quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS QUATRO PORTAS (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Pela porta da frente,
   pessoas saiam compenetradas,
   pareciam donas do mundo
   a trabalhar em assuntos
   de conhecimento profundo.
   No entanto, elas iam e vinham
   e nada resolviam.

   Pelas portas laterais,
   pessoas saiam inquietas
   e cismavam de achar
   que estavam sempre certas.
   Volta e meia brigavam
   e abusavam das palavras vazias.
   Iam e vinham, mas na verdade,
   pouco faziam.

   Pela porta dos fundos,
   pessoas saiam apressadas!
   Em suas malas, muitas suspeitas
   e o medo que alguém pudesse lhes acusar.
   Iam e vinham e cada vez que isso acontecia,
   mais pobre ficava aquele lugar.

   Mas havia aquelas que teimavam
   em permanecer lá dentro,
   quase não falavam, às vezes sorriam,
   não raro choravam 
   e se portavam com se fossem
   as verdadeiras as donas daquele lugar.

   Nem iam, nem vinham,
   mas sempre que podiam, construíam!
   Na esperança que tinham
   de um dia poder melhorar! 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

NO CICLO DAS ÁGUAS (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

    No ciclo das águas desfaço o cansaço,
    curo feridas, desmancho embaraços,
    próprios daqueles que caminham
    por esta estrada sem fim.

    No ciclo das águas colho sementes,
    desentranho palavras,
    restabeleço em mim a vontade
    enfraquecida pelo desencanto,
    próprio de quem pela vida se perdeu.

    No ciclo das águas a sabedoria se expande
    e a cada resposta obtida
    converto em mim o descrente,
    pois minha verdade é semente
    colhida pacientemente no curso deste rio.

    No ciclo das águas mil e muitas perguntas,
    e não importa o caminho que eu tome,
    ainda terei de morrer mil mortes
    até poder ser digno da Vossa Lei.

PALAVRA LIMPA (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Sei de gente que gosta
   de maquiar a palavra
   na intenção de exagerar seu brilho
   e assim poder esconder
   seu verdadeiro significado.

   Eu prefiro a palavra limpa
   disposta a ser retalhada em postas,
   para que, assim dissecada,
   possa nos revelar sua alma.

   Só então consigo compreendê-la! 

NO FIO DA NAVALHA (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   No fio da navalha
   um olhar, meio assim, sem juízo,
   uma estranha sensação de loucura
   e o arrepio do abismo
   toda a vez que eu me aproximo de você.

   E a vida escoa impunemente,
   pois a saudade que se tem
   é quase nada, uma bobagem!
   quando o seu carinho diz: presente!

   No fio da navalha
   dias e noites em clausura
   e na poesia de acidentados caminhos
   a necessidade de dissolver os espinhos,
   e o medo de não conseguir compreender.

   Pois a dança do tempo se revela
   numa deliciosa sensação de ternura,
   pois toda a vez que eu acordo ao seu lado
   percebo que ainda há muito o quê viver.

   No fio da navalha,
   as horas agonizam aprisionadas
   no medo de se acordar de repente
   e descobrir que foi só um sonho bom,
   o amor que existia é passado
   e não há mais nada que possamos fazer.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

AO POETA DESCRENTE (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Alguém disse que amanhã nascerá novembro,
   de janela desavergonhadamente aberta,
   de bando de pássaros em animada conversa,
   de louvação as águas que brotam sem pressa,
   de um novo tempo que ousará ser feliz.

   Alguém disse que a vizinha do lado,
   que vive de chorar suas saudades,
   vai parir toda a sua nostalgia
   em poemas de amor eterno
   e que o vento vai lhe trazer um romance,
   e ela sorrirá de alegria e nunca mais será infeliz.

   Alguém disse que o homem rico
   que mora atrás das grades douradas,
   todas as terças-feiras distribuirá seu rico dinheiro
   entre mendigos e arruaceiros
   que em sua porta formarão filas,
   gente faminta e descalça,
   e que ele acolherá em seu quarto
   o enfermo e a meretriz.

   Eu, que sou um poeta descrente,
   prefiro acreditar que o mês de novembro
   vai ser apenas úmido e quente
   e que continuaremos a sofrer nossas dores,
   até que seja ser chegada a hora
   da inquietude que temos ir embora,
   dando lugar a ternura 
   que eu sempre quis ver chegar.


EPITÁFIO (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Mas ele não sabia
   dos caminhos de se olhar por dentro,
   nem das lágrimas
   de se humanizar por fora.
   Viveu como se fosse um pé de vento
   e não deixou nada pra ninguém.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

NA ESTAÇÃO (LUZ E SOMBRAS)


   NALDOVELHO

   Todos os dias na estação,
   por horas e horas ele observava.
   Chorava pelos que partiam,
   sorria com os que chegavam,
   consolava os que ficavam
   e encorajava os que temiam o dia.

   Todos os dias, já faz tanto tempo...
   Tanto, que ele até se esqueceu de partir.

CASULO (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Queria ser borboleta,
   mas por mais que sonhasse
   não conseguia sair do casulo.
   Até que Deus compadecido
   fez ela transpor o muro,
   para que no ciclo das águas 
   aprendesse a caminhar.

ERVAS DANINHAS (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Costumava engolir lágrimas
   colhidas em seu dia a dia
   e sorria, pois ninguém sabia!
   Dizia-se forte
   e que só seria vencida
   pela morte.
   Mas em seu ventre
   ervas daninhas cresciam
   e ela nem percebia!

SÓ NÃO SEI ATÉ QUANDO! (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   A palavra rebelada denuncia,
   que a gargalhada histérica
   conspurca a leveza que existe
   e só traz magoa ao coração,
   que a insanidade dessa gente
   aprisionada a crenças tribais,
   atiça a violência, irmão matando irmão.

   A palavra rebelada protesta
   ao ver a poesia amargurada
   com pena das pessoas
   que anestesiadas não se importam
   que por muito pouco ou quase nada,
   crianças diariamente são mortas
   e nem lhes resta a extrema unção.

   Enquanto isto, é só ligar a televisão,
   assistir a novela ou um filme de sexo,
   ou quem sabe um com muita violência...
   Depois, dose diária de Rivotril...

   Amanhã, Deus o permita,
   continuaremos todos
   anestesiados, felizes...
   Só não se sabe até quando!

TRAVESSIA (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   A suavidade da sua pele,
   a lembrança do aconchego do seu corpo...
   Quantos segredos, quanto mistério!
   Tudo me faz lembrar sua ausência.
   Seus gestos, palavras, sussurros...  
   Muitas vezes eu sequer conseguia entender!
   Só sei ao certo que restaram marcas,
   no meu quarto, no meu corpo, na minha cama
   e na imensa vontade de atravessar aquela porta,
   só para poder ficar junto de você.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PECADOR CONTUMAZ (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Parece que aquela senhora
   anda querendo entrar no céu.
   Assiste a missa todos os dias,
   paga dízimos a todo instante,
   passa horas e horas
   ajoelhada em novenas,
   pedindo ao Pai que a perdoe,
   mas caminha sem olhar pros lados,
   abaixa a cabeça diante do pecado,
   não sabe da criança que padece,
   finge que não vê que o diabo mora ao lado,
   vive em seu mundo, enclausurada,
   ignora a fome que atormenta a alma,
   não vê o corpo ensanguentado no chão,
   não consegue abraçar seu irmão,
   e em sua solidão, adormece e se acalma,
   anestesiado o seu coração.

   Eu, que vivo de cometer heresias,
   poeta, pecador contumaz,
   vou ter que morrer infinitas vezes,
   até poder encontrar minha paz.   

terça-feira, 6 de novembro de 2012

POR ONDE EU PASSEI (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Os lugares por onde eu passei
   têm a minha marca.
   É bem verdade que existem outras...
   Muitas outras!
   Mas há lugares que só eu sei.

TODOS OS DIAS (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Todos os dias pela manhã,
   ela agradecia ao dia o que viria.
   Nem sempre romance,
   nem sempre ternura,
   muitas vezes loucura!
   Mas, sempre e sempre, poesia!

LUGARES SOMBRIOS (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Conheço lugares
   sombrios e lamacentos,
   onde a luz não consegue entrar.
   O Homem não deixa!

sábado, 3 de novembro de 2012

POR UMA OUTRA MARGEM DE RIO (ARQUIVO)


    NALDOVELHO

   Na margem direita de um rio,
   paisagem distorcida,
   muitas pedras, poucos sonhos,
   coisa árida, já sem vida
   e a estranha sensação
   da ameaça, da tocaia
   a espera de um cochilo,
   ou qualquer desatenção.

   Na margem esquerda muitas sombras,
   vegetação pobre e rasteira,
   um cheiro de coisas mortas
   e a estranha sensação
   de que o destino, este insano,
   destruiu a esperança
   e pôs a culpa na besta
   que nos habita o coração.

   Ao longe a cidade reclama
   por uma outra margem de rio...
   Uma, que nos traga o amanhecer. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

AINDA FALTA UM POEMA (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Eu tenho uma garrafa de conhaque
   pra baixo da metade, faz tempo, guardada,
   já nem me lembro do último gole,
   mas lembro bem a dor que eu senti.

   Eu tenho um monte de portas,
   algumas, faz tempo, abertas,
   outras, já nem lembro há quanto tempo trancadas, 
   não permitem que eu saia daqui.

   Eu tenho um monte de palavras
   poemas rascunhados guardados,
   alguns falam do amor que eu perdi,
   outros, do amor que eu não vivi.

   Eu tenho um monte de assuntos inacabados,
   coisas mal resolvidas, coito interrompido,
   sentimento de clausura, loucura,
   vez em quando ainda minto e me ponho a sorrir.

   Eu tenho em meu quarto uma única janela,
   e por ela eu vejo o dia que passa,
   a noite e a madrugada...
   E já se passaram tantas depois que eu me perdi.

   Eu tenho uma música inacabada,
   uma tapeçaria empoeirada, 
   um gesto abortado, um pálido aceno,
   poema de adeus que eu não escrevi.  

sábado, 6 de outubro de 2012

ESTADO DE DERRAMAMENTO (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Existe um estado de derramamento,
   próprio dos que são solitários por dentro
   e sabem que uma vida só não se basta,
   precisa de outras para poder amanhecer.

   Para este estado de derramamento
   que amplia os limites da alma,
   o Verbo carinhosamente
   inventou a palavra sonhador.

   Existe um estado de derramamento,
   próprio dos que têm asas por dentro
   e sabem que uma só vida é quase nada,
   precisa de outras para poder florescer.

   Para este estado de derramamento
   que enlaça fios de almas,
   o Verbo por pura delicadeza
   inventou a palavra amor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

DAS COISAS QUE EU NÃO SEI (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Não sei tirar leite das pedras,
   nem transformar água em vinho,
   derrotar monstros moinhos,
   desembaraçar na vida os fios,
   evitar novelos de lã.

   Não sei ver a diferença
   entre mulher de vida incerta
   e aquela que jura ser certa,
   nem descobrir quais são as loucas
   entre aquelas que afirmam que são sãs.

   Não sei como apagar no peito
   a chama que arde covarde,
   nem amar sem fazer alarde!
   Tem sempre um tremor nas pernas,
   um jeito de olhar que denuncia,
   uma vontade de fazer poesia.

   Nunca fui um bom navegante,
   acabo sempre num recife,
   ou então numa praia distante,
   meio náufrago, meio escombro,
   pedindo a Deus que alguém me ache
   e me leve de volta ao cais.

   Nunca aprendi a dar fortes laços,
   no máximo, nós cegos!
   Volta e meia a corda arrebenta
   e aí eu me solto das amarras,
   fico andando em círculos
   e me perco de mim mais uma vez.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

COISAS DO CORAÇÃO (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Eu rabisco palavras de amor
   toda a vez que tropeço pelas ruas.
   São tentativas de disfarçar a dor
   da unha encravada, das constantes topadas,
   joelhos ralados, estabanado pelo chão.

   Eu rabisco palavras de solidão
   toda a vez que alguém me diz adeus.
   São poemas nostálgicos,
   mãos suadas, coração afrontado...
   Assim terminou a história de nós dois.

   Eu rabisco palavras suaves
   toda a vez que colho um sorriso.
   Coração ainda acredita,
   poesia é coisa bendita,
   semente de sonho, emoção.

   Eu rabisco palavras de ternura
   toda a vez que alguém me dá a mão.
   Apesar das lágrimas que escondo
   e do carinho muitas vezes negado...
   É sempre assim que eu me vejo depois.

   Eu rabisco muitas coisas,
   normalmente, poucos percebem!
   Tatuei em meu corpo segredos,
   mapas, poemas, enredos,
   coisas do coração!

  

terça-feira, 18 de setembro de 2012

SUAVIDADE PÉTALA (LUZ E SOMBRAS)


   NALDOVELHO

   Esta suavidade pétala
   alicia meus ouvidos,
   mostra que o som que brota
   da voz que ao mesmo tempo
   é pavio e arrepio,
   é capaz de macerar palavras
   até fazer delas poemas,
   que por muito pouco ou quase nada,
   explodem dentro do meu coração.

A QUEM ME DEVOROU POR INTEIRO (LUZ E SOMBRAS)

   NALDOVELHO

   Mulher gostosa tem aos montes por aí,
   mas poucas sabem dos feitiços da lua cheia,
   poucas trazem no canto o veneno das sereias.
   Eu que não sou bobo nem nada
   e passei uma vida a tecer mandalas
   em colos molhados de cio e aconchego;
   faço mais este poema de luz e sombras,
   dedicado a quem me devorou por inteiro
   e fez com que eu renascesse poeta
   com a coragem de dizer que valeu a pena,
   apesar do muito que sofri!

sábado, 8 de setembro de 2012

POEMAS DE LUZ E SOMBRAS (LUZ E SOMBRAS)

    NALDOVELHO

   Revelar o que as ruas escondem?
   Posso não!
   Fiz promessa de segredo.
   No máximo, poemas de luz e sombras,
   pois cada esquina tem um dono
   e os compadres bem que gostam
   que lhes rendam homenagens
   e tudo dentro do maior respeito.

   Revelar o que as ruas escondem?
   Posso não!
   No máximo, poemas de luz e sombras,
   pois é preciso muita coragem
   para beber o veneno das madrugadas,
   servir de alimento a mais doce das sereias,
   ser contaminado por feitiços da lua cheia,
   e ainda assim, amanhecer acreditando
   no que um novo dia possa nos ofertar.

   Revelar o que as ruas escondem?
   Posso não!
   No máximo poemas de luz e sombras
   que nos ensinem a caminhar.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ÁRVORE DE BEIRA DE RIO (LUZ E SOMBRAS)


    NALDOVELHO

   Um cão velho de estrada,
   porteira aberta, cercas quebradas,
   caminho de pedras, velho caramanchão,
   casa grande, avarandada, 
   e atrás dela um rio,
   na beira do rio uma árvore...
   Faz tempo eu já passei, 
   ela ainda está por lá.

   Ipê-amarelo, todo ano, mês de setembro,
   ele desperta e vem nos brindar.

   E o velho cão agora mora na varanda,
   lado esquerdo de quem entra,
   e todos os dias aquele menino
   gosta de com ele brincar.

   Casa grande, avarandada, já em ruínas,
   morada de muitos fantasmas
   entre eles um cão velho de estrada,
   um menino e um poeta.

   Só o ipê-amarelo resiste vivo,
   solitária sentinela daquele lugar.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

JEITO CERTO (LUZ E SOMBRAS)

    NALDOVELHO

   Há um jeito certo
   de se trilhar este caminho.
   Eu que mal sei de mim mesmo,
   não raro, tropeço e caio,
   machuco todo o meu corpo,
   mas ainda assim continuo
   meio escombro, meio esboço,
   mesmo que não saiba direito
   onde vou chegar.