terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CIGARRO ENTRE OS DEDOS

    NALDOVELHO

    Atrito, faísca, fogo!
    O cigarro aceso entre os dedos
    esconde meus medos.
    Fumaça é feito neblina,
    confunde a visão, esconde tessituras,
    ameniza amarguras, alucina.
    
    Se a noite que eu tenho é escura,
    será a brasa do meu cigarro
    candeeiro aceso a iluminar caminhos?
    Depois, quantas vidas terei de viver?
    Quantas dores terei que sofrer?
    Quantas mortes terei que morrer?

    Atrito, faísca, fogo!
    Até hoje eu sinto medo,
    até hoje eu percebo a neblina,
    já não fumo faz tempo,
    mas a poesia que eu tenho
    ainda não dissipou a escuridão.


URGENTEMENTE

    NALDOVELHO

    Preciso urgentemente
    caminhar pelas ruas de minha cidade,
    explorar novos mapas,
    e pelos caminhos alterar meu destino,
    plantar novos sonhos,
    pois são muitas as sementes,
    quem sabe possamos merecer?

    Preciso urgentemente
    resgatar a música
    que nem sei por que cargas d’água,
    não fiz mais por merecer.
    São muitas as sonoridades,
    melodias emocionadas,
    harmonias que vibram pelo espaço,
    vontade de tocar para vocês.

    Preciso urgentemente
    chorar lágrimas que insistem
    no canto dos olhos, cristalizadas.
    dores que eu fiz por merecer,
    e ainda que não lembre direito, 
    maior é a minha saudade
    de um lugar perdido no tempo
    que eu vivo tentando descrever.

    Preciso urgentemente
    libertar a criança em mim aprisionada,
    extrair dos meus pensamentos
    raízes de erva daninha ,
    beber dose e meia de esperança,
    fazer por merecer uma nova dança,
    escrever mais poemas,
    pintar outros quadros,
    fazer o caminho de volta,
    pois ainda há muito o quê fazer.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

TUDO O QUE EU QUERIA

    NALDOVELHO

    Tudo o que eu queria era ter Sua bênção
    para poder chegar ou poder partir,
    sem que uma porta, cadeado ou tramela
    pudessem me impedir;
    era poder dizer sim ou poder dizer não,
    sem que alguém mais que depressa
    viesse me ameaçar ou me amordaçar.

    Tudo o que eu queria era ter Sua bênção
    para poder trilhar meu próprio rumo,
    traçar meus mapas, me perder pelo mundo,
    só para poder depois me redescobrir
    e me reencontrar em Você;
    era poder conhecer a dor a cada erro
    e a felicidade a cada acerto,
    era poder cair a cada passo mal dado
    para depois levantar e caminhar de novo,
    ainda que do lado errado da estrada,
    pois ainda tenho muito o quê aprender.

    Tudo o que eu queria era ter Sua bênção
    para escrever o meu próprio livro,
    e nele cometer heresias, falar de poesia,
    tentar descobrir minhas verdades,
    crescer a cada verso, viajar pelo universo,
    mostrar ao mundo inteiro o amor que eu tenho,
    saber reconhecer Seu rosto, ter Sua voz dentro de mim.

    Tudo o que eu queria era pronunciar Seu nome
    de um jeito que eu ainda não aprendi.




quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O MENININHO QUE GOSTAVA DE CATAR PEDRINHAS


NALDOVELHO

E tinha aquele menininho que gostava de catar pedrinhas coloridinhas nas areias daquela praia lá pros lados do desassossego, e ele se ria toda a vez que via o mar a fustigar o rochedo e dizia que logo surgiriam mais pedrinhas que ele iria precisar catar. Ele adorava ver a natureza fazer o seu trabalho e inventava que cada pedrinha tinha uma história e que quando crescesse ele iria nos contar.

Mas ele gostava também e especialmente das branquinhas que dizia serem pedacinhos de nuvens que o vento costumava lapidar, e que elas, todas, traziam ensinamentos gravados em palavras de anjo que um dia ele saberia nos passar.

Aquele menino adorava caminhar pela praia e seu maior prazer era o de inventar coisas, histórias que ninguém mais via, sentia ou sabia, só ele, o menininho que gostava de catar pedrinhas.

Um dia, nem faz muito tempo, bem pertinho de um arvoredo nos limites da praia, além das pedrinhas ele encontrou um monte de penas, várias, lindas e prateadas, que ele mais que depressa pegou. Daquele dia em diante o menino e suas penas nas areias daquela praia passavam boa parte do dia a escrever palavras que ninguém entendia, e que passado algum tempo, tragadas pelo mar ou pelo vento, sumiam! E ele novamente se ria e dizia que eram poemas em palavras sagradas de anjo, que um dia, quando crescêssemos todos, ele poderia nos mostrar.

Há tempos, o menininho foi embora, partiu numa onda do mar, mas deixou comigo suas penas e a sua coleção de pedrinhas. Vez em quando pego uma para poder lhes contar.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ÀQUELES QUE NÃO GOSTAM DE POESIA

    NALDOVELHO

    Guardo certas reservas
    com relação aos dias
    que transpirem aridez.
    Dias que me pareçam sedentos,
    embaraçados nas teias do tempo,
    com rachaduras por todo lado,
    de estreiteza e solidez acidentados,
    onde a vida se mostre
    plena de desenganos,
    lascas, feridas, arestas,
    falência de planos,
    tudo estranho demais.

    Guardo muitas reservas
    com relação às palavras
    que transpirem desamor.
    Elas costumam deixar no rosto
    sulcos, rugas, marcas,
    coisas causadas pelo desgosto
    e pela acidez de lágrimas não choradas,
    de poemas não escritos,
    e de uma interminável solidão
    que teima em me assombrar.

    Prefiro então
    colecionar abraços, laços,
    sorrisos, carinhos, caminhos,
    entrelaçar destinos,
    acreditar em dias
    que transpirem fantasia,
    em música visceral e profana,
    pois ainda que haja dias de chuva,
    haverá certa leveza no ar.

    Guardo certas reservas
    àqueles que não gostam de poesia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

HÁ TEMPOS EU VENHO AQUI

    NALDOVELHO

    Há tempos eu venho aqui
    e me exponho!
    Minha nudez é coisa certa.
    E aí, deixo que vejam
    as cicatrizes que trago
    em meu corpo,
    permito que me olhem
    no fundo dos olhos e então revelo
    todos os recantos do meu ser.
    É bem verdade, alguns sombrios,
    pois melhor ainda não sei fazer.

    Macero palavras noite e dia,
    palavras de semear descobertas,
    algumas de semear fantasias...
    Pois já disse: minha nudez
    é coisas certa!

    Não sei se isto te importa,
    ou se irá importar algum dia.
    Só sei que eu faço a minha parte
    e o faço desde que me propus
    a voar com asas de voar por dentro.

    Talvez seja esta a maneira
    de dar algum sentido
    a loucura que me devora faz tempo,
    talvez seja este o meu jeito
    de tentar ser melhor
    do que realmente eu sou.

    Há tempos eu venho aqui
    e me exponho...


domingo, 10 de janeiro de 2016

LIRISMO

    NALDOVELHO

    Entardece e luz da lua brota
    por de traz daquela montanha,
    malas repletas de esperanças tamanhas,
    um coração cheinho de cicatrizes,
    mas que ainda crê em finais felizes.

    Um café coado com carinho,
    uma vontade enorme de semear caminhos,
    colher outonos e neles refazer meus planos,
    acreditar na suavidade da palavra sonho
    e na delicadeza a que me proponho.
    O mês de março é ótimo para se recomeçar.

    E assim a vida me abraça por inteiro,
    brisa macia que me acaricia e desfaz meus medos,
    e a noite me envolve e se apodera dos meus passos,
    desfaz dores, desencrava poemas, alivia o meu cansaço.
    Instante mágico molhado de poesia.

    Luz da lua já vai alta em minha cidade,
    noite que avança, prenúncio de madrugada,
    e aquela música ainda soa em meus ouvidos,
    trilha sonora ideal que embriaga os meus sentidos.
    Já é madrugada, lá fora o orvalho, vício antigo!

    Dizem por aí que lirismo está morto,
    Sei não! Pelo menos em mim eu sei que não.

  

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

UM COPO DE ESPERANÇA

    NALDOVELHO

    Tragam-me um copo de esperança
    e um prato cheio de delicadezas,
    tantas, que me façam por aqui permanecer.

    Por favor, abram também as janelas.
    Eu preciso que o vento circule pela casa,
    eu preciso que o sol ilumine meus passos.

    Faz tempo eu caminho pela vida,
    ruas desertas, vento frio, açoite.

    Tragam-me algo que sirva de alento,
    um bom bocado de certezas,
    um sorriso desinteressado,
    um abraço apertado, um carinho de irmão.

    Por favor, deixem que se aproximem...

    Faz tempo caminho pela noite,
    faz tempo me perdi em orações.

    Tragam-me também novos poemas,
    palavras que acariciem,
    que promovam encontros,
    que revelem caminhos,
    que construam pontes para o amanhã.

    Por favor, deixem que se revelem...

    Faz tempo escrevo nostalgias,
    faz tempo naufrago na solidão.

    Eu preciso de um copo de esperança.
    de um prato cheio de delicadezas,
    de um jeito de aquecer meu coração.