sábado, 25 de fevereiro de 2017

ENTRE O INFERNO E O PARAÍSO

    NALDO VELHO

    Entre o inferno e o paraíso
    trilhas de pura insanidade.
    Um querubim a tudo assisti e sorri!
    E alguém grita de longe
    que o diabo também já foi um anjo.
    Verdades vazias, frases reticentes,
    portas fechadas, becos sombrios
    e um labirinto de vontades,
    no final dele uma esfinge me observa,
    e diz que um dia vai me devorar.

    Entre o sonho e o pesadelo,
    uma linha esticada, um novelo,
    se afrouxar demais embaraça,
    se esticar muito arrebenta,
    coração quase não aguenta
    andar no limite da loucura,
    viver em busca de ternura,
    naufragar tão perto do cais.
    E a esfinge se põe a sorrir
    na certeza de um dia me devorar.

    Entre a solidão e a clausura,
    um punhado de noites desertas,
    mais de mil poemas escritos
    na tentativa de um dia ser um anjo,
    poder voar como voam os pássaros,
    e a vontade de abrir a janela,
    expulsar a inquietude do meu quarto,
    desembaraçar de vez este novelo,
    e matar a danada esfinge
    que existe dentro de mim.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SUAVE É A NOITE

    NALDOVELHO

    Suave é a noite que transpira outono,
    mês de maio que me abre a janela,
    destila em poemas meus sonhos,
    dá brilho a saudade que eu sinto dela,
    diz que nostalgia é coisa à toa,
    e inconveniente como ela só,
    nem pede licença, diz que veio para ficar.

    Suaves são os acordes do meu violão,
    canção, toada, cantiga de ninar,
    que acariciam meus ouvidos,
    dão sentido aos meus versos,
    e seduzem lua cheia que se aprochega da janela,
    e me pede para entrar,
    diz que traz a cura dos meus males,
    mas ela mente!
    É só mais uma dose de veneno,
    que eu vou ser obrigado a tomar.

    Suaves são os amanheceres de maio,
    a noite já foi embora,
    deixou em minha cama seu cheiro,
    perfume inconfundível de lua cheia,
    travesseiro amassado, jogado num canto,
    lençóis e fronhas molhadas,
    e a cidade ignora meus versos,
    meus cortes, minha saudade, meus sonhos,
    e diz que já é hora de acordar.







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ENCONTRO MARCADO

    NALDOVELHO

    Eu tenho um encontro marcado
    com os sonhos que eu deixei de sonhar,
    com os amores esquecidos no passado,
    com a criança adormecida dentro mim,
    com as madrugadas molhadas de orvalho,
    com o poema que eu não consegui escrever

    Eu tenho um encontro marcado
    e poderia ser até com você!
    Quem sabe então pudéssemos viver
    um tempo de nunca mais esquecer
    a ternura fundamental de um carinho
    e a vontade de nunca mais sermos sozinhos?

    Eu tenho um encontro marcado
    com a possibilidade de dobrar esquinas,
    com a música que eu sempre gostei de fazer,
    com as telas que eu nunca soube pintar...
    Eu tenho um encontro marcado
    com tudo aquilo que eu não fui capaz de criar.

    Eu tenho um encontro marcado
    com a diversidade de trilhas, caminhos,
    com a certeza de poder transpor obstáculos,
    mas também com a derrota que tanto nos ensina.
    Eu tenho um encontro marcado com o meu tempo
    e quem sabe lá no fim eu possa ser digno de Você?


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CONVERSA RIBEIRA

NALDOVELHO

Vó Miudinha era um ser muito especial, dava gosto vê-la caminhar pela vida abraçada às suas peculiaridades, assim como que semeia encantamentos. Lembro, em especial, do café fervido junto com a água, passado sem pressa e borrifado de canela, servido bem quente e melado, que ela adorava dizer encorpado... Sei não, às vezes penso que alguma outra erva, ela ali colocava, pois o vigor que nos trazia era digno de uma poção conjurada em feitiço, ou coisa que o valha. Em suas anotações, que até hoje eu guardo com carinho, bem que procurei a receita, o nome dessa outra erva, mas nada: a velha não revelou.

Vó Miudinha adorava uma prosa, velha faladeira aquela! Mas detestava fofocas, e nos dizia sempre:
- se não tem nada de bom a dizer, melhor deixar quieto!

Não raro eu a encontrava falando sozinha, pelo menos assim eu achava, com as plantas, com os bichos, e até com os objetos, coisas que eu pensava inanimadas, mas que ela sempre nos ensinava:
- tudo tem seu princípio espiritual, sua alma, sua vibração e razão nesse mundo de Deus.

Às vezes eu ficava de longe a apreciar suas conversas com o mundo ao redor, dava gosto de ver! Uma vez peguei-a de “teretetê” no jardim com um banco de ipê, trabalho precioso de um velho carpinteiro, presente dado em reconhecimento a um desmanche de feitiço. E ela gostava de ficar no jardim cercada de plantas e pássaros, dizia que ali era seu paraíso. E dessa feita, fascinado pela cena, acabei por me aproximar mais do que devia, e ela ao perceber minha presença pediu que me sentasse ao seu lado e disse-me: e aí meu neto, fale-me o porquê da curiosidade e espanto?
- Desculpe Vó, é que eu fiquei maravilhado com o carinho, o toque de dedos na madeira trabalhada e na conversa que a senhora estava tendo, e não pude resistir.
- É meu neto, todas as coisas no mundo têm a sua energia, e cada vez que você as privilegia com carinho e ternura mais imantadas de boas coisas elas ficam, e assim é também com este belo banco de ipê. 
- Mas Vó, que conversa vocês estão tendo?
- Ele está a me contar sobre o tempo que era ainda uma árvore frondosa e florida junto de um riacho não muito longe daqui e fala desse tempo com saudade, mas compreende que a vida prosseguiu e que ele hoje tem outras serventias. Fala também do privilégio de ter sido parte da magia que o velho carpinteiro foi capaz ao construí-lo.
- E ele é feliz aqui em nosso jardim, Vó?
- É sim meu filho, mas ele precisa sempre de uma boa prosa, gosta da atenção e do carinho que possamos lhe dar.
- Um dia, eu também vou saber conversar com as coisas, assim como se conversa com toda a gente.
- É fácil meu neto, você tem uma mente sensível e inquieta e um coração cheio de amor e ternura, então é só intuir, é eu já te disse, você vai ser um poeta, desses que vão espalhar beleza e encantamento, e da mesma forma que eu bordo meus panos e faço meus feitiços, de muita serventia você também será.

            Nunca mais eu me esqueci daquela lição, dali em diante, não raro eu me via também a conversar com as coisas, com as plantas, com os bichos, com o vento, com o rio, com tudo o que há!

            E o mundo até hoje me conta cada coisa!

            Eu gostava muito de conversar com um riacho que existia perto da fazenda, ele me trazia notícia dos longes, me falava da cidade grande e de suas mazelas, do mar que existia, bem depois do horizonte, das pedras redondinhas que ele torneava pelo caminho, e até de um rochedo enorme, lá perto dos jardins de Oxalá! Dizia que ele era um rochedo sabido, muito antigo, mais antigo até do que o homem, quantas histórias ele tinha a me contar. E em troca eu lhe levava notícias do seu velho amigo ipê, não mais florido a cada inverno, mas agora banco nos jardins da Vó Miudinha, e que ele era feliz em viver por lá.

            Velha feiticeira a Vó Miudinha me ensinou até a ler nas paredes das casas as histórias que elas têm para contar.
- É fácil meu neto, é só intuir, com o tempo você há de se acostumar! 


    

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

JÁ É HORA DE PROSSEGUIR

    NALDOVELHO

    Ando com os olhos marejados
    por conta dos meus muitos estragos,
    colecionando retratos,
    recortes, bobagens...
    Já não dou conta dos descaminhos,
    das noites passadas sozinho,
    das madrugadas friorentas,
    coração já não aguenta,
    qualquer dia desses implode,
    nostalgia insistente; vê se pode,
    você foi embora, foi viver longe daqui
    e na janela um bem-te-vi
    me espiona assustado e grita:
    - menino levanta daí!

    Ando com a boca ressequida
    pelos desencontros desta vida...
    Saudade do café da Vó Miudinha,
    fervido junto com a água,
    só pra ficar mais encorpado,
    saudade da primeira namoradinha,
    seios pequenos e arrebitados,
    e seus lábios umedecendo meus lábios,
    suas pernas assanhadas e entrelaçadas
    às minhas pobres pernas embriagadas,
    janela aberta, lua assustada...
    Se Vó Miudinha vê uma cena destas
    ia ficar toda ruborizada.
    - Este meu neto sabe de coisas!

    Ando com o coração afrontado
    por palavras embevecidas,
    pois cada vez que escrevo um verso
    mais marejados os olhos ficam,
    mania de chorar por qualquer bobagem,
    mania de acreditar que um poema
    possa exorcizar o meu passado,
    possa abrir portas e janelas
    e trazer pra dentro do quarto
    um bando de bem-te-vis:
    - menino levanta daí!
    Na cozinha um café passado sem pressa,
    pareço escutar Vó Miudinha:

    - meu neto já é hora de prosseguir!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

PALAVRAS DE ILUMINAR CAMINHOS

    NALDOVELHO

    E existia em mim um menino
    que sabia palavras de iluminar caminhos,
    e os dias eram coloridos e perfumados,
    e as noites pontilhadas de sonhos.

    O tempo passou e o menino cresceu,
    aprendeu palavras outras,
    algumas bastante sombrias,
    tais como amargura e melancolia.

    Mas ainda assim o menino resistia,
    e só de molecagem insistia
    em brincar como quem navega  
    em rios de irrigar poesia.

    E nas noites de inquietude e abandono
    povoadas de solidão e insônia,
    o menino trabalhava a palavra magia,
    e depois em seu leito de sonhos, dormia.

    Há tempos o menino em mim envelheceu
    e seus dias já não são tão coloridos;
    pele áspera, olhos cansados, nostalgia,
    mas ainda assim ele brinca em rios de irrigar poesia.