segunda-feira, 9 de junho de 2014

DEMOLIÇÃO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Eu percebo o sobrado morto,
    portas arrombadas
    janelas quebradas,
    velho casarão abandonado
    e invadido pela poeira e pelo mofo,
    restos, detritos, entulhos,
    vestígios de um tempo
    em decomposição.

    No quintal tomado pelo mato,
    uma roseira espinhenta
    resiste e insiste:
    rosas brancas em cachos,
    vida em meio aos escombros.

    No interior da casa eu percebo:
    histórias, dramas,
    enredos entrelaçados,
    diversos tipos de teias,
    sentimentos enraizados...

    Lá fora um grupo de operários
    se apronta para o último ato:
    vai começar a demolição!


ATÉ AONDE MINHA VIDA PUDESSE - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Até aonde meus olhos pudessem,
   eu construiria pontes
   que ligassem o aqui com o acolá,
   abriria portas que me permitissem
   e janelas para o sol entrar.

   Até aonde minha voz alcançasse,
   eu semearia palavras ricas de sonhos
   e espalharia versos de abrir tramelas,
   trancas, cadeados, cancelas,
   para que o meu povo pudesse passar.

   Até aonde minhas pernas conseguissem,
   eu seguiria por estradas só de ir
   e desafiaria os horizontes do porvir.
   Até aonde a existência me levar! 
   

sexta-feira, 6 de junho de 2014

INTIMIDADES - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Na intimidade dos nossos fluídos,
    suas águas misturadas às minhas,
    formam um rio de águas claras
    que explode em corredeiras,
    que inundam toda a casa
    de amor e delicadeza
    e deixam um cheiro selvagem,
    coisa difícil de esquecer.

    Na intimidade dos meus sonhos,
    você aninhada em meus braços,
    suas teias a envolver meu corpo,
    ignoro o que o mundo lá fora
    tenha a me dizer.
    A única coisa que me importa,
    é ter pequenas mortes, que sejam,
    todas elas entranhadas em você.

    Na intimidade dos seus ouvidos
    deposito palavras indecentes
    e em seu corpo marcas dos meus dentes,
    testemunhos da minha insanidade,
    feridas em carne vida, tatuagens,
    e você a se oferecer por inteira,
    e o seu veneno a circular em minhas veias,
    mistura de dor e prazer.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

MADRUGADAS FRIORENTAS DE MAIO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    
    NALDOVELHO

    Eu sei de um tempo de terra molhada,
    de casa avarandada na beira da praia,
    de caminhos abençoados pela neblina
    num amanhecer friorento de maio.

    Eu sei de um tempo encharcado de carinho,
    do olhar amoroso a envolver o menino,
    da ternura que colhíamos a cada passo,
    das águas de um rio a jorrar dos seus braços.

    Eu sei de um tempo de suavidades,
    palavras colhidas num livro de poemas,
    café encorpado, cigarro compartilhado,
    dias e noites aconchegado ao seu lado.

    Eu sei de muitas coisas preciosas, sagradas,
    mas também sei da saudade malvada,
    da solidão que toma conta do meu quarto,
    de acordar e saber que eu me perdi de você.

    Eu sei do tempo entrelaçando enredos,
    de caminhar pela vida exorcizando meus medos,
    do livro de contos que eu prometi a você,
    que por mais que eu tente não consigo escrever.

    Eu sei que o meu tempo um dia termina
    e que a varanda daquela casa assombra meus sonhos
    nas madrugadas molhadas e friorentas de outono...
    Já perdi a conta dos poemas dedicados a você. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O POEMA QUE EU NÃO ESCREVI - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Quem roubou de mim
    a palavra que andava
    engasgada em minha garganta?
    Quem roubou dos meus lábios
    o sorriso que eu não sorri,
    dos meus olhos a lágrima
    que eu não chorei,
    das minhas mãos o carinho
    que eu não ofertei?
    Quem roubou de mim
    a dor que eu não sofri,
    a saudade que eu não senti,
    a carta de amor que eu não enviei?
    Quem roubou a janela
    que estava aqui,
    a porta que estrategicamente
    eu destinei para fugir,
    a mentira que eu cansei de mentir?
    Quem roubou de mim o sonho
    que por anos e anos
    eu ingenuamente sonhei,
    a inquietude que eu alimentei,
    a possibilidade de descortinar
    os mistérios que eu ainda não revelei?
    Quem roubou o sol, a lua,
    a rua, a madrugada, as esquinas,
    a insônia, a loucura, a ternura?
    Quem roubou de mim o poema
    que eu não escrevi?

terça-feira, 27 de maio de 2014

E ELE NÃO SABIA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Todos os dias
    ele caminhava pelas ruas
    a procura de um remédio
    que curasse sua dor,
    mas se alguém perguntasse
    onde doía,
    ele nada respondia,
    pois simplesmente,
    não sabia!

    Viveu assim
    quase toda uma vida,
    quando de repente descobriu
    que não era dor o que ele sentia,
    era saudade de alguma coisa
    que ele sequer sabia se existia.

    Pobre daquele homem,
    que da sua saudade não sabia,
    só achava que doía!

A CADEIRA VAZIA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Em torno daquela mesa,
    cadeiras dispostas, vazias.
    Na sala, pessoas de todas as raças,
    inclusive as mestiças.
    O jantar servido
    e ninguém se habilitava,
    apesar da fome,
    parece que não entendiam.
    Na cabeceira da mesa
    uma corbelha de rosas vermelhas
    infestadas de espinhos.
    Do lado de cada prato um punhal fincado
    e uma taça cheia de sangue.

    Em torno daquela mesa
    cadeiras dispostas, vazias.
    Na sala, as pessoas tentavam se comunicar,
    cada uma em seu idioma
    e ninguém se entendia.
    Uma mais audaciosa resolveu sentar,
    serviu-se da comida,
    bebeu rios de sangue,
    arrotou seu bem estar.
    As outras levadas pela excitação,
    resolveram imitar.

    E beberam todo o Seu sangue
    e comeram toda a Sua carne,
    mas ainda assim não se entendiam,
    cada uma no seu idioma,
    cada uma com seu bem estar.

    Mas a cadeira posta à cabeceira da mesa
    permaneceu vazia,
    ninguém ousou se sentar!




    

segunda-feira, 26 de maio de 2014

FOI BEM ASSIM! - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Foi bem assim:
   você tocou a campainha,
   eu abri a porta,
   você entrou, tirou os sapatos,
   caminhou pela sala,
   deliciosamente descalça,
   deu aquele sorriso abusado,
   foi em direção ao meu quarto
   e sem a menor cerimônia
   em minha cama deitou.
   Eu, surpreso, parado na porta,
   escorado no batente,
   sem saber direito o que fazer,
   sem ter pernas pra correr,
   sem ter boca pra falar,
   tonto, não conseguia sair do lugar.

   Foi bem assim:
   você perguntou se eu queria,
   nem esperou resposta,
   e antes que pudesse dizer não,
   me fatiou em postas,
   me saboreou aos pedaços,
   tudo com muita delicadeza,
   e eu de olhos abertos gemia,
   misto de dor e prazer.

   Foi bem assim:
   anoitecia, você rapidamente se levantou,
   foi até a janela, acendeu um cigarro,
   nesse tempo você ainda fumava,
   perguntou se eu queria,
   disse meia dúzia de palavras tristonhas,
   e eu percebi que você não mais sorria,
   e eu senti que era a hora do adeus.

   Foi bem assim!
   e eu fiquei aqui tentando juntar os pedaços,
   emendar o que foi fatiado,
   tenho a certeza de que estão faltando partes,
   coisas de fundamental importância
   que você por pura maldade devorou.  

   Foi bem assim!



domingo, 25 de maio de 2014

PELE - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Ando tendo alguma dificuldade
    em trocar de pele ultimamente.
    Pele de casa, pelo do trabalho,
    pele de andar pelas ruas,
    pele de lidar com as pessoas que amo,
    pele de lidar com os estranhos...
    Diversos tipos de pele!
    Umas, ásperas, cascudas;
    outras, finas e delicadas:
    suave convívio com a ternura.

    Ando tendo alguma dificuldade
    em trocar de pele ultimamente,
    coisas da idade!
    Acho que vou providenciar armaduras,
    fica mais fácil tirar e botar!



sexta-feira, 23 de maio de 2014

QUANDO A SOLIDÃO ME BATE A PORTA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Acostumei-me a observar a dor
   numa taça de vinho tinto,
   na fumaça do meu cigarro,
   num amanhecer chuvoso de outono,
   num entardecer friorento de junho.
   Acostumei-me e já não me importo
   quando a solidão me bate a porta,
   eu prazerosamente a deixo entrar.

   Acostumei-me a observar o vento
   no passar lento das horas,
   na tempestade que me invade a tarde,
   na maresia que assola a orla,
   nos rochedos que sobrevivem ao tempo.
   Acostumei-me e já não me importo
   quando a nostalgia diz presente,
   eu amorosamente me deixo levar.

   Acostumei-me a observar a lágrima,
   o carinho, a ternura, a loucura,
   o desencontro e o desencanto,
   a samambaia exuberante da sala,
   as janelas permanentemente abertas,
   as portas que mantenho fechadas,
   as palavras que jorram descontroladas,
   poesia que eu sou capaz de escrever.

ROSA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Coisa mais estranha!
Luz do abajur há tempos queimada,
assim, acesa, do nada?
Janela do quarto
que eu teimo em deixar
permanentemente fechada,
hoje, abusadamente escancarada!
E este perfume?
Acho que estou ficando louco.

Na cozinha, pratos e talheres lavados
e nenhum resto de comida
que eu tenha esquecido
no forno ou em cima da mesa?
Na sala, móveis arrumados,
minha casa impecavelmente limpa,
cheiro de alecrim,
flores por todo o canto,
especialmente monsenhor branco.  
Estranho, muito estranho!

Na estante, meus livros e CDs
caprichosamente guardados,
cada um em seu lugar.
Uma samambaia chorona
pendurada no canto da sala...
Não consigo entender!

Pássaros atrevidos em minha janela;
parece primavera, mas é abril, outono!

Acho que é um sonho,
pois acabo de escutar sua voz...
Mas como?
Rosa! Você voltou, veio me buscar?


- Naldo! Permita-me este poema, quase um bilhete, pois você vai gostar de saber que a Rosa por aqui esteve, e eu não podia partir sem lhe contar. Garoto, obrigado por tudo! Onde quer que eu esteja nunca esquecerei o seu carinho e a sua bondade. Estou muito feliz, ela finalmente veio me buscar.

Um grande e forte abraço, do amigo Juvenal.

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Nem sempre uma passagem se mostra através de um espelho, muitas vezes o acesso nos é permitido por uma porta, um corredor, uma janela... Às vezes, até por uma folha de papel em branco, e nela, assim como por encanto, palavras vindas nem sei de onde, a nos revelar histórias, preciosas lições de amor e compreensão.

E assim penso ter acontecido, e ainda guardo o bilhete como prova, é fico aqui tentando retratar no papel aquela última manhã do velho amigo, e me arrisco a negar que toda a sua obseção e loucura pela perda de sua preciosa companheira o tenham levado a imaginar e até a construir todo aquele cenário, prefiro crer que realmente sua querida e saudosa mulher tenha vindo lhe buscar.

E esta é a história de Seu Juvenal e Dona Rosa, um casal que quando mais jovem eu tive o prazer de conhecer e com quem eu tive a honra de conviver. Eram muito felizes, tinham dois filhos, um deles, hoje, meu compadre, e a história de amor que vivenciaram foi dessas que só se vê num folhetim, construída que fora com muita luta, muito sofrimento e, principalmente, muita coragem, pois tiveram que romper com todos os laços para poderem ficar juntos. Eram amantíssimos, o carinho e a ternura eram constantes, a ponto de transformar a casa onde viviam num templo de paz e amor onde adorávamos ficar.

Só que um dia, assim, sem mais nem menos, aos 65 anos, Rosa morreu, num desses infartos fulminantes que sem o menor aviso lhe acometeu.

Daquele dia em diante, Seu Juvenal, homem forte e alegre, numa sombra triste e sem vida se transformou. Dava pena de ver! A casa que antes era um brilho, agora largada, móveis empoeirados, o jardim morto, e o velho, costumeiramente de muitas palavras, se transformara numa pessoa soturna e amargurada. Tomar banho, então, muitas vezes nem tomava! Entregou-se em vida, arrasado pela falta que Rosa lhe fazia.

Seus dois filhos, já casados, e seus netos, toda a semana, passavam por lá, limpavam tudo, até banho o obrigavam a tomar. Meu compadre sempre relutou em colocá-lo num asilo e o velho, já com 70 anos, não admitia a ideia de ter uma cuidadora ou algo assim, ou mesmo de ir morar com qualquer um deles, e assim nos dizia: um dia Rosa virá me buscar.

Todas as manhãs quando por lá passava em direção ao trabalho, eu levava pão fresco e um litro de leite. Janelas sempre fechadas e Seu Juvenal, nem café havia tomado. No meio daquela bagunça, ia eu para a cozinha, limpava o que podia e passava um café bem forte. Depois, sentávamos na sala, ainda que empoeirada, para um dedo de prosa que invariavelmente girava em torno do mesmo assunto: Rosa e a saudade que ele sentia.

Numa quarta-feira, estranhei as janelas abertas! Fui entrando na casa como sempre fazia, e confesso: com o coração apertado por conta de uma sensação estranha; parece que eu já sabia.

A cena foi dessas de arrepiar: a casa toda arrumada, a mesa posta, café recém-coado, pão, manteiga, queijo, um jarro de monsenhor branco sobre a mesa, até um pratinho de biscoitos de nata, tal qual Rosa fazia, e Seu Juvenal sentado em sua cadeira, de banho tomado, com um sorriso no rosto, olhos fechados, morto... E em suas mãos o precioso bilhete. Mais que depressa liguei para os filhos... Meu compadre a chorar dizia:

- Naldo, neste fim de semana eu não pude passar por aí, nem levar as netas para abraçá-lo!

Até hoje fico a pensar aqui com os meus botões: Rosa veio buscá-lo!


quarta-feira, 21 de maio de 2014

LETRA DE MÚSICA - PRISIONEIRO

    NALDOVELHO

    Fala meu Rio,
    revela o seu desassossego,
    chora a lágrima ardida
    que escorre da ferida
    que a bala deixou em seu corpo.

    Braços abertos, olhar tristonho,
    ouçam meu Cristo Redentor:
    estourem o cativeiro
    e libertem o prisioneiro.

    Quanto desgosto
    vejo em Seu rosto.
    Ouçam meu Cristo Redentor:
    tirem o dedo da ferida
    e libertem o padroeiro.

    Meu São Sebastião,
    Tá refém, tá prisioneiro.

terça-feira, 20 de maio de 2014

LETRA DE MÚSICA - NA MATA FECHADA

    NALDOVELHO

   Na mata fechada
   eu vi uma índia
   trazia oferendas
   pro seu Orixá

   Cabocla bonita
   te trouxe um presente
   colar só de penas
   pra te enfeitar

   A mata fechada
   tem lá seus segredos
   mas filho de Oxossi
   caminha sem medo.
   na linha de Umbanda
   sou flecha certeira
   não há como errar


LETRA DE MÚSICA - OMULÚ

   NALDOVELHO

   Atô-tô meu Pai!
   Venha nos valer,
   pelas trilhas que vamos seguir,
   nos protegei!

   Tua casa é luz no caminho,
   tens a cura das chagas, espinhos...

   Atô-tô! Meu pai Omulú!
   Venha nos valer!


LETRA DE MÚSICA - NANÃ BORUQUÊ

   NALDOVELHO

   Sua benção!
   Senhora das águas paradas,
   Nanã Boruquê.
   De joelhos teus filhos imploram,
   vem nos proteger.

   Saluba, Mãe Velha, sua benção,
   eu preciso levar,
   um pouco do barro sagrado
   pro Pai Oxalá.

   Saluba, Mãe Velha, sua bênção,
   vim lhe agradecer,
   a vida que hoje eu tenho,
   eu devo a você.

LETRA DE MÚSICA - CORAÇÃO ILUMINADO

    NALDOVELHO

   Trago uma cantiga diferente,
   luz da lua iluminou ondas do mar
   e a sereia apaixonada virou gente,
   tudo isto sob as bênçãos de Iemanjá.

   Ah Pai Oxalá!
   Iansã pede licença pra chegar
   e Mamãe Oxum, trouxe flores
   para enfeitar nosso gongá.

   Xangô, Oxossi, Ogum!
   Protegei e iluminai filhos de fé.

   Trago uma cantiga de presente,
   coração iluminado e muito Axé!.

LETRA DE MÚSICA - PRETA VELHA

    NALDOVELHO

    Preta velha sabe das rezas, sinhá,
    desmancha qualquer feitiço.
    Preta velha sabe das rezas, sinhá,
    desmancha qualquer feitiço.
    Se o menino tá enjoado, sinhá,
    logo-logo ela acaba com isto.
    Se o menino tá enjoado, sinhá,
    logo-logo ela acaba com isto.

    Olha as ervas da preta velha, sinhá,
    colhidas lá no roçado.
    Olha as ervas da preta velha, sinhá,
    colhidas lá no roçado.
    Se ela tá de ventre virado, sinhá,
    a velha tem a cura pra isto.
    Se ela tá de ventre virado, sinhá,
    a velha tem a cura pra isto.

    Preta velha veio de Aruanda, sinhá,
    na luz do Senhor Jesus Cristo.
    Preta velha veio de Aruanda, sinhá,
    na luz do Senhor Jesus Cristo.
    ela sabe das ervas, das rezas, sinhá,
    e desmancha qualquer feitiço.