graça a casa vazia
    e não saber onde você está.

    É da minha essência
    a solidão que me devora,
    a esperança de quem olha pro céu e ora;
    se não acreditar coração não aguenta
    e embora eu saiba que dia desses ele arrebenta,
    o poema é sempre uma bênção,
    magia que eu pratico faz tempo,
    colheitas de quem sondou firmamentos,
    sobreviveu aos seus muitos tombos,
    aprendeu linguagem dos anjos,
    pois apesar da tamanha inquietude
    é da minha essência acreditar em Deus.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CÍRCULO VICIOSO

    NALDOVELHO

    Caminho em círculos
    daqui pra lá, de lá pra cá,
    faz tempo assim, sem parar.
    Às vezes sinto minha alma em outro lugar,
    às vezes meus olhos me iludem
    e eu penso Te enxergar;
    mas Te enxergar eu não consigo...
    Ilusão, assombração, miragem
    e eu aqui a escrever um monte de bobagens
    na pretensão de forjar com palavras
    chaves que me permitam o acesso,
    versos que arrombem portas,
    que me levem bem distante...
    Mas o distante eu não consigo,
    e uma vez mais eu me vejo
    voltando para o mesmo lugar.
    Heresia diriam alguns!
    Sacrilégio diriam outros!
    Mas eu continuo na ilusão
    de um dia poder Te enxergar.

    Passado, presente e o futuro
    se atritam dentro de mim,
    é o tempo a devorar minhas entranhas.
    Minha mente presa num armário
    e o meu coração de um tempo pra cá
    deu pra bater ao contrário,
    tanto que qualquer dia desses
    eu vou acabar tendo que renascer.
    Mas minhas pernas ainda caminham daqui pra lá,
    e mais que depressa, de lá pra cá,
    faz tempo assim, sem parar.
    E eu a me contorcer nervoso
    tento me esgueirar por uma fresta de janela,
    quero ver o dia raiar!
    Mas a poesia em mim padece aprisionada
    a uma solidão cada vez mais perversa.
    Vou até a cozinha, tomo um café
    e ainda sinto vontade de fumar um cigarro.
    Logo-logo amanhece em meu quarto
    e eu me aquieto no mesmo lugar
    na esperança de um dia poder Te enxergar.

domingo, 11 de junho de 2017

POEMA DE AMOR

    NALDOVELHO

    Quando eu chego dentro de mim
    encontro um mundo de magia
    e será sempre amanhecer de um novo dia,
    certa neblina tomando conta das colinas,
    um friozinho gostoso, relva molhada de orvalho,
    e na janela de uma casinha avarandada
    o amor que eu não vivi me acena e diz:
    seja bem vindo meu poeta!

    Quando eu chego lá nas funduras
    escuto harmonias pontilhadas de sonhos
    e o meu amor a desfiar uma toada
    colhida em noites de espera,
    madrugadas distantes de mim mesmo,
    e ela fala da paixão que entre nós acontece,
    e eu me vejo colhendo luzes pelo caminho
    e me entrego a Deus na contrição de uma prece.

    Quando eu me aquieto dentro de mim,
    me sinto encharcado de ternura,
    esqueço a solidão e a clausura,
    a insônia das noites escuras,
    e me vejo semeando esperanças
    no sorriso puro de uma criança,
    macero palavras numa folha de papel em branco
    e escrevo um poema de amor.







quarta-feira, 7 de junho de 2017

UMA VALSA

    NALDOVELHO

    Deixe os seus dedos
    sobre as teclas do piano.
    Toque-me uma valsa,
    uma que me traga arrepio,
    que me faça caminhar pela vida
    sem ter medo de escorregar no meio fio.

    Toque-me uma valsa,
     uma que me faça esquecer
     dos anos passados sozinho
     nas trilhas dos meus descaminhos,
     uma que me desencrave a lágrima,
     que faz tempo se recusa a chorar.

     Toque-me uma valsa,
     ponta de dedos acariciando o ar,
     janelas abertas, o mês é de outono,
     e você me convida para mais uma dança,
     tomara que esta música
     nunca mais pare de tocar.

  

sábado, 3 de junho de 2017

LUA INQUIETA

    NALDOVELHO


    Eu sei de uma lua inquieta,
    pele irrigada de sardas,
    luz encantada de minhas madrugadas,
    que quando vem a minha janela,
    já nem sei de mim,
    ou se vou sobreviver.

    Eu sei de uma lua repleta
    de tramas, segredos, mistérios,
    que transpassa paredes que me cercam,
    que enrolada em minhas cobertas,
    sussurra indecências
    e finge construir permanências.

    Eu sei de uma lua madrugadeira
    que gosta de se infiltrar nos poemas
    e diz que só assim valerá à pena
    semear palavras molhadas,
    sêmen, suor, saliva, paixão,
    sementeiras de cultivar ilusão.

    Eu sei de uma lua feiticeira
    pois quando a noite vai embora
    ela simplesmente amanhece,
    e o que eu colho no chão do meu quarto
    é o silêncio das coisas vazias,
    é o fruto amargo da solidão.






quinta-feira, 1 de junho de 2017

ALGUÉM POR AÍ TEM UMA PINÇA?

    NALDOVELHO


    Noite friorenta de maio,
    chuva fina, vento macio, delírio.
    Um espinho resiste inflamado,
    lado esquerdo do peito, encravado.
    Uma lágrima no olho engasgada,
    traz certa ardência,
    quer revelar o estrago,
    diz que chorar é preciso,
    só que eu ainda não consigo.
    Na palma da mão, cacos de vidro,
    faz tempo, espetados.

    Vejo ferrugem pra todo lado,
    nostalgia colhida na orla,
    e as palavras indecisas na areia
    dizem que querem ficar,
    mas maré vazante
    quer levá-las pr’um outro lugar.

    E se eu morresse amanhã de manhã?
    E se o silêncio me tomasse de assalto?
    Será que eu conseguiria chorar?

    Noite friorenta de maio...


    Alguém por aí tem uma pinça?

domingo, 28 de maio de 2017

O QUE FALTA SER DITO AFINAL?

    NALDOVELHO


    Por estas paragens desertas
    manhãs derramadas incertas,
    caminhos sombrios, solitários,
    de vento que venta ao contrário
    e dissemina o outono em minha vida,
    cicatrizes antigas feridas.
    sentimento de coisa sem dono,
    rei deposto, sem pátria e sem trono,
    emoção descabida, muitos sonhos,
    e eu assim como se fosse um estranho,
    pergunto ao tempo o porquê,
    e ele responde que é como tinha de ser.

    Um coração que só sabe bater afrontado,
    um trem que só anda atrasado,
    já estou faz tempo nesta estação
    e ainda toca aquela maldita canção...
    a que fala de dias nublados e friorentos,
    mas se queres saber eu ainda aguento
    caminhar por estas paragens desertas,
    dobrar esquinas silenciosas, incertas,
    cultivar palavras de dissipar tempestades,
    dizer que eu te amo apesar da saudade,
    e que a esperança aumenta mais a ansiedade...
    Palavras poemas, bobagens, minhas verdades.


    O que falta ser dito afinal?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

NOVELOS DE LÃ

    NALDOVELHO

    Novelos de lã embaraçados, tapeçaria inacabada,
    janela escancarada, manhã sonolenta de maio,
    um vento frio invade o meu quarto,
    em cima da mesa, folhas de papel em branco,
    faz tempo não escrevo nada.

    Na vitrola um disco de vinil, ainda os tenho!
    Mania de coisas antigas,
    guardados que me alimentam o espírito,
    significados, imagens, poemas,
    coisas de há muito ultrapassadas.

    Pelas ruas floresce a loucura
    e eu aqui a insistir na ternura
    tento desencravar um verso.
    Na estante meus santos conversam,
    o eremita observa e se compadece.

    Maria que a tudo assisti,
    amorosamente sorri!

terça-feira, 23 de maio de 2017

ATÉ QUANDO?

    NALDOVELHO


    Sobre a pedra polida e fria
    a água se espalha
    em busca de um caminho.
    Sob a pele que permeia o dia
    um leito ressequido de rio.
    Sob a rua enluarada
    os intestinos da cidade.

    Da janela do meu quarto
    eu percebo no horizonte
    pássaros em revoada
    em busca de um oásis distante.

    Minha alma chora,
    mas ainda é cedo para ir embora.
    Não há nada de novo nas horas,
    tudo é hoje como era antes.

    E uma voz numa prece suplicante
    pede ao Pai por piedade,
    pois eles não sabem o que fazem...

    Até quando?



domingo, 7 de maio de 2017

DELICADEZA

    NALDOVELHO

    Eu trago a ternura
    estampada em meu sorriso,
    um olhar meio assim sem juízo;
    mania de caminhar
    entre escombros
    na esperança de colher
    coisas esquecidas por seus donos.

    Eu tenho o defeito
    de levar muitos tombos,
    meus amores, minhas perdas,
    e a teimosia de caminhar
    pela beira do abismo,
    meio sábio, meio demente,
    aprendiz na arte de ser gente.

    Eu tenho o costume
    de orar pelo mundo que eu vejo,
    de construir caminhos
    que dissolvam meus medos,
    de cultivar em mim a solidão
    que alimenta e devora,
    nostalgia que não vai embora.

    Eu trago em mim a delicadeza
    que permeia meus sonhos,
    coisa de quem acredita em magia,
    e que nos estertores da madrugada
    beija sempre a boca de um novo dia
    e chora de emoção
    ao ver o sol nascer.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

É SOBRE PORTAS E JANELAS

    NALDOVELHO

    É sobre portas e janelas
    que eu preciso falar,
    é sobre tessituras de sonhos,
    poder caminhar pela vida,
    molhar meus pés
    nas águas de um rio
    que lá no fim dos tempos
    vai desembocar no mar.

    É sobre cair e levantar,
    possibilidade de mais uma dança,
    sorriso puro de criança,
    vinho suave e encorpado,
    amanhecer de outono ao teu lado,
    coisas simples de se falar,
    noites friorentas,
    magia de luar.

    É sobre mulher amada,
    pernas enroscadas,
    já nem sei quais são as minhas,
    e dá uma preguiça danada,
    madrugadas friorentas de maio,
    café coado sem pressa,
    cigarros compartilhados,
    coisas boas de sonhar.

    É sobre portas e janelas
    e de preferência abertas,
    teu ombro amigo
    nas horas incertas,
    sussurros, gemidos, grunhidos,
    suor, saliva, sêmen, semente,
    água pura de nascente,
    essência de alfazema pelo ar.

terça-feira, 2 de maio de 2017

JÁ NÃO VALE A PENA CONTINUAR

    NALDOVELHO

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema caminha pelas ruas
    em busca de novas possibilidades.
    Ignora o que o passado possa lhe dizer,
    nega nostalgias e saudades,
    e ao tentar dobrar esquinas,
    colhe sementes de pé de vento,
    distanciamentos, fim dos tempos.

    Sem temer a solidão e o silêncio
    o poema já não reconhece
    a saudade ardida, a lágrima derramada,
    a despedida...
    Ignora a dor do poeta,
    virou coisa fria e amarga,
    semeia um tempo de indelicadezas,
    nada que possa nos emocionar.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

E EU SEM SABER O QUE FAZER DA SAUDADE

    NALDOVELHO

    E mais uma vez eu tento remontar o cenário.
    Em minha mente um maço de cigarros, quase vazio,
    em cima da mesa um cinzeiro lotado
    e uma garrafa de conhaque já pela metade...
    Noite fria e chuvosa de julho,
    e aqui dentro do quarto Belchior canta paralelas:
    paixão, desencontro, desencanto, solidão.
    E eu sem saber o que fazer da saudade,
    percebo vazios, estios, embaraçados os fios...
    A cama desarrumada, cobertor pelo chão  
    e os meus travesseiros massacrados pela solidão.
    
    Mantenho sempre a janela entreaberta,
    apesar do vento frio que vez por outra me invade. 
    Mantenho sempre a luz do abajur acesa,
    um bloco de papel sobre a mesa,
    e exorcizei fantasmas, tristezas.
    Faz tempo não fumo mais cigarros,
    tão pouco bebo do maldito conhaque,
    cauterizou velhas feridas, mas trouxe hemorragia...

    Faz tempo não perambulo pelas ruas da cidade
    e eu continuo sem saber o que fazer da saudade.












quinta-feira, 13 de abril de 2017

UMA VELA ACESA NUM QUARTO ESCURO

    NALDOVELHO

    Uma vela acesa num quarto escuro,
    a necessidade de derrubar um muro,
    é preciso abrir tramelas, portas, janelas, cancelas,
    refletir sobre as coisas que a vida nos revela,
    caminhar noite adentro, madrugadas ao relento,
    viajar com as asas que temos por dentro,
    atravessar ruas, dobrar esquinas,
    aprender passo a passo sobre o que a dor nos ensina,
    quebrar correntes que nos mantém em clausura,
    buscar no carinho ofertado um verso de ternura,
    é preciso colher os frutos trazidos pela inquietude,
    semear esperanças, buscar amplitudes,
    tirar a venda que nos impede a visão,
    libertar a palavra aprisionada em minha solidão.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ENTRE O INFERNO E O PARAÍSO

    NALDO VELHO

    Entre o inferno e o paraíso
    trilhas de pura insanidade.
    Um querubim a tudo assisti e sorri!
    E alguém grita de longe
    que o diabo também já foi um anjo.
    Verdades vazias, frases reticentes,
    portas fechadas, becos sombrios
    e um labirinto de vontades,
    no final dele uma esfinge me observa,
    e diz que um dia vai me devorar.

    Entre o sonho e o pesadelo,
    uma linha esticada, um novelo,
    se afrouxar demais embaraça,
    se esticar muito arrebenta,
    coração quase não aguenta
    andar no limite da loucura,
    viver em busca de ternura,
    naufragar tão perto do cais.
    E a esfinge se põe a sorrir
    na certeza de um dia me devorar.

    Entre a solidão e a clausura,
    um punhado de noites desertas,
    mais de mil poemas escritos
    na tentativa de um dia ser um anjo,
    poder voar como voam os pássaros,
    e a vontade de abrir a janela,
    expulsar a inquietude do meu quarto,
    desembaraçar de vez este novelo,
    e matar a danada esfinge
    que existe dentro de mim.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SUAVE É A NOITE

    NALDOVELHO

    Suave é a noite que transpira outono,
    mês de maio que me abre a janela,
    destila em poemas meus sonhos,
    dá brilho a saudade que eu sinto dela,
    diz que nostalgia é coisa à toa,
    e inconveniente como ela só,
    nem pede licença, diz que veio para ficar.

    Suaves são os acordes do meu violão,
    canção, toada, cantiga de ninar,
    que acariciam meus ouvidos,
    dão sentido aos meus versos,
    e seduzem lua cheia que se aprochega da janela,
    e me pede para entrar,
    diz que traz a cura dos meus males,
    mas ela mente!
    É só mais uma dose de veneno,
    que eu vou ser obrigado a tomar.

    Suaves são os amanheceres de maio,
    a noite já foi embora,
    deixou em minha cama seu cheiro,
    perfume inconfundível de lua cheia,
    travesseiro amassado, jogado num canto,
    lençóis e fronhas molhadas,
    e a cidade ignora meus versos,
    meus cortes, minha saudade, meus sonhos,
    e diz que já é hora de acordar.







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ENCONTRO MARCADO

    NALDOVELHO

    Eu tenho um encontro marcado
    com os sonhos que eu deixei de sonhar,
    com os amores esquecidos no passado,
    com a criança adormecida dentro mim,
    com as madrugadas molhadas de orvalho,
    com o poema que eu não consegui escrever

    Eu tenho um encontro marcado
    e poderia ser até com você!
    Quem sabe então pudéssemos viver
    um tempo de nunca mais esquecer
    a ternura fundamental de um carinho
    e a vontade de nunca mais sermos sozinhos?

    Eu tenho um encontro marcado
    com a possibilidade de dobrar esquinas,
    com a música que eu sempre gostei de fazer,
    com as telas que eu nunca soube pintar...
    Eu tenho um encontro marcado
    com tudo aquilo que eu não fui capaz de criar.

    Eu tenho um encontro marcado
    com a diversidade de trilhas, caminhos,
    com a certeza de poder transpor obstáculos,
    mas também com a derrota que tanto nos ensina.
    Eu tenho um encontro marcado com o meu tempo
    e quem sabe lá no fim eu possa ser digno de Você?


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CONVERSA RIBEIRA

NALDOVELHO

Vó Miudinha era um ser muito especial, dava gosto vê-la caminhar pela vida abraçada às suas peculiaridades, assim como que semeia encantamentos. Lembro, em especial, do café fervido junto com a água, passado sem pressa e borrifado de canela, servido bem quente e melado, que ela adorava dizer encorpado... Sei não, às vezes penso que alguma outra erva, ela ali colocava, pois o vigor que nos trazia era digno de uma poção conjurada em feitiço, ou coisa que o valha. Em suas anotações, que até hoje eu guardo com carinho, bem que procurei a receita, o nome dessa outra erva, mas nada: a velha não revelou.

Vó Miudinha adorava uma prosa, velha faladeira aquela! Mas detestava fofocas, e nos dizia sempre:

- se não tem nada de bom a dizer, melhor deixar quieto!

Não raro eu a encontrava falando sozinha, pelo menos assim eu achava, com as plantas, com os bichos, e até com os objetos, coisas que eu pensava inanimadas, mas que ela sempre nos ensinava:

- tudo tem seu princípio espiritual, sua alma, sua vibração e razão nesse mundo de Deus.

Às vezes eu ficava de longe a apreciar suas conversas com o mundo ao redor, dava gosto de ver! Uma vez peguei-a de “teretetê” no jardim com um banco de ipê, trabalho precioso de um velho carpinteiro, presente dado em reconhecimento a um desmanche de feitiço. E ela gostava de ficar no jardim, cercada de plantas e pássaros, dizia que ali era seu paraíso. E dessa feita, fascinado pela cena, acabei por me aproximar mais do que devia, e ela ao perceber minha presença pediu que me sentasse ao seu lado e disse-me:

- e aí meu neto, fale-me o porquê da curiosidade e espanto?

- Desculpe Vó, é que eu fiquei maravilhado com o carinho, o toque de dedos na madeira trabalhada e na conversa que a senhora estava tendo, e não pude resistir.

- É meu neto, todas as coisas no mundo têm a sua energia, e cada vez que você as privilegia com carinho e ternura mais imantadas de boas coisas elas ficam, e assim é também com este belo banco de ipê. 

- Mas Vó, que conversa vocês estão tendo?

- Ele está a me contar sobre o tempo que era ainda uma árvore frondosa e florida junto de um riacho não muito longe daqui e fala desse tempo com saudade, mas compreende que a vida prosseguiu e que ele hoje tem outras serventias. Fala também do privilégio de ter sido parte da magia que o velho carpinteiro foi capaz ao construí-lo.

- E ele é feliz aqui em nosso jardim, Vó?

- É sim meu filho, mas ele precisa sempre de uma boa prosa, gosta da atenção e do carinho que possamos lhe dar.

- Um dia, eu também vou saber conversar com as coisas, assim como se conversa com toda a gente.

- É fácil meu neto, você tem uma mente sensível e inquieta e um coração cheio de amor e ternura, então é só intuir, é eu já te disse, você vai ser um poeta, desses que vão espalhar beleza e encantamento, e da mesma forma que eu bordo meus panos e faço meus feitiços, de muita serventia você também será.

Nunca mais eu me esqueci daquela lição, dali em diante, não raro eu me via também a conversar com as coisas, com as plantas, com os bichos, com o vento, com o rio, com tudo o que há!

E o mundo até hoje me conta cada coisa!

Eu gostava muito de conversar com um riacho que existia perto da fazenda, ele me trazia notícia dos longes, me falava da cidade grande e de suas mazelas, do mar que existia, bem depois do horizonte, das pedras redondinhas que ele torneava pelo caminho, e até de um rochedo enorme, lá perto dos jardins de Oxalá! Dizia que ele era um rochedo sabido, muito antigo, mais antigo até do que o homem, quantas histórias ele tinha a me contar. E em troca eu lhe levava notícias um seu velho amigo, não mais florido a cada inverno, mas agora banco nos jardins da Vó Miudinha, e que ele era feliz em viver por lá.


Velha feiticeira a Vó Miudinha me ensinou até a ler nas paredes das casas as histórias que elas têm para contar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

JÁ É HORA DE PROSSEGUIR

    NALDOVELHO

    Ando com os olhos marejados
    por conta dos meus muitos estragos,
    colecionando retratos,
    recortes, bobagens...
    Já não dou conta dos descaminhos,
    das noites passadas sozinho,
    das madrugadas friorentas,
    coração já não aguenta,
    qualquer dia desses implode,
    nostalgia insistente; vê se pode,
    você foi embora, foi viver longe daqui
    e na janela um bem-te-vi
    me espiona assustado e grita:
    - menino levanta daí!

    Ando com a boca ressequida
    pelos desencontros desta vida...
    Saudade do café da Vó Miudinha,
    fervido junto com a água,
    só pra ficar mais encorpado,
    saudade da primeira namoradinha,
    seios pequenos e arrebitados,
    e seus lábios umedecendo meus lábios,
    suas pernas assanhadas e entrelaçadas
    às minhas pobres pernas embriagadas,
    janela aberta, lua assustada...
    Se Vó Miudinha vê uma cena destas
    ia ficar toda ruborizada.
    - Este meu neto sabe de coisas!

    Ando com o coração afrontado
    por palavras embevecidas,
    pois cada vez que escrevo um verso
    mais marejados os olhos ficam,
    mania de chorar por qualquer bobagem,
    mania de acreditar que um poema
    possa exorcizar o meu passado,
    possa abrir portas e janelas
    e trazer pra dentro do quarto
    um bando de bem-te-vis:
    - menino levanta daí!
    Na cozinha um café passado sem pressa,
    pareço escutar Vó Miudinha:

    - meu neto já é hora de prosseguir!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

PALAVRAS DE ILUMINAR CAMINHOS

    NALDOVELHO

    E existia em mim um menino
    que sabia palavras de iluminar caminhos,
    e os dias eram coloridos e perfumados,
    e as noites pontilhadas de sonhos.

    O tempo passou e o menino cresceu,
    aprendeu palavras outras,
    algumas bastante sombrias,
    tais como amargura e melancolia.

    Mas ainda assim o menino resistia,
    e só de molecagem insistia
    em brincar como quem navega  
    em rios de irrigar poesia.

    E nas noites de inquietude e abandono
    povoadas de solidão e insônia,
    o menino trabalhava a palavra magia,
    e depois em seu leito de sonhos, dormia.

    Há tempos o menino em mim envelheceu
    e seus dias já não são tão coloridos;
    pele áspera, olhos cansados, nostalgia,
    mas ainda assim ele brinca em rios de irrigar poesia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

HÁ QUEM DIGA

    NALDOVELHO

    Há quem diga
    que depois daquela porta
    o tempo não importa,
    e que a eternidade é só um caminho,
    onde todos são peregrinos
    em busca de um sonho, um oásis,
    materializar uma miragem,
    encontrar uma razão de se viver.

    Aqui do meu lado da porta
    o tempo não para,
    a glicose anda alta,
    coração bate afrontado,
    respiração ofegante,
    e a necessidade de acreditar
    que do lado de lá, um dia,
    eu vou me encontrar.

    Enquanto isto
    eu escrevo poemas,
    a bem da verdade,
    um jeito de me construir por dentro,
    uma forma de negociar com o tempo,
    pois a vontade de viver um pouco mais
    mantém acesa a chama,
    e esta vela ainda tem o que queimar.

    Há quem diga
    que Deus a tudo assiste
    e misericordioso permite...
    Eu que não sou bobo nem nada,
    tomo uma porrada de remédios,
    faço orações, acendo vela pros santos,
    pois há quem diga
    que esta é uma história sem fim!

    Custa nada acreditar!