segunda-feira, 21 de abril de 2014

UM TRIBUTO A HILDA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS




 NALDOVELHO
  
Lembro bem da menina que de sua janela acenava toda a vez que eu passava. Cabelos pretos escorridos, sorriso alegre como o dia, olhos verdes, cristalinos, águas claras de nascente.

Certa feita, parei para conversar e dali em diante todos os dias assim o fazia. Pobre menina sorridente que do seu quarto não saia, que de sua cama, sequer levantava, mas ainda assim sorria e dizia, ao seu jeito, ser feliz.

Pensei em pedir pra namorar! Mas Vó Miudinha então disse: filho, ela está só de passagem, anjos não vêm aqui pra namorar, logo-logo, ela vai embora!

E eu pensava: Vovó não sabe de nada, anjos de verdade têm asas! Qualquer dia ela sai daquele quarto e vem pra rua brincar.

Mas sair ela não podia, parecia não ter pernas e se as tinha para nada serviam.

Foi num dia triste, princípio de junho, à tardinha eu retornava da escola e os meninos em frente da sua casa diziam que ela não mais iria voltar. Foi aí que percebi o quanto Vó Miudinha era sabida e que nem sempre anjos têm asas, e que às vezes nem tem pernas! Será como que a minha vó sabia?

Ao entrar em casa fui logo perguntando... E ela num misto de tristeza e alegria, assim falou: e só olhar nos olhos meu filho, um dia você aprende a identificar aqueles que por aqui passam, só para despertar nossa capacidade de amar. 

Não sei o porquê, mas até hoje quando caminho por aquela rua, em frente daquela casa, tenho a impressão de vê-la na calçada, até escuto a sua voz me chamando para brincar.


NOS DIAS DE HOJE - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Um homem carrega suas glórias por ruas sombrias e lamacentas, habituado a deturpar a história, deita e adormece abraçado a um triste fim que ignora. Um outro chora em seu quarto pelos outonos desperdiçados, faz tempo, pelos caminhos desprezados por dentro e na esperança de ser libertado, se ajoelha, se martiriza e ora.

Uma criança padece faminta na escadaria de acesso a um templo e a sociedade a lhe oferecer como esmola a fumaça de um cachimbo nojento e o excremento numa lata de cola. Outra criança aprisionada implora por um carinho, uma palavra, um alento, olha para as ruas da janela do seu quarto, não sabe das dores que existem lá fora, não sabe que o mundo embrutece e devora.

Uma mulher escreve uma carta que diz do amor de outrora, do desejo que lhe arde por dentro e das farpas espetadas em seu corpo... Não consegue superar a perda e o desgosto. Outra mulher amamenta seu filho, busca um alimento no quintal de sua casa, diz que Deus escreveu seu futuro numa árvore que um homem malvado pela lenha derrubou e lamenta a pouca poesia que lhe restou.

Um religioso vocifera nervoso, promete o inferno a quem pense diferente e que seu deus lhe deu o dom de curar toda a dor, usa a oração como se fosse uma algema e desconhece o poder da palavra amor. Outro negocia e absolve pecados, diz que aqueles que quiserem o milagre terão que pagar um dízimo a cada hora, mercador que é das benesses divinas edifica templos mal cheirosos, latrinas.

E o povo coitado, envolto nessas teias, não consegue ver a armadilha, o engodo e cada dia que passa mais se aprisiona e sofre, não sabe que o amor abre portas, caminhos, não consegue escrever o seu próprio destino.

Abraçado a sua dor Jesus chora e implora: perdoa-os Pai eles não sabem o que fazem!

DA JANELA DO MEU QUARTO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Da janela do meu quarto eu vejo muitas coisas.  Vejo na madrugada o sol que surge e descortina um novo dia, às vezes mal humorado, por conta de um verão que arde feito um forno danado de quente e que sem mais nem menos torra a paciência da gente. Outras vezes, bem humorado, em manhãs tão belas de primavera, outono ou inverno, suaves e tão plenas de luz. Manhãs de chuva não, nem de tempo, apenas, nublado, pois costumo dormir até tarde, abraçado às minhas cobertas, embriagado pelo cheiro que a terra molhada exala, e por conta da preguiça perco a hora e nada vejo.

Da janela do meu quarto eu vejo as pessoas em busca de suas vidas, a semear com o suor dos seus corpos, a colher seus frutos passados, a aprender com o certo e o errado na tentativa de construir um amanhã.  Vejo o chefe de família, cansado, mal dormido, semblante um tanto ou quanto preocupado pelos compromissos da vida, quantas dívidas não pagas, tempos difíceis de viver. Tem sempre alguém querendo cobrar!  

Vejo o homem bem humorado por conta do seu sucesso, satisfeito por ter realizado algum plano de vida. Vejo um casal de jovens enamorados, quantos sonhos a serem concretizados, numa mistura de paixão e esperança... Espero que a vida se mostre generosa, poupando-os dos desencontros e fracassos, tão comuns nesses nossos dias. Tomara Deus que o encanto, nunca se permita à amargura e mesmo que haja a partida que esta deixe poucas feridas. A vida ensina como cicatrizar os cortes.

Da janela do meu quarto vejo um casal já descasado, divergindo sobre o quanto, em litígio sobre o como. Quanto ódio em seus olhos e as crianças tão precoces, objetos de partilha, quanta dor em seus semblantes, não conseguem entender. Vejo também e ainda bem, o casal bem resolvido, de muitos anos vividos em perfeita comunhão, cabelos brancos, já idosos, num sereno aconchego, próprio daqueles que souberam conciliar, que souberam compreender que o desgaste foi feito apenas para nos lapidar.

Da janela do meu quarto eu vejo muitas coisas: o ambulante, o traficante, o mendigo, o desempregado, o viciado, o pivete, a prostituta, o bêbado, o louco varrido; toda uma legião de excluídos, tentando sobreviver por conta de um drama que nós mesmos ajudamos a escrever. Vejo a cada instante um assalto, quantos gritos, muitos tiros, o conflito. Vejo a favela e as nossas mazelas, nossas fraquezas e delitos.  Tantas coisas devíamos ter feito e a forte impressão de que não há nada a se fazer. É como se fosse um filme...  Acho que já é hora de entendermos, filmaram a vida da gente e não deu nem para perceber.

Da janela do meu quarto eu vejo o cair da tarde, brisa suave e tranquila a arejar nossas mentes, e as pessoas continuam a passar em busca de um amanhã. Vejo a nuvem cinzenta e estranha, os cachorros que uivam assustados, vejo a lágrima abundante, dor de partida de um ente querido... Acho que a morte sequestrou mais alguém!

Anoitece e o sol se esconde, as luzes se acendem e a lua, de repente, reclama toda a atenção para si.  Um café reanima, acendo um cigarro, contado, racionado, e me vejo também na calçada a buscar alguma coisa perdida, pois lá se vão sessenta e tantos anos de vida e eu nem sei se foi bem vivida, ou se ela passou e eu não vi!

Da janela do meu quarto eu vejo muitas coisas.  Vejo o casal de amantes, sorrateiros, audaciosos, protegidos pela lua, alcoviteira das mais famosas, cada um preso ao seu laço, não conseguem se desvencilhar, não conseguem se despedir. 

Vejo a mulher solitária abraçada à sua saudade, televisão ligada, não importa em qual programa, é só para afastar o silêncio, é só para amansar o tempo, enquanto o sono não chega, alguns comprimidos e dormir.  


Vejo o escritor em delírios, a viajar em algum novo tema, tomara que seja um romance... Drama não! Já chegam os que por aqui existem. Quem sabe um belo poema que fale de pele morena, de aconchego, de coxas molhadas, que acabe em beijo na boca e de preferência com nenhuma roupa. De corpos nus é bem melhor!

Da janela do meu quarto eu percebo que a noite avança; alguém me chama para mais uma dança e o som de uma música suave brota da janela ao lado, onde um piano com muito capricho descola um “blues”, quase um clássico. Olho e logo a reconheço, companheira de tantas noitadas, a quem chamo de anjo travesso. O seu nome é insônia insistente que há tempos insiste em tentar me seduzir.

Da janela do meu quarto eu percebo a cidade em silêncio, vento frio, já é madrugada, daqui a pouco amanhece e pronto!  Céu de chuva, mudança de tempo, logo mais acordar, bem mais tarde, pois o poeta precisa dormir.

NOTURNO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

 NALDOVELHO

Foi sem o menor aviso!  De repente a porta se abriu suave e lentamente e ela então invadiu-me o quarto com ares de quem sabia o que buscar, e principalmente onde encontrar. Eu nada disse! Também nem podia, as palavras soterradas diante daquela imagem tão bela e ao mesmo tempo tão estranha. Um forte pressentimento de que algo estaria por acontecer, algo que eu ainda não entendia, mas que francamente, não tinha a menor vontade de evitar.

Perfume, discreto, delicioso e envolvente, feito embriaguez disfarçada, e inclementemente desejada... Foi assim que aconteceu! Algumas palavras, doces palavras, um olhar penetrante, e uma vez mais, eu nada conseguia dizer, nada me ocorria e o silêncio era naquele instante a atitude mais sensata diante daquela atmosfera de mistério e prazer.

Percebi num relance que ela já se punha descalça a caminhar de um lado para o outro do quarto, como se estivesse a me estudar e a premeditar seus próximos passos. Fechou mal fechada a cortina, apagou as luzes, deixou apenas e tão somente ligado, um pequeno abajur de sedutora penumbra, que junto com a luz da lua que penetrava pela cortina entreaberta, me permitiam a visão daquele momento raro, precioso e sagrado. 

Uma vez mais em silêncio, só me restou continuar a observar, a saborear e a me embriagar até não mais poder. Movimentos provocantes num jogo de luz e sombra a enaltecer seu corpo e uma música suave a brotar das paredes, do teto, do chão, de todo o quarto. Metais em surdina, bem temperados, num blues impiedoso e visceralmente mal intencionado.

Primeiro a alcinha de um vestido meio transparente, generosamente decotado; depois a outra... E meio assim como por querer ela se aproximou. Olhar ainda mais envolvente, o bico do seio esquerdo a se mostrar contundente e a desafiar-me o silêncio. O outro seio, meio assim escondido, porém não menos ousado, a impedir a queda do vestido, mas que num ligeiro contorcer de ombros revelou sua intenção.

Ela dançava em minha frente, e eu cada vez mais excitado, com minhas mãos trêmulas busquei-lhe o corpo. Já não mais existiam roupas, apenas uma pequena peça, última fronteira, última barreira... Meu corpo arrepiado ao perceber aqueles pelos deliciosamente anunciados. Minhas mãos incontidas, lentamente em suas coxas, em seu colo. Um conveniente lacinho que se desfez com carinho e revelou por inteiro o caminho encantado e ansiosamente desejado. Beijei-lhe os lábios, ambos, com muito amor e cuidado, beijos longos e molhados.

Percorri com a língua, todas as dobras e lados, rocei com os dentes o bico do seio esquerdo, salientemente excitado.  Já não mais reconhecia as minhas pernas, embaralhadas com aquelas outras pernas, a me sentir assim como uma muralha, que fora, facilmente ultrapassada... Derrotado eu tombei, entregue a tamanha sanha.         
           
Mantive apenas os olhos entreabertos, não poderia perder tal cena, ver aquela mulher a cavalgar abusada em meu corpo, até chegarmos a um longo e demorado orgasmo, que deixou fortemente impregnado em meus poros aquele cheiro e em minha pele a sensação do roçar de corpos, quentes, molhados, melados, coisa que eu nunca mais vou esquecer.

Ainda me lembro bem!  Lá fora a noite ia alta, abri as cortinas e percebi que a lua havia se posto, tal qual sentinela em frente a minha janela. Olhei de novo para a cama para saborear mais uma vez aquela imagem, a espera de encontrá-la adormecida, abraçada em meus lençóis...

Para o meu sofrimento e espanto, lá não havia mais ninguém. Não havia mulher alguma em meu quarto. Eu estava só, irremediavelmente só! Eu e minha loucura, eu e o meu desejo de que aquele ser, misto de feitiço e miragem, voltasse e dissesse: te amo! Nada, não havia nada, nada aconteceu. Foi tudo um pesadelo, ou um sonho, sei lá!

Talvez o nome dela seja insônia, talvez seja solidão, quem sabe ela se chame saudade de alguém que eu nem sei se conheço ou se um dia vou conhecer.


INSÔNIA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

Zero hora na cidade e a fumaça de um cigarro põe as coisas no lugar. A janela entreaberta faz com que o frio desta noite me envolva e acaricie, e traz vontade de um conhaque levemente aquecido, e Chet Baker num sussurro diz que a saudade é uma mortalha que os poetas teimam em usar.

A porta do quarto, sem o menor aviso, dá passagem ao seu vulto. Se fechada ou aberta, não importa! É névoa fina, é assombro, e no limite da loucura os contornos do seu corpo deixam um cheiro de alfazema que toma conta do lugar. Num sorriso ensimesmado percebo que a danada da nostalgia dita normas, causa arrepios, traz você para mais uma dança, minha insônia, meu delírio, poema escrito por horas e horas de puro desassossego, cheiro de terra molhada, vontade de mergulhar neste sonho ou quem sabe nesta miragem e nunca mais acordar.

Mas a madrugada, sem alarde, chega às ruas da cidade, percebe o meu martírio, e diz que já é hora, que mesmo que seja tarde, ainda é cedo, e que a luz do sol lhe contou um monte de segredos, entre eles que nesta casa assobradada mora um poeta, que teima em dormir com a janela aberta, que é viciado em bebidas que causem gasturas e que gosta de ficar abraçado à insônia que a dor de um amor perdido costuma provocar. Vai até a minha cozinha, prepara um café bem forte, convida renda portuguesa e azaleia, convoca para o parapeito da janela um bando de pássaros que fazem uma algazarra danada e espantam aquela névoa sombria e atraem o poeta para apreciar o nascer de um novo dia, saborear um café quente e encorpado, quem sabe até uma boa cigarrilha cubana, pois a esta hora os fantasma dormem a sono solto e é hora de recomeçar.                 



ANOITECER - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

E o dia passa rapidamente nas teclas do meu computador. Palavras, crônicas, prosas, pequenos contos e em sua maioria, poemas. E tudo isto banhado com boa música, pelo menos eu acho! Quanto aos poemas, nem sei se são bons, mas isto cabe a vocês.

Já perto das seis de um entardecer friorento, fecho os olhos e recordo de Julio Louzada em sua oração. Vovó Alice concentrada, todos reunidos em volta de uma mesa de madeira redonda forrada de linho branco, uma jarra de cristal com água até a boca, pequenos cálices, lisos, também cristalinos, toda uma aura de amor e suavidade, Ave Maria cheia de graça e eu a pedir perdão pelos meus pobres e pequenos pecados, a pedir a cura do vizinho do lado... Inevitável desviar o olhar para as coxas da priminha! Porra, pequei outra vez, ainda bem que vovó nem notou. Bebo a água compenetrado e me sinto absolvido, saio pelas ruas a dobrar todas as esquinas, a pular cercas e muros, a deitar em camas erradas, a beber muita aguardente, e ao tropeçar num enorme baseado quase perco o rumo, mas você se aproximou, me deu a mão e me trouxe de volta. Pena que assim de repente, você teve que ir embora e nunca mais voltou. Abro os olhos e retorno aos dias de hoje, sessenta e tantos anos, povoados de desenganos, e me vejo orando de novo, pedindo absolvição pelos pecados... Só eu e Maria sabemos o quanto eu errei!

Na igreja lá perto de casa, já não se toca mais os sinos para a missa das seis e o autofalante jaz emudecido, dizem que por conta dos traficantes que odeiam a imagem da Santa e não gostam de música sacra, preferem o funk. Muita coisa mudou, hoje até chutam a imagem de Maria, e a vizinha do lado afirma que o padre prevarica com uma sua comadre, e pega dinheiro da sacristia para dar para as menininhas da comunidade que existe lá por perto, sabe-se lá porque paga... Esta mulher tem uma língua, Deus meu que horror! Ainda bem que não são todos, ainda existem aqueles... Assim como nem todos chutam a Santa e existem comunidades, pelo que dizem, pacificadas, só que do outro lado da “poça d’água”, coisa feita para a Copa do Mundo, e que deve durar até a Olimpíada, depois sei de gente que afirma, piora tudo outra vez.

Já são quase oito horas, agora chove de novo, e ao longe escuto estampidos, vários, disparos de armas pesadas, afinal eu moro do lado de cá, mas as autoridades negam, dizem que isto não existe e que a cidade está uma beleza... Será que eu mudei para a Síria e não sei? Eu só sei que hoje eu sinto medo das minhas ruas desertas, de dobrar as muitas esquinas, do sereno da madrugada, pois estas coisas vêm sempre acompanhadas de muita violência e opressão.

Agora, já passam das dez. As ruas estão sombrias, molhadas e silenciosas. Da janela do meu quarto eu percebo sombras por trás de muitas outras janelas. Meu povo está sitiado, enclausurado em suas casas, ou no alto dos edifícios, sendo devorado pelas televisões, escravizado as novelas, ou então ao computador, em conversas com alguém que mora longe de qualquer possibilidade e que provavelmente também solitariamente, tem medo de muitas coisas, fica remoendo suas lembranças, lamentando escolhas erradas, talvez por isto, a profusão de poetas, gente que não tem nada mais o que fazer e morre de medo de morrer.

sábado, 19 de abril de 2014

LUGAR NENHUM PRA CHEGAR - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


NALDOVELHO

No cais um navio chegou faz um tempo. A campainha da porta há tempos não toca e o telefone quando toca, é engano! Nas esquinas, muita pressa, poucos sonhos, muito medo, pouca conversa e o navio no cais, ancorado, quieto, em silêncio.

Da janela percebo o outono, mês de março, abandono, pássaros em debandada, prenúncio de chuva, vento que varre a cidade, trânsito engarrafado, e o sinal demora, quando fechado; ônibus lotado! E aqui em meu quarto: apreensão! No cais o navio, ainda ancorado.

Ligo a televisão e as notícias que chegam já não causam espanto, mas ainda assim doem! Crianças marginalizadas, prostituídas, de arma em punho, soldados indigentes de uma guerra sem escolha, sete corpos encontrados e quatro deles nem tinham quinze anos! E o navio no cais, ancorado, sem sinal de partida, nada que explique a demora.

Aqui em meu peito a dor de saber o quanto somos coniventes, o quanto somos responsáveis por ação ou omissão, por termos permitido que nos pusessem à deriva, por termos aceitado a merda desse navio ancorado em nossas vidas, e ainda assim permanecemos em silêncio, nada que justifique tanta passividade. Resultado: nenhuma novidade no cais!

Anoitece, agora chove, e dos longes mais notícias. Parece que as coisas por lá, também, não andam nada boas. Guerra, fome, desrespeito a natureza, risco de epidemia cada vez mais presente e as pessoas ancoradas, já tem um bom tempo, em silêncio.

Pego um livro de poesia e leio a dor de uma partida, o poeta se faz de louco enclausurado em seu quarto, nostalgia sem tamanho, mazelas de um coração. Quanta beleza ainda encontro nas palavras de um tolo, de um bardo sem consolo que se alimenta de ilusão.

No cais a multidão se aglomera, ora a Deus por um sinal, pede que o navio parta bem depressa. Mas o navio permanece ancorado, impossibilitado de navegar, já faz tanto tempo, sem comando, sem rumo, lugar nenhum pra chegar. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

LEMBRA DE MIM? - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Uma pitada de loucura,
    um sorriso sem juízo,
    um cálice de ternura,
    se for do gosto,
    outro de absinto.
    A vontade de caminhar
    do lado certo da estrada,
    ainda que de vez em quando
    eu me veja aos tropeços,
    caminhando do lado errado.
    Dúzia e meia de rosas,
    todas sem espinhos,
    pois a possibilidade da dor
    ainda é um tormento,
    e a pele é muita fina
    qualquer coisa faz sangrar.

    Um monte de palavras
    misturadas, a gosto,
    em cima de uma mesa,
    papel em badeja:
    amor, solidão, desejo,
    carinho, saudade, um beijo.
    A janela entreaberta,
    luz do abajur acesa,
    vento frio varrendo a cidade,
    mês de abril, outono.
    Na vitrola, Dori e a Nana,
    num velho disco de vinil.
    Nada mais adequado:
    lembra de mim?

quinta-feira, 17 de abril de 2014

MEU PRANTO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Meu pranto às vezes é rio
    que me inunda por dentro,
    é respiração afrontada
    que denuncia o cansaço,
    é olhar tristonho
    que sente falta dos seus braços,
    é a insônia insistente
    que traz aridez pra dentro do quarto.

    Meu pranto às vezes é chuva
    que molha meu corpo sedento,
    é tarde friorenta de inverno,
    é um amontoado de significados:
    nostalgia, saudade, ternura;
    é o carinho de um sorriso ofertado
    na lembrança de um tempo
    que ficou para traz.

    Meu pranto às vezes é acido
    e deixa cicatrizes em meu rosto,
    evidência do meu desconforto,
    das muitas colheitas erradas,
    e às vezes parece faltar um pedaço,
    meus olhos já não enxergam tão bem,
    e o meu coração bate desanimado
    pela falta que você me faz.

    Meu pranto quase sempre é poema,
    palavras destiladas, demência,
    veneno correndo nas veias,
    e em minha bagagem, urgências,
    contra baixo, trompete e piano,
    e o meu ouvido a confundir as coisas,
    às vezes meu pranto parece um blues,
    hoje por exemplo o que eu escuto é jazz.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

MINHA BUSCA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Eu busco a palavra libertadora
    que abra cadeados e tramelas,
    derrube portas e janelas
    e permita que sol nasça
    dentro do coração dos homens,
    sem que no entanto se destrua,
    a sensibilidade da lua que mora
    dentro de cada um de nós.

    Eu busco a ternura de um poema
    que nos permita amar as pessoas,
    não importa a cor que elas tenham,
    o credo que elas professam,
    nem o tipo do amor que elas ofereçam,
    pois eu te digo meu irmão,
    que embora isto te doa,
    só tuas obras te trarão a salvação.

    Eu busco o abraço apertado,
    mãos que distribuam sementes,
    sorrisos para serem ofertados,
    a caridade silenciosa dos santos,
    pois só é santo quem a todos acolhe,
    sem cobrar dos seus irmãos
    o dízimo imperioso como troca,
    nem a paga por meio das orações.

    Eu busco portas de templos abertas,
    crianças brincando pelas sacristias,
    a tolerância a semear novos dias,
    a possibilidade de espiar meus erros,
    o respeito a quem pense diferente,
    pois o livre arbítrio é o maior presente
    que Deus pode nos ofertar,
    pois só através dos nossos descaminhos
    conseguiremos aprender e crescer
    a ponto de sermos dignos da Criação.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

POESIA DEMAIS ENLOUQUECE - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Um olhar, um sorriso, o assombro,
    a fragilidade de uma chama
    que um vento perverso atiça,
    a fumaça do cigarro, ainda me lembro:
    anoitece , primavera, novembro,
    uma xícara de café no bar da esquina,
    que a mão trêmula do poeta derrama,
    o olhar provocante da menina,
    a tênue linha que esticada exclama,
    a possibilidade da água
    que o homem sedento reclama!

    Naquele instante tocava um bolero.
    Desliga esta música, eu reclamo!
    Ou então coloca algo que preste,
    meus ouvidos já não reagem como antes,
    se continuar com esta música eu choro,
    ou então saio pelas ruas
    aos trancos e barrancos, aos tombos...
    Melhor nem olhar para trás!
    Poesia demais enlouquece,
    já faz muito tempo, não adianta mentir.

    E o trem que continua atrasado,
    e a ternura deixada de lado,
    melhor ir pra casa dormir!


quinta-feira, 10 de abril de 2014

OLHOS DE PERCEBER - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    
    NALDOVELHO

    Às vezes, eu tenho olhos de perceber,
    coisas que normalmente
    meus olhos não conseguem ver.
    E então, levo cada susto danado,
    ao perceber que do teu corpo
    brota certa luminescência,
    que vai do amarelo pálido,
    a um deslumbrante tom de dourado,
    e que nas noites de lua cheia,
    teus cabelos brilham como prateados,
    coisa que ninguém mais pode ver.
    E aí, percebo lábios de beijar,
    língua e dentes de devorar,
    seios de aconchego e loucura,
    coxas de me aprisionar,
    pele branca e orvalhada,
    povoada de sardas,
    cada uma em seu devido lugar.
    E se perguntar sei de cor,
    onde cada uma delas mora
    e quais as costumam me provocar.

    Às vezes eu tenho olhos de perceber,
    coisas que normalmente
    meus olhos não podem ver.
    E aí, poeta que sou dos meus desenganos,
    dano de sentir saudades
    das noites molhadas de outono,
    da mulher enluarada dos meus sonhos,
    que mora num mundo distante,
    onde meus olhos descrentes
    quando olham não conseguem ver,
    mas que em vigília ou delírio,
    às vezes conseguem perceber.

    Às vezes eu tenho a impressão
    que dia desses ainda vou te conhecer!


quarta-feira, 9 de abril de 2014

NO LADO ESCURO DA LUA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Todo mundo tem uma casa,
    nem que seja só uma casca,
    uma sombra de marquise,
    um banco de jardim,
    uma proteção de viaduto,
    um pedacinho de rua, 
    uma esquina, não importa!
    pode ser até um beco sombrio,
    um lugar que ele chame de seu.
    Eu por exemplo,
    tenho uma pequena
    e sossegada casinha
    no lado escuro da lua
    e é lá que eu me refugio
    toda a vez que sinto saudade
    de alguma coisa ou de alguém.
    E aí, mergulho no silêncio,
    e só volto para o mundo das pessoas
    quando desencravo um poema
    que cure a nostalgia que arde,
    e me restabeleça a vontade
    de viver e caminhar por lugares
    que não são os meus.

    Outro dia uma pessoa
    me ofereceu um cantinho,
    segundo ela, tranquilo e aconchegante,
    uma reentrância num rochedo
    lá pros lados do fim do mundo.
    Eu hem! Quero não!
    Oferta estranha...
    Prefiro o lado escuro da lua,
    pois já me disseram
    que quem vai pro fim do mundo
    nunca mais volta de lá.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

PARA QUEM AMA UM POETA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Se você disser
    que eu choro poemas,
    eu direi apenas,
    que são palavras
    encharcadas de orvalho
    que minhas mãos
    teimam em macerar.
    E  direi também,
    que sofro faz tempo
    e que um poema é pouco
    para mostrar a dor
    que eu preciso exorcizar

    Se você disser
    que ainda assim me ama,
    eu direi então:
    pobre de quem ama um poeta,
    que nem sabe direito
    por quê chora,
    e nem quantos poemas
    serão precisos
    para que suas feridas
    possam cicatrizar.