sábado, 5 de outubro de 2013

UMA PALAVRA DE AMOR - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Não existem estradas
   de se caminhar desatento.
   Toda trajetória tem sua história,
   cada pedaço de chão, suas memórias.
   Só nos resta tentar perceber.

   Não existem pedras
   lapidadas por dentro.
   Todo o diamante translúcido agora,
   já foi opaco num tempo,
   pois qualquer pedra
   tem uma alma por dentro.
   Só nos resta fazer por merecer.

   Não existem terras
   impróprias ao semeio,
   até as áridas e escuras
   fartas de inquietude e loucura,
   um dia serão apropriadas,
   e sementes de sonho
   ali germinarão.
   Pois haverá sempre
   um poema a ser escrito,
   um resgate de um proscrito
   uma pedra a ser polida,
   um caminho de construir.

   Não existem almas
   eternamente perdidas,
   ainda que sejam muitos os abismos,
   haverá sempre ao seu tempo,
   caminhos de ir e de vir.
   E por eles certamente,
   um sorriso amigo,
   um ombro acolhedor 
   uma palavra de amor. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

LETRA DE MÚSICA - SAMBA DE APRENDIZ

    NALDOVELHO

   Não posso aceitar o argumento
   que diz que o meu canto
   não tem cabimento,
   é pura bobagem
   dizer que o meu samba
   não tem pedigree.

   Não quero causar desconforto,
   mas peço licença,
   desculpe seu moço!
   Fui contaminado
   ainda criança,
   samba de raiz!

   No fundo, no fundo
   do quintal lá de casa,
   registro o compasso
   que atiça a moçada,
   batuque tinhoso,
   ainda que eu seja
   um mero aprendiz.

   Por estas e outras
   não tem cabimento,
   dizer que o meu samba
   não tem o andamento
   por conta da marca
   nele estampada: 
   samba de aprendiz!
    

LETRA DE MÚSICA - SETEMBRO

    NALDOVELHO E WANDA MONTEIRO

   Nas dobras do tempo
   ergui um abrigo,
   pras coisas que eu tenho,
   perdi o juízo!
   Janelas fechadas,
   fantasmas na sala,
   lembranças que eu tenho
   de um sonho ruim.

   Por delicadeza
   deixei sobre a mesa,
   palavras rascunho
   de um novo poema,
   rasguei tuas cartas,
   retratos, bilhetes,
   matei a saudade
   lá dentro de mim.

   Abri a janela,
   colhi primavera...

   O mês é setembro!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

DO LADO DE FORA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Olha o vulto na porta,
   sou eu batendo de novo,
   pedindo entrada, socorro.

   Olha o trinco emperrado
   e o eu de dentro não abre,
   e eu de fora não entro.

   É a porta trancada,
   já é tarde e estou preso
   do lado de fora

   No quintal lá de casa,
   o cachorro me avança
   e eu fico assustado.

   Noite adentro eu grito,
   quero entrar não consigo
   e eu não sei mais de nada.

   Mas eu não tenho escolha
   e também não escuto
   meu lamento, meu grito.

   E o eu de dentro em silêncio,
   e o eu de fora sedento,
   faz tempo ao relento.

LADO ESCURO DA LUA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Pessoas que caminham
   pelo lado escuro da lua,
   trazem nos olhos
   a nostalgia e a demência,
   e no corpo, cicatrizes corrosivas
   que sangram se alguém tocar.
   Com o tempo viram artistas,
   uns poucos, poetas!
   Deus perdoe as heresias
   de que são capazes,
   pecadores contumazes
   que vivem de espalhar sementes,
   frutas tenras, saborosas,
   algumas ácidas, poderosas...
   Colheitas que não serão
   capazes de fazer.

domingo, 22 de setembro de 2013

FERIDA LATENTE - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   Nem todo o poema
   que estanca o sangue
   e cicatriza os cortes,
   cura a dor que se sente.
   Há poemas que se alimentam
   de ferida latente,
   volta e meia brota um!
   Sinal que a danada da paixão
   permanece doendo dentro da gente.




quarta-feira, 18 de setembro de 2013

NEM TODOS OS POEMAS SÃO BONS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS


   NALDOVELHO

   Nem todos os cadáveres estão prontos
   para serem devorados
   pelos abutres de plantão. 
   Muitos ainda caminham pelas ruas
   e teimosos que são,
   recusam-se a sair de cena,
   eternizados pela ambição.

   Nem todas as crenças são boas
   para serem perpetuadas
   pelos crentes de profissão.
   Muitas se mostram contaminadas
   pelo ódio e pela violência,
   onde irmão subjuga irmão,
   inocentes são sacrificadas em desgraça,
   muitos, mutilados em plena praça,
   em nome de um deus sombrio
   que fanatiza pobres crianças
   em nome de uma abominação.

   Nem todos os deuses são imortais
   muitos são cruéis, virulentos e imorais,
   e se entre nós recebem acolhida,
   é porque mais parecemos animais,
   apegados que ainda estamos
   aos mais sangrentos instintos,
   às mais perversas paixões.

   Nem todos os poemas são bons.
   Muitos eu escrevo,
   por não ter outra opção!


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

NO OCO DAQUELE MURO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

   NALDOVELHO

   No oco daquele muro
   há um mundo estranho
   e dele só se apercebem
   os que se permitem ao sonho.
   Por lá uma velha feiticeira
   tece enredos pra lá de complexos
   e enquanto o faz desfia cantigas,
   e diz que assim lhe ensinou sua mãe.
   por lá um jardineiro maluco
   misturou lírios, azaleias e antúrios,
   e enquanto o fez, escreveu versos,
   elegias de amor e de dor.

   No oco daquele muro
   exuberante e intrincada paisagem
   de cores, odores, loucuras,
   de lua promíscua de amores,
   de raros cristais, ametistas,
   de ninfas devassas hermafroditas,
   de rios com águas revoltas,
   pássaros que com anjos conversam,
   poesia que floresce sem pressa
   e por lá uma serpente anda a solta,
   guardiã dos caminhos de ir e de vir.

   Num cantinho daquele muro,
   uma passagem para o oco do mundo
   e dela só se apercebem
   os que não temem navegar em seus sonhos
   e nos caminhos de ir e de vir.



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A PALAVRA QUE EU TENHO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Quando a palavra que eu tenho virar pedra,
   janelas se fecharão sobre as tardes de outono,
   luzes expulsarão daqui os fantasmas,
   que abraçados aos escombros se exilarão no passado.

   Quando a palavra que eu tenho virar pedra,
   não cometerei mais a cantiga apaixonada
   e um silêncio nervoso terá tomará conta do poema,
   pois nem eu, mesmo, me lembrarei destes versos.

   Quando a palavra que eu tenho virar pedra,
   anjos e demônios comemorarão excitados,
   o triste desfecho de um enredo mal alinhavado
   e a dor sob uma lápide com o meu nome gravado.

   Quando a palavra que eu tenho virar pedra,
   pássaros amanhecerão estranhamente quietos,
   os seus ninhos tristemente desertos,
   e o sacrílego, certamente, irá aplaudir!

   Quando a palavra que eu tenho virar pedra,
   festejarei a libertação dos meus sonhos,
   e embriagado com o vinho da loucura
   viajarei para bem longe de mim.

domingo, 25 de agosto de 2013

ASSIM ME DISSE UM ANJO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   No meu poema,
   as palavras nascem, crescem,
   se acasalam e dão crias,
   sob o manto de uma maldição:
   a de serem livres e hereges.
   Assim me disse um anjo
   ao me abençoar
   com o seu perdão. 
   Palavras da salvação!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

GIRASSOL FOFOQUEIRO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Faz bem pouco tempo, 
   me revelaram um segredo:
   que a noite, madrugada sim, outra também,
   dá uma rapidinha com o dia.
   Quase ninguém percebe,
   só aqueles que buscam no orvalho
   inspiração para escrever poemas.
   Eu, que ainda tinha minhas dúvidas,
   ontem acreditei:
   girassol fofoqueiro, confirmou! 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

NA CASA ABANDONADA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

 
    NALDOVELHO

   Na casa abandonada
   o silêncio era um poema
   que brotava das paredes
   e trazia um cheiro forte
   de história avinagrada,
   segredos, sussurros, mistérios,   
   janelas e portas fechadas...
   E sobre a mesa da sala um bilhete,
   nele estava escrito o seu nome
   logo abaixo da palavra solidão.

O VÉU - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

 
    NALDOVELHO

   O véu esconde, nem sei onde,
   o amarelo de um sol decepcionado
   que tristonho se nega
   a iluminar os caminhos.

   O véu esconde, nem sei onde,
   o rosto da mulher amada
   que não se deu por conhecer
   e ao não se permitir o abraço
   preferiu ver o amor morrer.

   O véu esconde, nem sei onde,
   a porta, a janela, a heresia,
   a poesia de todos os dias,
   o sorriso, a lágrima, o grito,
   a palavra que não se pronuncia.

   O véu esconde, nem sei onde,
   o mistério, a adaga, o sangue,
   o pecado que não se revela,
   o tempo que ainda nos resta,
   a verdade que não se contesta.

   O véu esconde, nem sei onde,
   o livro, a chave, a loucura,  
   mas deixa espalhado pela sala
   um amontoado de sementes
   para que possamos plantar e renascer.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

PALAVRAS PÉTALAS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Alguns sentimentos
   se deixados de lado
   por conta de distanciamentos,
   viram pedra dentro da gente.
   Amor negado e esconjurado,
   envolto em frustração ou arrependimento,
   é dor cristalizada lá dentro,
   só poema consegue dissolver.
   Por isso eu cultivo sonhos
   e deles extraio palavras pétalas
   que se tratadas com delicadeza
   emprestam na feitura de um chá,
   um precioso e saboroso remédio   
   que tomo sempre ao anoitecer,
   para que assim fortalecido,
   possa abraçar meus fantasmas
   e mostrar a eles o meu bem querer.
   Acho que por isto mesmo,
   eu continue a dizer que te amo,
   sem ter medo de voltar a doer.

sábado, 3 de agosto de 2013

JAZZ - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO       

   Falhas, pequenos sulcos,
   rachaduras na armadura
   por onde passa a saudade,
   dor aguda de fratura,
   nostalgias de um poeta.
   Sinto a falta de um cigarro
   e de uma dose de absinto,
   sax tenor e um trompete,   
   baixo acústico e um piano
   insidioso e profano
   a compor meus desenganos.
   Muitas notas dissonantes
   numa pauta bem complexa,
   já não tenho vinte anos,
   a artrose incomoda
   e as palavras fazem pouco
   da tentativa de um poema
   que revele meus segredos,
   que descortine meu enredo,
   pois já não restam muitas portas,
   e se esqueço da janela aberta,
   sinto o açoite do inverno,
   não tenho mais o sangue quente
   e minha pele hoje fina,
   qualquer coisa faz sangrar.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SOB O MANTO DA PALAVRA INQUIETA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Sob o manto da palavra inquieta
   a menina tece sonhos,
   colhe lírios, frutas tenras,
   macera ervas, sagra seu cio,
   entrelaça enredos e o faz em segredo,
   conversa com as águas macias de um rio,
   explora caminhos de luz e amplitudes,
   amadurece na forja do seu desassossego,
   escreve páginas de pura ousadia,
   se apaixona muitas vezes, faz poesias,
   tem filhos, vertentes de outros cios,
   envelhece em seu curso e morre,
   mas permanece nas sementes que deixou.

   Sob o manto da palavra inquieta,
   a mulher que ousa o sonho
   acaba virando poeta.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

PALAVRA LIQUEFEITA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Sagrada é a palavra liquefeita
   derramada sobre o poema
   a me dizer que às vezes o tempo passa
   rebelado e urgente
   e assim passa traiçoeiro,
   e me arrasta pra bem longe
   do lugar onde eu nasci;
   mas às vezes ela é um rio
   que passa manso, sorrateiro,
   e me permite o aconchego
   de navegá-lo até o porvir.

   Sagrada é a palavra liquefeita
   derramada sobre o poema
   a me dizer que a vida passa
   apesar das tempestades,
   dos presságios e naufrágios,
   pois toda a vez que amanhece
   passarinhada fica em festa
   e da janela do meu quarto
   surge um bando de colibris.

   Sagrada é a palavra liquefeita
   derramada sobre a pedra
   que um dia será poema,
   pois ainda que eu morra
   de morte branda ou sofrida,
   restarão de mim meus versos,
   testemunhos dos meus passos
   e serão preciosos pedaços,
   pois terá valido a pena
   viver assim como eu vivi. 

EMOLDURANDO O TEU CORPO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Embaraçado em teus cabelos,
   amanheço encharcado de sonhos
   e na suavidade dos teus carinhos,
   me alimento de cheiros e zelos.

   Envolto em seivas e vinhos,
   me embriago em delicadezas,
   minha alma emoldurando o teu corpo,
   minhas pernas já nem sei onde estão.

   Na tua pele sardenta,
   eu escrevo poemas indecentes,
   registros da minha demência,
   segredos, grunhidos, urgências.

   Nas dobras, nas fendas, abismos,
   eu morro de dor a cada orgasmo,
   minha carne exposta em postas,
   meu sêmen derramado pelo chão.




sexta-feira, 26 de julho de 2013

OUÇO! - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Ouço o vento que acaricia as cortinas,
   o amanhecer que não demora desperta,
   ainda que aqui dentro
   faça morada o silêncio
   das palavras não ditas
   e da inquietude maldita
   que não me deixa dormir.

   Ouço o barulho do papel
   impiedosamente rasgado,
   os passos daqueles que vagam
   pelas noites friorentas de julho
   e o atritar insone das horas
   no coração do homem que insiste
   em permanecer encharcado por dentro.

   Ouço o poema que sorrateiramente lhe aflora
   em versos que cicatrizam feridas,
   testemunho da ternura que existe
   na possibilidade de se construir um caminho
   que nos permita a singeleza de um abraço,
   pois é missão do poeta construir laços
   que possam suavizar nossos corações.

   DEDICADO A POETA MARCIA MENDES NO DIA DO ESCRITOR


quinta-feira, 18 de julho de 2013

ASSOMBRAÇÃO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   Uma folha de papel em branco
   sorri ironicamente,
   faz pouco do meu esforço
   de tentar desenhar seu rosto.

   Um vento invade o quarto,
   embaralha palavras, enredos,
   impede que eu escreva um romance.
   Diz que prefere os poemas!

   Da janela da casa ao lado 
   uma música aumenta o estrago,
   Michel Legrand ao piano...
   Por mais que eu enterre o passado
   ele volta sempre a me assombrar.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O MENINO E O HOMEM - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Na beira de um rio
    um menino observa
    corredeiras que passam,
    sonha em poder um dia
    caminhar do lado de lá.
    Sonha até em construir uma casa
    no alto de uma colina
    que domina aquele lugar.
    Não sabe este menino,
    que do outro lado um homem,
    já faz muitos e muitos anos,
    trabalha noite e dia,
    construindo uma ponte
    que possa levá-lo
    de volta ao seu lar. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

DIA ESQUISITO - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

   O dia amanheceu esquisito,
   irritado, caminhou de um lado para o outro,  
   mexeu em meus guardados,
   bisbilhotou segredos sagrados,
   esparramou retratos, cartas, bilhetes...
   Lá pelas tantas, faminto,
   comeu o meu poema!
   arrotou distanciamentos,
   não sei mais o que fazer!