quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ÀS VEZES

    NALDOVELHO

    Às vezes o dia nasce destrambelhado,
    mexe e remexe em meus guardados,
    como se procurasse por algo,
    sem que se saiba direito o quê.

    Às vezes ele vem apressado
    e passa assim atabalhoado,
    ignora os meus sentimentos,
    e sem o menor constrangimento,
    vai embora sem dizer o porquê.

    Dias de papeis, pelo chão, largados,
    palavras sem sentido no verso,
    poemas sem pé nem cabeça,
    e uma sensação de vazio,
    que eu bem desconfio
    seja por conta da saudade
    que eu ainda sinto de você.

    Às vezes o dia nasce silencioso,
    brisa macia, suave magia,
    e eu vejo pássaros
    no parapeito da janela,
    e cismo que eles trazem notícias,
    você foi embora faz tempo,
    e eu fico embevecido com o canto,
    mas não entendo
    o que eles tentam me dizer.

    E na orla o mar revolto, 
    maresia, nuvens escuras,
    e o rochedo em luta feroz
    busca sobreviver.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FRAGMENTO DE LUZ

    NALDOVELHO

    Terá sido uma estrela cadente
    a luz que eu encontrei,
    faz tempo, caída em meu quintal?
    Ou terá sido um pedaço de anjo,
    fragmento de batalha
    entre o bem e o mal?
    Só sei que hoje,
    protegida em meu quarto,
    ela sorri toda a vez que eu oro,
    se entristece toda vez que choro
    e se eu praguejo fica pálida
    e não mais reluz.
    Eu bem acho
    que é um pedaço de anjo,
    pois estrelas não sangram,
    e este fragmento
    tinha feridas enormes,
    que só a custo de muita poesia
    eu consegui curar.
    Sempre que posso ando pelo quintal
    na esperança de encontrar mais
    fragmentos que possam me iluminar.
    Tenho percebido certa tristeza,
    acho até que por nostalgia,
    faz tempo ela vive sozinha,
    tanto que às vezes eu sinto
    muita vontade de chorar!

domingo, 28 de dezembro de 2014

MINHA CASA

   NALDOVELHO

   E a casa toda transpirava setembro
   de jardineiras desavergonhadamente felizes,
   de algazarra de pássaros no parapeito da janela,
   e até os colibris, normalmente arredios,
   voavam alegremente em torno de mim.
   Só eu continuava outono de cultivar desenganos,
   de não saber direito onde havia colocado as chaves
   de fechar portas e gavetas que já faz um bom tempo
   insistiam em permanecer abertas dentro de mim.

   E da casa toda gotejavam poemas
   de desvendar segredos, mistérios,
   de dissolver calmarias e tédios,
   de crianças a correr pelo quintal,
   de notícias alvissareiras estampadas no jornal,
   de carinho, ternura e aconchego,
   de cheiro de café bem forte coado sem medo
   a espantar a preguiça e o desassossego,
   de frutos maduros nunca antes consumidos,
   mas que hoje do alto dos meus
   lá vão sessenta e muitos anos,
   eu colho e como, sem ter vergonha
   de me sentir feliz.

   E a casa toda cheirando a jasmim,
   magia, poesia, paixão,
   coisas que eu nunca quis abrir mão,
   e que vão continuar assim
   até que um dia chegue o meu fim.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

AQUELA SENHORA

    NALDOVELHO

    E aquela senhora
    do alto dos seus
    nem sei quantos anos 
    buscava em seus panos
    bordados que contassem
    sua história de amor.

    E enquanto o fazia,
    chorava de saudade
    das trilhas, feitiços,
    das ervas, das rezas,
    do carinho e dos sonhos
    e exorcizava sua dor.

    Aquela senhora
    bordou em seus panos,
    caminhos de ternura,
    dias e noites de paixão,
    mas bordou também suas perdas,
    suas rugas, cicatrizes,
    rosas lindas e espinhentas,
    nostalgia e solidão. 

NA ASPEREZA DO DIA

    NALDOVELHO

    No silêncio da noite
    a realidade da dor.
    Na aspereza do dia
    a possibilidade da solidão.

    Eu trago o pesadelo,
    a loucura e a clausura
    incrustados na alma,
    sou prisioneiro da minha emoção.

    Eu percebo a face da morte
    toda vez que olho para o abismo.
    Eu derramo meu sangue
    nas trilhas da paixão.

    Uma sentinela me avisa:
    ainda não é hora!
    Diz que eu preciso
    morrer um pouco mais.

    E enquanto morro,
    busco a palavra derradeira,
    o poema não escrito
    e me apaixono mais uma vez.


EGREGORA

    NALDOVELHO

    Aprender a cultivar
    na realidade os sonhos,
    abrir mão das conquistas vãs
    e das suas heranças malditas,
    saber caminhar pelas sombras
    sem tropeçar nos escombros,
    não se entregar a loucura,
    aprender a linguagem das pedras
    em suas pequenas ranhuras,
    semear jardins de ternura
    e apesar da possibilidade do limo
    e do flagelo da solidão,
    colher na existência
    fragmentos de luz,
    esfregá-los pelo corpo
    como quem busca um conforto,
    uma luminosidade que possa
    nos guiar na escuridão.
    Morrer sucessivas mortes,
    renascer na incompletude
    quantas vezes forem necessárias,
    até que integrados ao caminho
    possamos ter uma derradeira morte
    que nos liberte de nós mesmos
    e nos permita a imensidão.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

EU AINDA ME ASSOMBRO

    NALDOVELHO

    Eu ainda me assombro
    quando a vida me deixa do avesso,
    quanto o tempo cobra o seu preço,
    quando a morte passa por perto,
    quando eu caminho por vales desertos,
    quando a solidão me leva a loucura,
    quando eu colho pela vida a ternura.

    Eu ainda me assombro
    quando o destino embaraça os fios,
    quando o amor nos causa o arrepio,
    quando o espinho me abre feridas,
    quando alguém que amo traz despedida,
    quando o vento me abre a janela,
    quando eu sinto saudades dela.

    Eu ainda me assombro
    quando eu percebo em mim a magia,
    quando a palavra transpira poesia,
    quando o sorriso germina esperança,
    quando a vida me chama para mais uma dança,
    quando eu descubro que nada tenho de meu,
    quando eu percebo a presença de Deus.
    

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

MATURAÇÃO DE UM POEMA DE AMOR E DOR

    NALDOVELHO

    Pegue um poema de amor e dor,
    coloque-o numa bandeja
    e deixe-o por um tempo
    sobre o parapeito de sua janela
    curtindo o sereno da noite,
    a saudade que se sente,
    a nostalgia das madrugadas,
    as lágrimas derramadas,
    os sonhos interrompidos,
    o desencontro e a solidão.

    Perceba então que certas palavras
    parecerão enrugadas,
    algumas outras entristecidas,
    umas poucas desesperadas.
    Mas existirão sempre aquelas
    que farão você descobrir
    dores que o poeta
    tentou nos esconder;
    versos que justifiquem
    as noites passadas em claro,
    e a vontade de descobrir quando
    a dor que dói em você
    vai parar de doer.

    Se após algum tempo,
    ao retirar o poema da bandeja,
    ele ainda tiver algo a lhe dizer,
    este será um bom poema
    e não importa o quanto o poeta
    teve que sofrer. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

NUNCA O MESMO MAR

   NALDOVELHO

   Todos os dias,
   diante daquela praia,
   eu direciono minhas lentes,
   foco naquele rochedo
   e fotografo a cena.
   
   Sempre a mesma cena,
   sempre no mesmo lugar,
   mas nunca o mesmo mar.

   Maré baixa, maré cheia,
   mar acariciando a sereia,
   ou a espancar as pedras
   em sua fúria lapidar.

   Todos os dias,
   desde o princípio dos tempos,
   sempre a mesma cena,
   nunca o mesmo mar.

   É preciso aprender
   com os rochedos
   sobre as fases
   e humores das ondas.

   Muitas histórias 
   para contar
   

DISTANCIAMENTOS

   NALDOVELHO

   A minha imagem no espelho
   já não reflete possibilidades.
   Vejo rugas, ranhuras, fissuras,
   coisas corroídas pelo tempo,
   final de festa, constrangimento.
   E nos meus olhos um misto
   de incerteza e distanciamento.
   Já não tenho novas palavras,
   e as que tenho, estão gastas,
   já disseram o que tinham a dizer.
   Não há nada de novo nas horas!
   Penso que vou precisar
   morrer de mim mesmo
   para poder voltar a viver.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CAMINHOS DA IMENSIDÃO

    NALDOVELHO

    Entre a porta de entrada
    e o portão da rua
    um cão feroz guarda
    a existência de um regato,
    uma roseira espinhenta
    roga pela coragem de um abraço,
    um caminho de pedras
    a espera dos seus passos,
    fantasmas vagam impunemente,
    em de busca regaço,
    faz tempo circulam perdidos,
    presos que estão
    a inevitável solidão.

    Entre a porta de entrada
    e a porta do meu quarto,
    lembranças entranhadas
    em cada canto, em cada pranto...
    Algumas passam o tempo
    tentando sensibilizar o poema,
    outras tentam desafiar minha razão.
    Uma estante abarrotada de livros,
    a maioria esquecidos,
    faz tempo não leio nada,
    vista cansada, silêncio, palpitações.

    Dentro do meu quarto
    pássaros noturnos
    zelam pelo meu sono.
    Caminhos de pedras, muitos sonhos
    esperam pelos meus passos,
    caminhos da imensidão! 

sábado, 29 de novembro de 2014

PRECISO ME PERDER DE VOCÊ

    NALDOVELHO

    Preciso estabelecer
    cumplicidades com o tempo,
    para poder colher
    entardeceres “bastantes”
    que possam me comover.

    Preciso chorar
    lágrimas ardidas,
    sangrar o sangue dos loucos,
    que sabe eu possa assim morrer
    e renascer um novo ser.

    Preciso me apaixonar outra vez,
    abrir novas feridas,
    para depois de passado algum tempo,
    sentir a danada da saudade
    doer em mim outra vez.

    Preciso me alimentar das madrugadas,
    perambular solitário pelas ruas,
    rasgar cartas, bilhetes, poemas,
    preciso escrever tudo outra vez.

    Preciso cometer mais pecados,
    beber novamente tonéis de aguardente,
    quem sabe até fumar um baseado,
    dormir num beco sombrio,
    acordar numa outra cidade,
    preciso me perder de você!


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

COMO SE FOSSE IMORTAL

    NALDOVELHO

    Como se fosse um sonho,
    espalhei sementes de menestrel,
    harmonias inebriantes, magia,
    melodias delicadas, sutilezas,
    sinfonias em meio ao caos.

    Como se fosse um construtor,
    ergui ninhos de acolher carinhos,
    criei janelas de perceber milagres,
    abri portas de percorrer caminhos,
    oásis em meio à imensidão.

    Como se fosse um poeta,
    escrevi versos de dissolver magoas,
    macerei ervas, criei remédios,
    teci palavras que espantassem a solidão,
    curei dores que martirizavam o coração.

    Como se fosse um homem feliz,
    destruí muralhas que impediam o acesso,
    colhi estrelas em meio ao deserto,
    aprendi a falar como falam os passarinhos,
    reconstruí-me por inteiro para poder voar.

    Como se fosse imortal,
    abracei a possibilidade do eterno,
    imaginei um mundo livre do pecado,
    e para isso, morri e renasci mil vezes,
    acreditando ser parte importante da criação.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

VÓ MIUDINHA

    NALDOVELHO

    Vó Miudinha
    adorava bordar uns panos
    e enquanto o fazia
    sussurrava palavras
    que ninguém entendia,
    e o vô assim dizia:
    magia meu neto, magia!
    Pareciam mandalas,
    só que quando terminava
    ela não desmanchava,
    maturava por um tempo
    e depois dava de presente.
    Cada pano tem seu tempo certo,
    ela dizia, e alguém que dele se ressente.
    O povo da cidade conta
    que certa feita
    até um tinhoso ela enfrentou!
    Colocou um daqueles panos
    na cabeça do coitado,
    aprisionou o cramunhão,
    depois pôs fogo no bordado
    e o homem logo-logo sarou.
    Quando eu ainda era criança,
    ela falou que eu também
    ia bordar muitos panos,
    só que diferentes.
    Velha danada aquela,
    adivinhou que um dia
    eu ia bordar palavras.
    Parece até que escuto o vô dizer:
    magia meu neto, magia!




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

TAPEÇARIA INACABADA

    NALDOVELHO

    Fios embaraçados na trama,
    tapeçaria inacabada,
    tecido esgarçado,
    folhas de papel rasgadas,
    livros e discos
    espalhados pelo quarto.

    Do parapeito da janela
    um anjo entristecido
    assiste a minha demolição.

    Manhã cedo, novembro,
    dia chuvoso, estranho
    e eu perdido em meus sonhos,
    e sem mais nem menos,
    pedaços de mim mesmo
    espalhados pelo chão.

    Meu braço direito
    num canto do quarto,
    o esquerdo perto da janela
    tenta alcançar a cortina, em vão!
    Minhas pernas já nem sei onde estão
    e os meus olhos choram
    presos a minha imensidão.

    Assim de repente eu amanheço
    e me vejo fio de esperança
    trançado no tecido solidão.
    Tapeçaria inacabada
    misturada aos escombros.

    E o anjo entristecido 
    tenta me dizer alguma coisa,
    mas eu não falo a língua dos anjos,
    nem poesia eu sei mais!

    Hoje eu só tenho palavras ocas,
    vazias e loucas,
    perdidas em meio à demolição.