quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ROSÁRIO DE PENAS

    NALDOVELHO

    Rosário de penas,
    enfiada de versos,
    e a cada verso uma pétala,
    é bem verdade,
    algumas sujas de sangue,
    sempre existirão espinhos
    e eles causam cortes,
    às vezes, até hemorragias.
    Alguns com o tempo
    nem sangram mais...
    O poema deixa seus rastros.

    Parir versos é cicatrizar feridas,
    é curar entorses, lumbago,
    prisão de ventre, espinhela caída,
    e se bobear:
    até mordida de serpente.

    É como ofício de boticário, 
    manipulador de palavras,
    e a cada pequeno frasco um poema.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

QUANDO O GALO CANTOU TRÊS VEZES

    NALDOVELHO


    Quando o galo cantou três vezes
    o sol era só uma promessa
    e na linha do horizonte eu via
    uma tênue luz envolta em cobertas.
    Era a madrugada que surgia
    e quase ninguém percebia,
    só eu vivia o dia que nascia.

    Quando o galo cantou três vezes,
    eu fiz promessas pros santos,
    disse-lhes que não cometeria mais pecados,
    que não seguiria mais trilhas estranhas,
    que não fumaria mais cigarros,
    tão pouco beberia aguardente,
    nada mais de becos sombrios,
    nem tangos, nem boleros, nem fados.

    Quando o galo cantou três vezes,
    um blues sangrava em desespero
    num quarto de motel barato
    e uma mulher debruçada sobre o meu corpo
    derramava seu canto,
    enquanto uma bailarina dançava
    sobre o fio de uma navalha.

    Quando aquele dia amanheceu,
    uma sombra caminhava pela cidade,
    ruas e calçadas molhadas, mês de setembro,
    final de inverno, se bem me lembro,
    e a porta da bar precocemente aberta
    acolhia meus tropeços, meus recomeços.

    E ali mesmo, nos intestinos da cidade,
    tomei mais uma dose da mais pura aguardente,
    fumei mais um monte de cigarros,
    e me aprontei para viver um outro dia
    e cometer mais pecados.

    Quando aquele dia terminou eu percebi,
    que nem todo o poema que eu escrevo fala de amor.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

MINHA SINA DE SER FADO

    NALDOVELHO

    Minha sina de ser fado,
    lágrima derramada em silêncio,
    guitarras emudecidas no armário,
    e um poema sufocado em meu peito
    reclama e pede passagem,
    mas eu não sei onde guardei a chave.

    Minha sina de ser sonho
    a buscar caminhos
    pelos estreitos de concreto
    das ruas da minha cidade
    e de ficar aprisionado
    em becos sombrios de saudade.

    Minha sina de ser vento
    que passa e derruba
    castelos de areia,
    que espalha sobre a mesa
    poemas, cartas, bilhetes,
    que se alimenta de palavras
    e se aprisiona aos significados.

    Minha sina de ser nostalgia,
    poeta que vive em meio a escombros,
    que a cada passo tropeça e caí,
    que continua a achar
    que lhe falta um pedaço,
    que abre a janela e suplica
    a quem por maldade o levou
    que tenha a fineza de devolver.

    Minha sina de ser fado
    com cheiro de bolero cubano
    e ardido como se fosse um blues!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

QUANDO TE ROUBEI UM BEIJO

    NALDOVELHO

    Quando te roubei um beijo
    trouxe dos teus lábios
    o gosto da lua cheia,
    saliva com gosto de orvalho,
    veneno curado de sereia
    que até hoje circula
    impunemente em minhas veias
    e não se conhece antidoto
    que possa me curar.

    Quando te roubei um beijo
    cometi a ousadia de um poema,
    dos teus seios em minhas mãos, aninhados,
    das tuas pernas entrelaçadas às minhas,
    de palavras embaralhas a um orgasmo,
    janelas e portas fechadas,
    e eu em teus braços aprisionado,
    cativo do bem querer.

    E a cada momento um novo verso,
    e em todos me sentencio culpado
    por ter te invadido abusado,
    agora não tem mais jeito,
    sou presa abatida em teus dentes,
    sou carne fatiada e exposta,
    sou teu pasto e repasto,
    mistura de sêmen, suor e sangue,
    semente que floresce em teu ventre,
    e de um rio tu és a nascente,
    nada mais poderia eu fazer,
    estava escrito um derradeiro poema,
    nada mais poderia eu dizer.

domingo, 6 de setembro de 2015

TRIBUTO A AYLAN KURDI

    NALDOVELHO

    Cubram de flores o corpo desta criança
    e gritem aos quatro ventos
    que nela reside a esperança
    e que a dor não se faz mais presente,
    pois apesar de morta,
    ela vive nos braços do Pai.

    Cubram de flores o corpo desta criança
    e gritem aos quatro ventos
    que todos aqueles a quem ela salvou
    deverão lhe fazer uma prece,
    não de lamento ao que lhe restou,
    mas de agradecimento
    pela vida que ela lhes deixou.

    E que de hoje em diante
    façam constar das tábuas sagradas
    um décimo primeiro mandamento,
    um que condene a mais terrível das penas
    quem indevidamente se disser mártir,
    e a quem por ação ou descaso
    disseminar entre nós a guerra,
    o desamor e a incompreensão.

    Cubram de flores o corpo desta criança
    e que a partir desta e pelas demais gerações
    seu nome seja considerado sagrado e reverenciado,
    pois santa deverá ser sempre a lembrança do seu nome,
    pois apesar de morta ela estará sempre viva
    em todos os nossos corações. 

    E que se dê força de lei a este poema,
    assim lhes determina loucura de um pobre poeta,
    que se recusa a abrigar em seu coração a dor
    do sacrifício desta criança,
    pois hoje já consegue compreender
    um pouco mais os desígnios do Pai.

NADA É O QUE PARECE SER

    NALDOVELHO

    Nada é o que parece ser!
    A janela que pensávamos viver aberta,
    na maior parte do tempo nem janela é.

    E a casa que pensávamos trancada?
    Hoje sabemos que há muito
    foi demolida, não nos restou nada!

    Sabe aquele amor
    que pensávamos derradeiro?
    Se perguntarem a ela,
    certamente, seremos apenas
    uma vaga lembrança,
    um passado distante,
    nada que mereça permanecer.
  
    Eu também não sou
    o que sempre pensei ser,
    mesmo depois de tantos anos,
    sou ainda um esboço,
    um aprendiz do que eu tinha de ser.

    Nada é o que parece ser!
    Estes versos, por exemplo,
    não constroem na verdade
    um bom poema.
    Apenas um pálido esforço
    de tentar compreender.

    E você, é o que aparenta ser?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

ASAS DE COLHER SENTIMENTOS

    NALDOVELHO


    Com o olhar fixo para o firmamento,
    ela voou com suas asas
    de colher sentimentos.
    Pousou no braço esquerdo
    de um pequeno riacho
    e no burburinho das águas,
    matou sua sede e
    sob a proteção de um rochedo,
    adormeceu.

    Sonhou com colibris,
    araras e sanhaços,
    conversou com um arvoredo
    que existia por ali,
    e abraçada a uma quaresmeira
    aprendeu com os ventos
    palavras fazedeiras de poemas.

    Depois de um tempo,
    voou de volta pra casa
    com suas asas carregadas
    de sentimentos.
    Pousou num velho flamboyant
    que existia em frente a sua janela,
    e de lá, perscrutou toda a cidade.

    Quando anoiteceu,
    voltou para o seu quarto
    e ao se olhar no espelho percebeu
    que nunca mais seria a mesma:
    em seus olhos, vestígios daquele riacho;
    por dentro, a inquietude de um arvoredo;
    e de sua boca brotavam  sementes de pé de vento.

    Daquele dia em diante,
    todos os dias ela se transforma em pássaro,
    às vezes com asas de firmamento,
    em outras com asas de voar pra dentro,
    mas sempre com asas de colher sentimentos. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O SILÊNCIO


    NALDOVELHO

    O silêncio é um velho amigo
    e toda a vez que eu posso
    eu venho até aqui
    conversar um pouco com ele.
    E é uma conversa sem palavras,
    mas cheia de significados,
    revelações!

    Parece coisa de louco,
    de gente que vive abraçada a solidão,
    mas é aprendizado que só faz
    fortalecer meu coração.

    Outro dia ele me confidenciou
    sobre sentimentos 
    que você não revela a ninguém,
    coisas mal resolvidas, casquinhas de feridas
    que você tem prazer em escarafunchar.

     O silêncio é meu amigo e confidente,
     mas às vezes eu tenho um pouco de medo,
     vai que ele resolve revelar pra você
     que eu também gosto de mexer em velhas feridas.
     Unha encravada então?
     Tenho uma faz tempo!

     O silêncio é um velho amigo,
     e sempre que eu posso
     eu peço a ele notícias de você.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

O MEU JEITO DE ORAR

    NALDOVELHO

    Passarinho no parapeito da janela
    olha para dentro do meu quarto:
    entardece, cama desarrumada,
    folhas de papel pelo chão espalhadas
    e um poema ainda não escrito
    circula impunemente pelo ar.

    O quarto todo respira querências,
    as palavras transpiram urgências,
    mas o poeta permanece em silêncio,
    se aproxima calmamente da janela
    e pergunta ao passarinho
    se ele quer conversar.
    Passarinho diz que não!
    pois dentro em pouco anoitece
    e ele tem que voltar para o seu lar.

    Já passam das seis, lá fora anoitece,
    aqui dentro o poema faz um prece,
    e o jeito dele de provocar o poeta
    que há tempos não consegue mais rezar.

    Na vitrola, num antigo disco de vinil,
    Shirley Horn inspira o poeta,
    sussurra em meus ouvidos,
    palavras, significados, gemidos,
    e o poema cada vez mais presente.

    Agora, luz da lua invade o meu quarto,
    mês de junho, final de outono,
    palavras nostálgicas, encadeadas,
    conversa travada entre o poema e o homem.

    Talvez este seja o meu jeito de  orar.

domingo, 14 de junho de 2015

URGÊNCIA

    NALDOVELHO

    Há uma urgência que transpira inverno
    encharcando as paredes da minha casa.
    Domingo, princípio de junho,
    na realidade fim de outono,
    mas no horizonte já se percebe
    o frio das coisas querendo se achegar.
    E a solidão deitada no chão do meu quarto,
    e na prateleira da estante o teu retrato,
    sorri e me pede um beijo, um abraço.

    No ar um tango sofrido, ardido...
    Astor Piazzolla sabia o tom exato
    da tristeza que sem pedir licença,
    diz desaforada que veio para ficar.
    Linhas entrelaçadas histórias,
    saudade, nostalgia,minhas memórias...
    E o veneno a circular
    impunemente em meu corpo,
    e eu busco na poesia um antídoto,
    mas ela arredia diz: hoje não!

    Há uma urgência nas coisas que eu faço,
    na vontade de semear madrugadas,
    na necessidade de dobrar esquinas,
    na incapacidade de sobreviver ao silêncio,
    na possibilidade de ter que ir embora,
    nos poemas guardados na gaveta,
    em todas as coisas que me povoam as horas
    e que na realidade são as donas deste lugar.

    Há uma certa urgência no tempo que me resta!

E EU HEI DE PASSAR

    NALDOVELHO

    Existem pessoas que nascem
    para escancarar janelas,
    atravessar portas, portais,
    dobrar muitas esquinas,
    navegar sozinhos
    por imensidões de caminhos
    e nenhuma corrente,
    cadeado ou tramela
    consegue aprisionar.

    Existem outros que nascem
    para andar em círculos
    em volta de uma árvore,
    e ali constroem seus abrigos,
    se alimentam do que é preciso,
    crescem, amadurecem e morrem,
    e não deixam nada para ninguém.

    Mas existem aqueles
    que nascem para ser árvores,
    raízes profundas, copas frondosas,
    flores perfumes, muitas sementes,
    e assim vivem por tanto tempo
    que até parecem eternos,
    pois há muito eu já passei
    e eles ainda estão ali.

    Existem os que nascem
    para ser ventania,
    outros nascem pedra,
    alguns poucos nascem poesia...
    Eu que nasci passarinho
    hei de passar 
    e eles todos
    ainda estarão por ali.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

ENTRE DOIS MUNDOS

   
  
    NALDOVELHO

    Ente dois mundos
    o poeta caminha aos tombos,
    ora se achando um louco,
    ora se achando um tolo.
    E assim ele vai
    semeando seus versos,
    ora encharcados de saudade,
    ora saídos dos escombros.

    Entre dois mundos
    o poema se contorce nervoso,
    ora vestido de assombro,
    ora molhado de sonhos.
    E assim ele vai
    dobrando as esquinas,
    atravessando a cidade,
    e de porta em porta
    semeando suas verdades.

    Entre dois mundos
    o homem tenta sobreviver,
    ora ele se alimenta de delicadezas,
    ora ele naufraga nas incertezas.
    E assim ele vai,
    ora assoreado na margem de um rio,
    ora chama que arde num curto pavio, 
    mas sempre e sempre,  poesia,
    seja lá onde for
    que este caminho vá dar.



quarta-feira, 10 de junho de 2015

TEVE UM TEMPO DE PASSARINHO

    NALDOVELHO

    Teve um tempo
    que eu tinha asas de imensidão,
    voava como quem voa pro infinito
    e eu era um pássaro bonito,
    mas tão desaforado,
    uma faísca na escuridão.
    E tinha plumagem dourada,
    bico de abrir estradas,
    olhos de derramar paixão.

    Teve um tempo
    que Deus passarinho dizia
    pra eu voar de flor em flor,
    pegar delas todo o mel,
    depois atravessar as dobras do tempo,
    levar pro mundo a ternura,
    remédio pras dores
    que afligiam os corações.

    Teve um tempo
    que o meu canto era singelo,
    angelitude que te invadia o quarto,
    e eu nem sabia da palavra
    que alimenta os teus versos,
    mas sabia do amor que eu tinha,
    poesia que transcende o poema
    e eu pousado em tua janela,
    encharcado de tanta emoção.

    Teve um tempo que eu tinha asas,
    hoje sou apenas um prisioneiro
    envolto nas teias do tempo,
    e o meu canto é triste e solitário,
    pés feridos de trilhar este chão.