domingo, 20 de janeiro de 2013

SERES ESTRANHOS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Somos todos bandidos,
   perigosos, feridos,
   seres tão descarados,
   banidos, sofridos,
   amantes ousados,
   seres tão descuidados,
   acreditamos em magia,
   somos foras da lei.

   Somos todos artistas,
   poetas, palhaços,
   ciganos, perdidos,
   sem vergonhas, tarados,
   tão boêmios, safados,
   saltimbancos, vadios,
   tão malditos, dementes,
   vivemos sempre no exílio.

   Somos lobos famintos,
   indigentes sem pátria,
   somos seres estranhos,
   somos o mel e o sal,
   o pesadelo e o sonho,
   somos espinho cravado,
   a outra face do mal.

ENCRUZILHADAS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

    São nove as cruzes fincadas
    em cada encruzilhada, escolha,
    dos desassossegos desta vida.
    Inúmeras são as esquinas,
    só nove devem ser dobradas
    oito com sinais de partida,
    só uma com sinal de chegada.

    São nove as luzes acesas
    para as muitas linhas traçadas.
    São nove as nações perdidas
    nos descaminhos dessa estrada,
    todas com histórias sofridas
    pois que vivem em desterro
    em busca da redenção.

    São muitas as clareiras abertas, 
    muitos punhais sangram a terra,
    várias flechas cravadas,
    diversas feridas latentes,
    mas até hoje presentes.

    São nove os cômodos da casa
    mas só num eu vejo a saída
    para o lado de fora desta vida.
    Muitas marcas, muitas pontes,
    firmezas pra todo o canto,
    pois quem vive em demanda
    não pode se descuidar.

    Pelas muitas paixões entranhadas
    eu te afirmo com certeza:
    são nove os guardiões presentes
    nos nove níveis da estrada
    e em cada nível nove vidas,
    degraus nesta escalada.

    E a nona realidade que existe,
    é aonde se deve chegar.

BOLERO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Minha mão estremece ao invadir-lhe o decote,
   o bico do seu seio a oferecer-se generoso,
   já não sigo mais o ritmo enlouquecedor deste bolero
   e o que chega aos meus ouvidos, é suave e envolvente.

   O calor do seu ventre, feito um imã, atraí
   e eu pareço desafiar a impenetrabilidade dos corpos.
   Já não consigo pensar, cada vez mais em seus braços,
   misto de fera e menino que busca um carinho
   e que ainda assim quer lhe devorar.

   Se a orquestra parar, eu não sei o que faço!
   Melhor permanecer em seus braços a espera de outra música,
   uma que seja bem lenta para que possamos continuar.

   Ainda bem que a penumbra tomou conta do ambiente...

   Lá fora, deve existir um recanto, algum refúgio seguro,
   aonde eu possa ousar desabotoar seu vestido,
   beijar seus seios, molhar meus dedos
   em seus mais secretos abrigos, sem vislumbrar o perigo!

   Quero vê-la no orgasmo, sentir o seu cheiro
   e me aconchegar no calor de suas coxas,
   beber sedento todo o seu veneno e depois morrer!
   Uma pequena morte que seja, mas que seja em você.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

POEMAS QUE EU TENHO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


   NALDOVELHO

   É no caminhar incessante
   por estradas rochosas, distantes,
   por acidentados e estreitos atalhos,
   que eu construo os poemas que eu tenho.

   É na insônia intrusa e insistente
   das madrugadas que eu sinto tão frias,
   que eu colho as sementes que eu sonho
   para os versos que eu teimo e proponho.

   É dentro de minhas entranhas
   que eu macero a palavra que eu trago,
   faz tanto tempo, que eu a tenho guardada
   em salmoura no silêncio dos meus ais.

   É no parimento de tantos poemas
   que eu exorcizo sentimentos antigos
   e absolvo o homem que eu penso
   capaz de errar muitas vezes mais.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

ENQUANTO VOCÊ NÃO CHEGA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

    Enquanto você não chega
    eu percorro caminhos,
    desfaço teias, coleciono saudades,
    disfarço a lágrima que vacila covarde,
    escancaro janelas e atravesso a tarde
    escrevendo poemas, alinhavando enredos,
    revelando segredos, sonhos, desejos,
    e todos os dias a mesma hora
    deixo que a nostalgia me invada
    só para que eu sinta o peito doer.

    Enquanto você não chega
    eu escuto boleros,
    alguns bem dramáticos!
    Conheço alguns cubanos
    que quando tocam...
    Haja coração!

    Enquanto você não chega
    eu passo o tempo cultivando crisântemos,
    especialmente monsenhor branco,
    que é para que a paz que eu procuro
    possa contaminar minhas mãos.

    Enquanto você não chega
    eu passo os dias conversando com os pássaros,
    principalmente as rolinhas,
    que gostam de invadir minha sala
    em busca de migalhas de pão.

    Enquanto você não chega
    eu tento desfazer o feitiço
    que fez deste poeta um solitário
    pois não importa o sol que faça lá fora,
    será sempre inverno em meu coração.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PALAVRA LIBERTADA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Eu vi um poema sofrido
   aprisionado em métricas grades,
   imagens pequenas, tacanhas,
   enforcados os versos, vergonha!

   Eu vi versos mofados
   numa cela estreita e escura
   palavras usadas, cansadas,
   a gritar por tamanha clausura

   Eu vi um dragão carcereiro,
   guardião de tão triste enredo,
   a condenar o poeta ao desterro
   pela ousadia de versos sem medo.

   Eu vi a poesia assustada,
   que constrangida a não ser mais ousada,
   rebelou-se e rompeu as correntes,
   assumindo suas muitas vertentes.

   Eu vi a palavra libertada
   pela magia que brota dos dias
   e que por ousadia o poeta consente
   com lágrimas ardidas nos olhos.

   Eu vi a beleza que a vida
   ao fecundar os versos que eu sonho
   deixou para mim de presente.

UM PEQUENO OBJETO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Uma coisa fica insistentemente a martelar minha cabeça. Um pequeno e insignificante objeto esquecido na pressa, depois de uma rápida conversa.

Segunda de manhã, café bem forte e quente, um cigarro prazerosamente compartilhado, você pegou sua bolsa e disse assim, meio aborrecida: - já vou, já é hora, preciso ir embora!

Parece besteira que por tão pequeno objeto, somado ao seu cheiro repleto, que eu confesso, perpetuei em meus sonhos, possa eu, me permitir à ousadia de ficar aqui a imaginar o quanto seria bom viver ao seu lado e de um jeito sem pressa, sentimentos apaziguados, nada mais de esperas, tão pouco, cidade nublada. Desculpe, eu preciso acreditar!

Hoje já é sexta de entardecer ensolarado, outono lá fora e a primavera aqui dentro, insiste, daqui a pouco é sábado e aquele pequeno objeto a trazer a esperança de que por mais que você esteja distante, vá chegar de repente com aquele sorriso nos olhos, a dizer assim meio sem graça: - achou minha escova de dente? Deixei no armário do banheiro, ainda está por lá?

domingo, 13 de janeiro de 2013

UM SEGREDO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Vou te contar um segredo, um que nunca contei a ninguém: já faz algum tempo, num desses sonhar acordado, alguém que sequer sei o nome, à cabeceira de minha cama, falou de uma viagem para uma terra distante, bem depois do horizonte e a essa terra ele chamava de Grande e Eterno Oriente.

Dizia ser esse um lugar de muita magia, onde todas as coisas conviviam na mais perfeita harmonia e que por lá o sol jamais jorrava ardente, sendo apenas e tão somente um bálsamo de vida, fonte de energia e calor. E a chuva que por lá caia, era sempre e só o suficiente para germinar sementes, alimentar a terra e as nascentes, e saciar a sede do povo daquele lugar. Dizia que o vento ali ventava macio e aveludado, quase uma carícia, uma dádiva do Criador. 

Falou-me, então, do nascer e do pôr do sol, tão bonitos quanto os daqui, mas que lá poderíamos percebê-los em outros e maravilhosos matizes que por enquanto, por sermos ainda aprendizes, nossos olhos não conseguiriam ver.

Falou-me das noites de lua e que a sua luz ainda é fonte de tantos e profundos romances; descreveu-me um céu tomado de estrelas e que por lá não são tão distantes e que como cristais cintilam a energizar as pessoas, mantendo os males distantes e curando os recém-chegados, viajantes de outras terras, errantes que em busca de aconchego e repouso têm o mérito de por ali aportar.

Contou-me, com um sorriso nos olhos, que é comum encontrarmos crianças, verdadeiros anjos, tão belos, a brincar pelas ruas e praças, brincadeiras que nos falam a lembrança; promessas de uma existência mais terna, de um tempo de maior delicadeza que certamente um dia, cada um de nós vai merecer vivenciar.

Falou-me também e de forma veemente, de muitos músicos, poetas, pintores, todos os tipos de artistas; tantos que fica até difícil enumerar. Quantas luzes, quantos mestres que por aqui passaram e que hoje de lá buscam nos inspirar.

Sabe aquele segredo, do início da história? Pois é, ele me confidenciou que lá por existem muitas escolas e que eu já estou matriculado, nas primeiras séries, é claro! Quero um dia ser músico, poeta e pintor, eu já venho treinando e treinando...


Disse-me, finalmente, que nos idos de um mês de outubro, quase no início de um novembro chuvoso eu viajaria para lá. Ele só não me disse o ano e me mandou ter paciência, continuar a viver e a aprender e que assim como, existe uma hora certa de chegar, também haverá uma de partir e que nesse dia ele aqui estará para me abraçar.

VERSOS LAPIDADOS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Palavras poucas, soltas, contundentes,
   versos lapidados, preciosos, abrangentes.

   O vento que invade remove as cinzas,
   atiça o meu corpo e incendeia a casa.

   Quem sabe a tarde traga num poema
   palavras amenas a me traduzir?
   Quem sabe uma dança,
   ou uma música suave?

   Palavras sussurradas, sagradas,
   revelam segredos, abrandam meus medos.
   Nada é mais urgente, nada é mais latente!

   E o poema é olho d’água, aguardente,
   e brota assim destrambelhado,
   vem matar minha sede,
   vem me dar o que comer!

UM OLHAR PELA JANELA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Um olhar pela janela, visão embaçada,
   um mundo de sonhos, segunda-feira, outono,
   os carros que passam, muita fumaça,
   tem chuva miúda, neblina constante,
   cidade nublada, teu nome é abandono.

   Uma música no ar testemunha a saudade,
   uma carta de despedida, uma lágrima covarde
   no canto do olho esquerdo vacila, escondida...

   Melhor escutar um bolero, escrever um poema,
   buscar outros temas e que sejam sem dramas,
   pode ser que eu convença e até me convença
   que foi só uma miragem, que foi tudo bobagem.

   Um café bem quente e o maldito cigarro,
   qualquer dia eu paro de me agarrar a fumaça,
   pode ser que eu consiga endireitar o estrago,
   pode ser que eu consiga te esquecer de uma vez.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

POEMA APRISIONADO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Dias lentos, sonolentos,
   nada que nos acene,
   desmaiadas as cores
   no firmamento.

   Dias pobres, calmaria,
   onde a paixão e a poesia
   mostram-se apáticas,
   mornas, estáticas.

   Dias tolos, ocos,
   onde sequer um esboço
   mostra-se disposto
   a materializar-me o esforço.

   Melhor tirar da janela a trava,
   por no parapeito um cata-vento.
   Melhor provocar a palavra,
   mesmo a custa de desentranhamento.

   Melhor gritar o seu nome,
   ainda que seja pra dentro.
   Quem sabe a saudade retorne
   e traga dor de destrambelhamento
   e liberte o poema que, coitado!
   sofre aprisionado, terceira gaveta,
   no departamento das ilusões.  

UM MENINO EM VERSOS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


   NALDOVELHO

   Numa língua estranha, 
   um menino em versos 
   falava de coisas tantas, 
   mas não conseguíamos compreender. 
   E ele apontava para a sua janela
   e pedia que tirássemos a tramela,
   depois para a porta e perguntava:
   alguém se importa?
   Achávamos aquilo engraçado,
   mas não parávamos para procurar saber.


   Depois de algum tempo
   caminhou suavemente,
   desceu a rua e desapareceu
   como por encanto.
   Mas deixou no ar o seu perfume
   e muitas pétalas espalhadas
   em frente a sua porta,
   o que de certa forma nos incomodava,
   pois nos mostrava alguma coisa
   que ainda não sabíamos perceber.

   Dentro de casa, você chorava,

   pois não mais lembrava dos significados,

   e não conseguia descobrir

   onde havia escondido a chave,

   nem como retirar a tramela!
   Tão pouco percebia que daquele dia

   em diante todas as tardes, à mesma hora,

   o menino diante da sua casa chorava,
   e pedia que arrombássemos a porta,

   pois aberta, conseguiríamos perceber
   o amor que existia em seu ser.


   Numa língua estranha

   um menino em versos falava

   e nenhum de nós conseguiu compreender.

TUA MAGIA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Que magia é esta que me põe do avesso?
   Sequer sei se te mereço!
   Só sei que me faltam pernas
   e as mãos suadas, trêmulas,
   visão embaçada, aperto no peito,
   voz embargada a denunciar a lágrima,
   prenúncio de dor.

   Que magia é esta
   capaz de tanto desassossego?
   Que me faz sentir por dentro
   uma espécie de assanhamento
   e me faz perder o medo
   de revelar ao mundo
   minhas fraquezas, segredos.

   Só pode ser feitiço bem feito,
   consumado em noite de lua cheia,
   banhado em água de cheiro,
   depois sagrado às sereias,
   num tributo a Iemanjá.

   Magia que me acende os olhos,
   que faz da madrugada uma escolha
   e da visão do teu corpo um martírio:
   pele branca, cheirosa e macia...
   Quisera eu, nunca mais amanhecer!
   Quisera eu poder sagrar teu corpo
   e depois morrer.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

UM DIA QUALQUER - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

NALDOVELHO

Todos os dias você acorda, levanta e se espanta. Já é quase hora e você se apressa, vai ao banheiro depressa, lava a cara e os dentes, escova os cabelos e se veste. Depois vai até a cozinha, requenta um café e ele ferve! Mesmo assim você se serve, queimando goela abaixo e mastiga um pedaço de pão, olha para o relógio, se assusta e sai, tropeçando nas pernas. Novamente atrasado! Compra as notícias de ontem, entra na fila do ônibus e espera. Só que o relógio não. Merda, seu time perdeu outra vez!

Quando o ônibus chega é aquele atropelo, de jornal no sufoco, tem alguém debaixo do seu braço e os seus pés nem tocam o chão. Você vai pendurado, amassado e no freio de arrumação seu jornal caí... Abaixar, nem pensar!

Você vai praguejando num trânsito escangalhado, até chegar numa esquina quando você é cuspido direto na calçada, em frente a um banco que por um desses milagres que só Deus explica, é onde você trabalha.

Você entra depressa, coloca a gravata, procura o livro de ponto e ele já não esta mais no quadro! Algum babaca diligente levou para mesa do gerente e tome esculhambação!

O jeito é pedir desculpas, tentar uma explicação. É sempre a mesma história e esta já não cola! Toda segunda é a mesma merda, melhor aceitar o desconto, sentar o rabo na cadeira e começar a trabalhar.

O tempo correndo e você nem sente e quando percebe já é hora de ir para uma pensão barata comer uma comida qualquer. Depois voltar e de novo em frente a um espelho, lavar a cara e os dentes... Depois, para o mesmo trabalho e novamente você nem sente, pois já são sete horas, o banco fechado, o puto do gerente foi embora, faz tempo! Você se levanta, a bunda dolorida, entrega o movimento, já foi tudo processado, já foi tudo transmitido e você todo fodido, vai para fila do ônibus. Novamente o atropelo e outra vez engarrafado!

Depois de uma hora e pancada você é de novo cuspido, só que agora dentro de um bar. Toma uma cachaça para lavar a merda do dia, toma uma cerveja para urinar ele depois. Não acha que é o bastante, repete a dose e pronto! Já está meio bêbado, meio torto e o ombro doendo pra caralho, a coluna queimando empenada, você vai se arrastando para casa e encontra a mulher no portão.

A comida posta na mesa, Dona Maria de cara amarrada! Você arrisca uma saliência, ainda sobrou tesão! Ela sente o bafo de cana e arma um tremendo barraco. Porra de mulher! Parece até meu patrão!

Puto da vida, você se levanta, quase nem toca na comida e vai assistir televisão. Não tem nada que preste, e o que presta não passa, e dá um sono danado, você vai dormir enjoado, xingando as suas escolhas e até a falta de escolha.

Queria poder entender, achar um caminho, saída! Quem sabe mudar de emprego? Quem sabe trocar de mulher? Quem sabe mulher nenhuma pegando no seu pé! Acha melhor virar vagabundo, desocupado ou coisa assim. De repente entrar para a política, cometer um assalto! Assalto não! Melhor virar vereador, é mais seguro. Dá para ganhar uns trocados, ser chamado de doutor, sem correr o risco de um dia sair de casa algemado por conta de algum negócio escuso que você malandramente arrumou.

E a patroa continua emburrada, e a coluna continua doendo... Trepar nem pensar! Melhor mesmo é dormir, amanhã é um novo dia e enquanto ele não vem, quem sabe Deus não se toca e lhe tira do castigo. Acho que o nome é indulto! Pode ser também anistia, coisa que é aplicada em bandido. Não! Anistia é em banido político, desses que vivem no exílio. 

Quem sabe você não acerta na Sena, um dia qualquer acontece! É só manter a esperança e não entregar os pontos. Um dia qualquer, qualquer dia, custa nada acreditar!



TUDO POR PRAZER - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Profanei-te as entranhas,
   violei tuas teias,
   sagrei-te a peçonha
   e inoculei em meu corpo,
   a tua manha, a tua sanha.

   Fiz do teu desejo
   o meu hino de dor,
   fiz da tua fome
   o meu manto de amor.

   Deixei escorrer
   do canto dos lábios,
   vinho tinto,
   licoroso e suave
   e numa mistura de sabores,
   odores, segredos,
   embaracei nossas linhas
   e te dei de comer.

   Servi a minha carne em postas
   e morri de tanto prazer.

TRILHAS ESTREITAS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

   Viajo por trilhas estreitas,
   de um lado paisagens desertas,
   do outro corredeiras incertas.
   Se de um lado o rio me chama,
   do outro armadilhas estranhas.

   Vez por outra sinto frio e fome,
   mas não tenho tempo para lágrimas,
   caminhar é ofício de quem sonha
   encontrar no final desta jornada
   uma nascente chamada verdade.

   E quando anoitece nas trilhas,
   céu de estrelas desfaz meus enganos,
   e cansado numa pedra adormeço
   e em sonhos refaço meus planos.

   Caminho por trilhas estreitas,
   já faz muitos e muitos anos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

TEMPO INDECENTE - POEMA DE LUZ E SOMBRAS


    NALDOVELHO

    Quando invades meu quarto
    e me tomas de assalto,
    eu resgato a poesia
    de um tempo indecente
    que um anjo bandido
    espalhou pelo ar.

    Sagrado é o mistério
    que brota da fonte,
    que molha o meu leito
    e inunda o lugar,
    te amar é um defeito
    que eu não posso evitar.

    Quando sussurras baixinho
    segredos de amante,
    correntezas de um rio
    brotam do meu corpo,
    pois tu és a magia
    que alimenta e vicia
    e o teu colo tão quente
    é como água ardente,
    ninho de serpente
    à luz do luar.

NASCENTE (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   É com se fosse tempestade
   que açoita o mar inclemente,
   que varre pra longe a calmaria
   e desentranha a poesia
   que trago guardada, latente.

   É como clarão de lua cheia
   que seduz no mar a sereia,
   que liberta o poeta das correntes
   e faz jorrar em vertentes,
   águas de cheiros tão quentes.

   É como pensamento que brota
   rebelado e impunemente,
   magia que não pode ser desfeita
   e que abusadamente transforma
   no ventre de um ser a semente.

   É como água em sua nascente,
   orvalho que purifica a alma,
   estrela tardia e matutina
   que mostra ao poeta que chora
   que sempre valerá a pena!

   É vida que jorra sem cessar.