quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

FARPAS (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Espinhos em meu corpo, feridas,
   palavras despropositadas,
   histórias interrompidas,
   coisas que permaneceram latentes.

   Tentei semear versos partidos,
   ungidos pelo adeus, sofridos,
   tentei alquimizar energias
   confusas, disformes, difusas.

   Soçobraram dor e cansaço
   em sentimentos controversos
   num coração que bate descrente
   e em algumas poucas sementes.

   Se a lágrima não chorada
   cristalizou-se dentro de mim,
   quantos poemas serão precisos
   para dissolver esta dor?

CIO MOLHADO DE LUAR (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   É olho d’água, uma nascente,
   é ferro em brasa, é água ardente,
   minha pele toda a queimar.

   E a lua brota em tom crescente,
   e eu bebo o veneno do teu corpo,
   e a água jorra em vertentes,
   e eu me embriago em teu olhar.

   Sou bicho louco, bem demente,
   sou caça presa entre os dentes,
   cio molhado de luar.

DESABAFO! (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Vou dizer uma coisa
   que só a você diz respeito:
   aquele apartamento espaçoso
   que existia, lado esquerdo peito,
   hoje, não passa de um conjugado,
   sombrio, vazio e apertado.
   Portas e janelas fechadas,
   cama faz tempo desarrumada;
   pelo chão, um monte de papeis rabiscados,
   palavras desencontradas,
   tentativas frustradas de exorcizar minha dor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

LUA NEGRA (LETRA DE MÚSICA)


    NALDOVELHO

   É como se não houvesse mais estrelas
   e a lua resolvesse não brilhar.
   É como se eu tivesse a certeza,
   melhor amanhecer noutro lugar.

   Lua negra, noite escura
   no silêncio do meu quarto,
   os teus braços, não te encontro
   e o teu cheiro pelo ar.

   Lua negra é segredo
   e o teu nome é desterro,
   um poema, só saudades,
   já nem sei onde estás.

   Preciso então trilhar outro caminho,
   melhor amanhecer e despertar,
   buscar traçar com as mãos o meu destino,
   buscar bem longe a luz de outro luar.

   Lua negra, és segredo
   e o teu nome é saudade.
   Lua negra, és poema,
   já nem sei onde estás.

BATUQUE TINHOSO (LETRA DE MÚSICA)

    NALDOVELHO

   É tarde da noite quase madrugada,
   um samba tinhoso acende a moçada,
   altera o compasso do meu coração.
   Violão desafia, cavaquinho arrepia,
   tantã e repique,
   marcação que se explique
   como um samba gostoso
   afasta o cansaço e não deixa dormir.
   
   Violão desafia, cavaquinho arrepia,
   tantã e repique,
   marcação que se explique
   como um samba gostoso
   afasta o cansaço e não deixa dormir.

   E o samba rolando, já é madrugada,
   batuque tinhoso sacode a moçada,
   não deixa por menos, não faz concessão.
   Na beira do dia o sol anuncia
   que a lua encantada e enamorada,
   provou do veneno e toda assanhada,
   não quer mais partir.

   Na beira do dia o sol anuncia
   que a lua encantada e enamorada,
   provou do veneno e toda assanhada,
   não quer mais partir.

ANJO VADIO (ARQUIVO)


     NALDOVELHO

    Já faz algum tempo
    que meu anjo vadio,
    não anda na noite
    fazendo poesia,
    não rompe o dia
    bebendo aguardente,
    jogando bilhar.

    Já faz algum tempo
    que meu anjo indecente
    não brinca de amante,
    não vive um romance,
    não ama escondido,
    nem dorme ao relento
    à luz do luar.

    Já faz algum tempo,
    nem lembro o gosto
    do orvalho da noite
    e nem o endereço
    daquele carinho...
    Já faz algum tempo,
    que o anjo que tenho
    de asas quebradas
    não pode voar.

NOITES INSONES (PROSA POÉTICA)


NALDOVELHO

É lá pelas tantas, quase madrugada, quando insone eu viajo a procura do teu colo e abusado invado sorrateiramente o teu quarto, e ao te ver adormecida ao travesseiro abraçada, sinto o meu corpo explodir de prazer ao ver teu corpo, atrevido em seus contornos, de tocaia a me espreitar sob fino lençol. Respiração macia, qual fruta em doce delírio que eu saboreio sempre e sempre com redobrado prazer.

E a cada movimento teu eu transpiro o meu doce tormento e desejo, e fico assim como embevecido por tanta e tamanha delicadeza, que procuro me mover em silencioso cio para ser lento e preciso e não te acordar.

Chego mais perto indecente, deito ao teu lado e te toco tão suave e intensamente que então pareces sonhar. Lentamente afasto o lençol, desnudo o teu peito tão branco e fico feito criança a acariciar-te as sardas, e num leve roçar de dedos, atrevidos no bico do seio, faço-te ofegante, e tuas coxas, num roçar instigante, em minhas mãos que te exploram sedentas, e permeiam teus lábios molhados em busca do teu cheiro e seiva que brotam de um jeito abundante por entre as pernas, já agora, entrelaçadas às minhas trêmulas pernas, minha paixão e martírio.

És água, és fonte, és rio, a brotar em desgovernado cio e teu corpo suado em meu corpo, minha boca a sugar teus seios, minha língua a percorrer segredos, recantos, dobras e fendas e a te levar a um longo e prazeroso orgasmo, só pra escutar-te os gritos, gemidos, pois este é o meu maior prazer.

Não demora amanhece lá fora e a noite já não será mais um abrigo. Eu me levanto e te vejo enroscada, o lençol todo molhado... Dormes um sonho inocente e ainda bem que sabes meu nome, que é para que eu possa te escutar, quando insone, sussurrares em completo delírio, a pedir que eu volte depressa para saciar tua sede e me alimentar do teu corpo, que já tem minhas marcas e nada mais há o que possas fazer.

MEUS RASTROS (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Rastros, riscos, restos,
   vestígios dos meus passos,
   sentimentos aprisionados,
   paixões disfarçadas em versos.

   Alguém já disse que
   as penas estão por dentro!
   E os meus voos, os faço em sonhos,
   muitas vezes sem nenhum cabimento.

   Coisas do sentimento,
   de quem nunca ousou
   se mostrar por inteiro,
   apenas em lágrimas disfarçadas,
   camufladas em poemas.

   Quantas coisas guardadas!
   Amor, paixão, nostalgia,
   imagens que teimam
   em permanecer arredias,
   cicatrizes escondidas
   que queimam, reclamam,
   coisas não paridas,
   outras mal nascidas.

   Coisas próprias de um poeta
   que tenta fazer do passado
   o norte para o seu rumo,
   das lembranças, que ainda vivem,
   o bálsamo para as suas feridas
   e dos seus pobres poemas
   o inventário de uma vida. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

MEU LAR (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Solta as amarras,
   embarcação se põe à deriva
   ao sabor do vento, ao sabor das marés,
   em desgarrada viagem
   na busca da solidão dos aflitos,
   que por mais que eu negue é o meu rito,
   minha missão, meu ato de fé.

   Solta as amarras,
   embarcação se expõe ao perigo
   da tempestade inclemente,
   das noites trilhadas em desalinho,
   das madrugadas vividas em desatino
   por ruas, por becos, vielas,
   por camas, por dramas, esperas,
   desencontros, doloridas escolhas,
   e ao amanhecer como se fosse um insano,
   procura encontrar na vida o seu norte,
   peregrino, que é, de sua redenção.

   Solto das amarras,
   posso navegar nos distantes,
   buscar a luz em ermos quadrantes,
   pois é minha sina acreditar
   que bem depois do horizonte
   existe uma ilha onde a inquietude
   não se fará mais presente,
   pois sabedor dos caminhos
   terei encontrado meu lar.

CAMAFEU (PROSA POÉTICA)



Face marcada pela dança do tempo, pele queimada pelo sol e pelo vento, já não tão ereto, mãos grossas calejadas, olhar de quem por muito navegou, muito viu e nunca se assombrou.

Era assim aquele homem, bem próximo aos sessenta, na beira do mar a tecer suas teias, sua rede, numa grande e interminável mandala.

Cigarro de palha no canto da boca, quase sempre apagado, vez por outra um gole de aguardente, saliva grossa, já quase sem dentes, velho camafeu onde a vida gravou tantas histórias, até por isso, um bom prosador!

Fala macia, maneirosa, sempre generosa, a nos mostrar velhas cantigas sobre a força dos ventos, o rumo das águas, os encantos do mar.

Uma vez nos contou sobre uma sereia, uma linda mulher que morava num rochedo bem próximo à arrebentação. Disse que quando a viu, se aproximou, se enfeitiçou com o seu canto e por paixão se escravizou. Porém por obediência ao mar ela o libertou.

Quando contava esta história, seus olhos ficavam marejados de lágrimas. Velho camafeu sentia saudade!

O seu nome era Alceu, Alceu que um dia, nem faz muito tempo, num fim de tarde chuvoso, com mar revolto de açoite, numa mudança dos ventos, virou uma lembrança querida, água do mar carregou.

E daquele dia em diante, sempre na lua minguante, um canto de dor e paixão, lá pras bandas do velho rochedo, grita bem alto o seu nome: Camafeu, Camafeu que o mar malvado levou... Volta pra mim meu amor!

AVENIDA NOSSA SENHORA DE COPACABANA (PROSA POÉTICA)



NALDOVELHO

Abertas as cortinas o cenário se revela: sala e quarto, conjugados, Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 12º andar. Mobília discreta, janela entreaberta deixa entrar luz da lua, madrugada deserta povoada de insônia.

Uma pequena mesa num canto e sobre ela o desencanto de um cinzeiro lotado. Uma garrafa de conhaque, pra baixo da metade, luz focada de um abajur a iluminar o poeta. Papéis espalhados pelo chão, nenhuma ideia, nenhuma linha, um verso sequer, que demonstre que a danada da inspiração tenha fixado moradia dentro de um peito afrontado pela inquietude dos ventos que assolam sem nenhum constrangimento, neste inverno que nunca chega ao fim.

Já são quase quatro horas e uma mistura suave de dedilhar de piano, contrabaixo acústico e pistom em surdina, constrói um plano de fundo harmoniosamente ardido e completamente envolvido pela nostalgia e pelo abandono.

Acho até que por isto, o poeta insiste, busca, rebusca, remexe em seus guardados, desencrava sonhos dourados, tipo não realizados, que ficaram por tanto tempo latentes... Quem sabe não estaria aí a fonte de novos versos?

Retorna aos seus vinte e poucos anos, tempo de paixões desconexas, onde a razão, coitada, nunca se fazia presente e uma vontade danada de construir um ninho onde coubesse todo o amor que se tinha por alguém que, hoje, se fez distante, do outro lado do mundo, um oceano e meio além do que se possa imaginar.

Caminha mais um pouco, já aos vinte e cinco, e nova paixão se apressa a dizer até breve, e por diferentes caminhos, a perda de um carinho, e a dor do não concretizar. Lembra que ali morreu mais um sonho de douradas promessas desconsideradas na pressa, e tingidas por sombrios e estranhos matizes... Nem pesadelo restou!

Mais uma dose de conhaque e acabaram-se os cigarros! Nada dos versos, nenhuma inspiração que se preste à tristeza e ao abandono.

As musas envelheceram, o herói de nossa história também e o romance deu lugar ao vazio dos dias e a angustiante espera do momento de ir embora. Mas não adianta, esse dia não vem!

Amanhece, já não existe tanta pressa, ainda que a lua teime em não ir embora. Manhã fria de domingo, Avenida Nossa Senhora de Copacabana, um café no bar da esquina, caminhar até a praia, olhar as ondas do mar, sentar nas areias da praia, fumar mais um cigarro, depois voltar ao conjugado, e dormir.

Dormir, e quem sabe voltar a sonhar?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

MEU JEITO DE CAMINHAR (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Vivo de traçar rumos,
   exploro atalhos, clareiras,
   arrisco-me em íngremes ribanceiras,
   às vezes ferozes corredeiras,
   não raro, escorrego e caio.
   E assim vou, meio sem eira nem beira,
   como quem ainda não sabe aonde chegar.

   Vivo de construir abrigos, lugares seguros
   e preguiçosamente deixo o tempo passar.
   Às vezes caminhar não é preciso.
   Há momentos que a reflexão é o melhor lugar,
   e até que a borrasca passe, melhor não arriscar.

   Sei que sou assim!  Estradeiro, inquieto, solitário
   e às vezes um tanto ou quanto incerto...
   Gosto de me sentir descompromissado
   e sei que a liberdade tem um preço,
   que dia a dia eu pago sem reclamar.

   Às vezes conheço alguém pelo caminho,
   travo amizade, confidencio verdades,
   busco abrir-me ao sentimento...
   Depois, pé na estrada, outra vez,
   pois esta caminhada promete ser longa
   e eu ainda tenho muito que trilhar. 
   Sem pressa!  Pois apressado, corro o risco de tropeçar.
   Não que eu tenha medo dos tropeços,
   mas sempre que posso costumo evitar.

   Quem quiser acompanhar meus passos,
   pode se sentir à vontade...   
   Mas tenha sempre muito cuidado,
   pois as trilhas, que eu às vezes tomo,
   podem dar em nenhum lugar.

   E assim vou tocando a vida.
   Este é o meu jeito de caminhar.

COISAS PARA SE FAZER NO ANO QUE SE APROXIMA (PROSA POÉTICA)


NALDOVELHO

Fortalecer laços, principalmente abraços e apertos de mãos, pois sempre valerá a pena conquistar novos espaços e o privilégio do amigo deve ser sempre cativo em nossos corações.

Afrouxar o nó, aquele do pescoço, o que nos traz falta de ar, pois aperto no peito é sempre bom evitar!  E a dor da angústia e do lamento só nos traz constrangimento, nos tiram da vida o melhor, estragam o paladar!

Aprofundar qualidades, principalmente aquelas que possam ser compartilhadas, e isto, sem preconceitos, para que possam servir de alimento para todos os nossos irmãos, não importa a cor, o credo ou a nação.

Minimizar defeitos, se possível consertá-los.  Não que se queira ser perfeito! Mas é nossa obrigação buscar sempre o melhor. Progredir deve ser um lema e não um difícil dilema.

Cuidar melhor das coisas da alma, aquelas que nos trazem alegria e calma, pois é necessário harmonizar os sentidos para que possamos a cada dia que passa chegar mais próximos de Deus.

Não se esquecer de cultivar, cada vez mais, o amor que devemos ter como abrigo, pois este ainda é o grande alimento que nos faz fortalecidos, capazes do brilho nos olhos, do sorriso espontâneo ao amigo, do carinho à mulher amada, aos nossos filhos e aos nossos irmãos.

E finalmente, não abrir mão da temperança para os inevitáveis problemas, alguns até, aparentemente sem solução. São eles que nos fazem seguir trilhando o caminho em direção a nossa redenção. São eles que dia-a-dia nos transformam, nos testando na difícil tarefa da nossa EVOLUÇÃO.

ERA UMA VEZ UM QUARTO (PROSA POÉTICA)



NALDOVELHO
        
Era uma vez um quarto e dentro dele, na cabeceira da cama, uma mesa. Em cima da mesa uma jarra e um copo, cheios d’água. 

E assim viviam eles, tranquilos e integrados, como se tivessem sido feitos uns para o outro: na jarra e no copo, água!

Foi num dia qualquer de maio, alguém desastrado passava e ao esbarrar na mesa os derrubou.

O copo e a jarra pelo chão aos cacos, e a água no tapete, derramada!

Era uma vez a poeira, que pelas frestas da janela invadiu o quarto e do tapete encharcado como uma intrusa se apropriou.

E a água, antes concubina do copo e da jarra, agora no tapete, assim, entranhada, à poeira se amasiou. 

Dessa estranha promiscuidade surgiu um filho bastardo que alguém por pura ironia, de mofo batizou.

E foi nesse cenário tristonho que a água, antes cristalina, refrescante e faceira, em umidade se transformou.

E junto ao tapete, à poeira, ao mofo, à jarra e ao copo, hoje em cacos espalhados pelo quarto, foi o que restou!

Vez por outra passo por lá desconsolado, pois o que encontro é um cenário tristonho, de cama ainda desfeita, lençóis sujos pelo chão espalhados, travesseiro empoeirado, num canto jogado, um horror!

Certa feita tão descuidado, em dia de chuva, apressado, com os pés sujos de lama, mais tristeza ao quarto eu levei.

Acho que quase um ano se passou, quando num dia qualquer de setembro, a porta se abriu e no quarto, alguém diferente entrou. Olhou para o cenário e chorou!

Abriu a janela depressa para o sol poder tomar conta, varreu a poeira e os cacos, tirou do tapete o mofo, e nos livrou da lama no quarto. Trocou travesseiros e lençóis, depois se aconchegou em paz no silêncio que agora reinava e feliz, realizada, deitou e descansou.

Foi num dia qualquer de novembro, ao certo, já não me lembro! Curioso fui ver como estava o quarto e dentro dele não mais encontrei a solidão.

Encontrei cama arrumada e na cabeceira da cama uma mesa, e em cima da mesa uma jarra e um copo, e dentro deles: água limpa, fresca e cristalina.

Olhei pela janela e lá fora, perdidos: a lama e a poeira.

Dizem que o mofo, coitado! Pelo sol ferido de morte, não resistiu e morreu.

Seus sapatos? Favor deixe na porta, é para manter limpo o ambiente, preservar puro o meu interior.

Era uma vez um quarto e nele, hoje, habita o meu amor.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ÁGUA DE CHEIRO (LETRA DE MÚSICA)


    NALDOVELHO

   Acorda criança,
   é noite ainda,
   vem ver lua nova
   ainda menina,
   rolando na areia,
   brincando de roda,
   chamando o seu nome,
   veio só pra lhe ver.

   Vem ver o presente
   que a lua dengosa
   de amor tão formosa
   deixou pra você.

   Vem sentir o vento,
   perfume de rosa,
   é água de cheiro
   pro seu bem querer.

   Acorda criança,
   completa o feitiço,
   escreve na areia
   seus sonhos, seu nome,
   pra na maré cheia
   por pura magia,
   o mar poder ler.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CHRONOS (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Eu tenho o tempo aprisionado em minhas mãos,
   e ele, escravo de minhas vontades, permite
   que eu viaje sempre ao passado
   e traga de lá sementes de palavras fazedeiras
   que no tempo certo germinam
   nos poemas que eu gosto de escrever.

   Mas ele não permite que eu o faça impunemente
   e se vinga toda a vez que eu sonho,
   injetando em minha carne um veneno estranho,
   que contamina os mais secretos recantos do meu ser,
   fazendo com que eu morra um pouco mais a cada verso.

   Eu tenho o tempo aprisionado em minhas mãos,
   e ele, escravo da minha loucura, permite
   que eu mergulhe nas funduras
   e traga de lá coisas esquecidas, cristalizadas,
   para serem trabalhadas com ternura...
   Palavras, imagens, poemas que precisam nascer.

   Mas, uma vez mais ele se vinga,
   pois eu morro um pouco mais a cada instante
   e já não consigo esconder a verdade:
   que o tempo aprisionado em minhas mãos
   devora a vida que eu tenho para viver.

  



domingo, 18 de novembro de 2012

ATRÁS DA PORTA (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Primavera, novembro, noite deserta,
   e a cidade um tanto ou quanto ensimesmada
   não percebe que as ruas estão nubladas,
   que as esquinas permanecem vazias
   e que a danada da nostalgia
   tomou conta desse lugar.

   Do meu quarto a única coisa que escuto
   é o barulho dos carros em disparada,
   como se tentassem inutilmente fugir...
   Mas eu continuo a viver por aqui,
   buscando as mesmas respostas,
   travando as mesmas batalhas,
   tentando curar minhas feridas.

   É bem verdade, não são as mesmas...
   Sou um poeta desastrado
   que gosta de caminhar entre escombros,
   e que volta e meia teima em se machucar.

   Uma tênue luz abençoa o ambiente,
   na vitrola Elis destila meus tormentos, 
   em cima da mesa: folhas de papel, rascunhos.
   Alguns viram poemas, registros dos meus ais.
   Outros: nada falam, nada revelam...
   
   Primavera, novembro, noite deserta.
   Agora, Elis canta “atrás da porta”,
   e eu continuo a viver por aqui,
   escrevendo sempre os mesmos poemas,
   na esperança de que um dia você venha ler.