segunda-feira, 22 de junho de 2015

O MEU JEITO DE ORAR

    NALDOVELHO

    Passarinho no parapeito da janela
    olha para dentro do meu quarto:
    entardece, cama desarrumada,
    folhas de papel pelo chão espalhadas
    e um poema ainda não escrito
    circula impunemente pelo ar.

    O quarto todo respira querências,
    as palavras transpiram urgências,
    mas o poeta permanece em silêncio,
    se aproxima calmamente da janela
    e pergunta ao passarinho
    se ele quer conversar.
    Passarinho diz que não!
    pois dentro em pouco anoitece
    e ele tem que voltar para o seu lar.

    Já passam das seis, lá fora anoitece,
    aqui dentro o poema faz um prece,
    e o jeito dele de provocar o poeta
    que há tempos não consegue mais rezar.

    Na vitrola, num antigo disco de vinil,
    Shirley Horn inspira o poeta,
    sussurra em meus ouvidos,
    palavras, significados, gemidos,
    e o poema cada vez mais presente.

    Agora, luz da lua invade o meu quarto,
    mês de junho, final de outono,
    palavras nostálgicas, encadeadas,
    conversa travada entre o poema e o homem.

    Talvez este seja o meu jeito de  orar.

domingo, 14 de junho de 2015

URGÊNCIA

    NALDOVELHO

    Há uma urgência que transpira inverno
    encharcando as paredes da minha casa.
    Domingo, princípio de junho,
    na realidade fim de outono,
    mas no horizonte já se percebe
    o frio das coisas querendo se achegar.
    E a solidão deitada no chão do meu quarto,
    e na prateleira da estante o teu retrato,
    sorri e me pede um beijo, um abraço.

    No ar um tango sofrido, ardido...
    Astor Piazzolla sabia o tom exato
    da tristeza que sem pedir licença,
    diz desaforada que veio para ficar.
    Linhas entrelaçadas histórias,
    saudade, nostalgia,minhas memórias...
    E o veneno a circular
    impunemente em meu corpo,
    e eu busco na poesia um antídoto,
    mas ela arredia diz: hoje não!

    Há uma urgência nas coisas que eu faço,
    na vontade de semear madrugadas,
    na necessidade de dobrar esquinas,
    na incapacidade de sobreviver ao silêncio,
    na possibilidade de ter que ir embora,
    nos poemas guardados na gaveta,
    em todas as coisas que me povoam as horas
    e que na realidade são as donas deste lugar.

    Há uma certa urgência no tempo que me resta!

E EU HEI DE PASSAR

    NALDOVELHO

    Existem pessoas que nascem
    para escancarar janelas,
    atravessar portas, portais,
    dobrar muitas esquinas,
    navegar sozinhos
    por imensidões de caminhos
    e nenhuma corrente,
    cadeado ou tramela
    consegue aprisionar.

    Existem outros que nascem
    para andar em círculos
    em volta de uma árvore,
    e ali constroem seus abrigos,
    se alimentam do que é preciso,
    crescem, amadurecem e morrem,
    e não deixam nada para ninguém.

    Mas existem aqueles
    que nascem para ser árvores,
    raízes profundas, copas frondosas,
    flores perfumes, muitas sementes,
    e assim vivem por tanto tempo
    que até parecem eternos,
    pois há muito eu já passei
    e eles ainda estão ali.

    Existem os que nascem
    para ser ventania,
    outros nascem pedra,
    alguns poucos nascem poesia...
    Eu que nasci passarinho
    hei de passar 
    e eles todos
    ainda estarão por ali.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

ENTRE DOIS MUNDOS

   
  
    NALDOVELHO

    Ente dois mundos
    o poeta caminha aos tombos,
    ora se achando um louco,
    ora se achando um tolo.
    E assim ele vai
    semeando seus versos,
    ora encharcados de saudade,
    ora saídos dos escombros.

    Entre dois mundos
    o poema se contorce nervoso,
    ora vestido de assombro,
    ora molhado de sonhos.
    E assim ele vai
    dobrando as esquinas,
    atravessando a cidade,
    e de porta em porta
    semeando suas verdades.

    Entre dois mundos
    o homem tenta sobreviver,
    ora ele se alimenta de delicadezas,
    ora ele naufraga nas incertezas.
    E assim ele vai,
    ora assoreado na margem de um rio,
    ora chama que arde num curto pavio, 
    mas sempre e sempre,  poesia,
    seja lá onde for
    que este caminho vá dar.



quarta-feira, 10 de junho de 2015

TEVE UM TEMPO DE PASSARINHO

    NALDOVELHO

    Teve um tempo
    que eu tinha asas de imensidão,
    voava como quem voa pro infinito
    e eu era um pássaro bonito,
    mas tão desaforado,
    uma faísca na escuridão.
    E tinha plumagem dourada,
    bico de abrir estradas,
    olhos de derramar paixão.

    Teve um tempo
    que Deus passarinho dizia
    pra eu voar de flor em flor,
    pegar delas todo o mel,
    depois atravessar as dobras do tempo,
    levar pro mundo a ternura,
    remédio pras dores
    que afligiam os corações.

    Teve um tempo
    que o meu canto era singelo,
    angelitude que te invadia o quarto,
    e eu nem sabia da palavra
    que alimenta os teus versos,
    mas sabia do amor que eu tinha,
    poesia que transcende o poema
    e eu pousado em tua janela,
    encharcado de tanta emoção.

    Teve um tempo que eu tinha asas,
    hoje sou apenas um prisioneiro
    envolto nas teias do tempo,
    e o meu canto é triste e solitário,
    pés feridos de trilhar este chão.   

terça-feira, 9 de junho de 2015

VÓ MIUDINHA E A PRENHEZ DE MARLI MENINA


NALDOVELHO

            Lembro bem como se fosse hoje: sobre a mesa da sala um jarro de cristal acolhia dúzia de rosas vermelhas misturadas com pencas de monsenhor branco. Pela janela, um sol sonolento invadia o ambiente. Na parede em frente a janela, um quadro em destaque: uma criança a pastorear suas ovelhas. Embaixo do quadro, numa confortável poltrona, Vó Miudinha lia o seu jornal. Um agradável cheiro de alfazema no ar. Na varanda o Vô fumava seu cachimbo. De repente Vó Miudinha gritou da sala:

- Manézinho chama o Tonico, eu preciso que ele vá lá na horta colher umas ervas, principalmente arruda; meu neto vai até a venda, preciso de fumo pra velha, uma garrafa de pinga das boas e um metro de fita vermelha e outro de fita amarela. desconfio que daqui há pouco eu vou ter visitas e vou precisar destes mandados pra poder trabalhar.

            E assim do nada, lá ia ela se preparar. No canto da sala, acendia suas velas, queimava seus incensos e orava para Nossa Senhora que parecia sorrir do alto do seu altar. Do lado dela, um pouco mais acima, o Cristo de braços erguidos nos abençoava. Um pouco mais abaixo, do lado esquerdo, a imagem de uma preta velha, Vovó Teresa das Almas, e do lado direito, São Lazaro e seu fiel companheiro, e muita pipoca em seu alguidar. Vó Miudinha era íntima das almas, sabia das coisas lá dos longes e das voltas que a vida costuma nos dar.

            De repente a Vó sorria e nos dizia:

- num falei, vem aí Dona Elvira e vem arrastando Marli mocinha, enjoada que num sei o quê, pra modi eu rezar. Só num sabe Dona Elvira, que reza nenhuma da jeito em barriga de menina prenha de safadeza.

            E lá ia a velha pro quarto pegar em seus guardados uns panos bordados.

- Meu velho, traz um café pra Miudinha, tá dando uma vontade de pitar um cigarro!

            Num demorou nada e Dona Elvira esbaforida entrou pela sala a arrastar Marli menina de cara amuada que chorava sem parar com medo das coisas que a Vó Miudinha pudesse falar.

            E daí em diante, foi um tal de rezas e bênçãos, acompanhadas de muito aconselhamento, pra modi Dona Elvira se aquietar e aceitar a prenhêz da menina e principalmente pra Marli menina tomar tento e sossego pra daquela barriga que viria poder cuidar.

- Menina, toma tento! Quando nascer traz aqui pra velha abençoar e qualquer coisa é só chamar.

            Vó Miudinha é muito sabida, velha danada! Até hoje eu tenho medo das coisas que ela sabe, chego a tremer quando ela senta num canto e começa a pitar seu cigarro... Sei lá o que ela descobre, sei lá o que ela resolve falar! Ainda bem que de Marli menina, num passei nem perto, garota bestinha era aquela! Mas tem outras coisas que aconteceram... Melhor deixar pra lá e tratar de me aprumar!        

            

sábado, 6 de junho de 2015

EU SOU

    NALDOVELHO

    Eu sou minhas manhãs friorentas de outono,
    minha preguiça envolta em cobertas,
    eu sou a passarinhada no jardim em festa,
    mas também sou a casa que me acolhe,
    a roupa que me veste, a incerteza que me move,
    eu sou as palavras que eu uso, algumas em desuso,
    as paredes do meu quarto, a tapeçaria inacabada,
    um terço pendurado na cabeceira da cama,
    o silêncio que me adorna nas madrugadas de junho,
    eu sou a luz e a sombra, o claro e o escuro,
    a música que me inspira, o poema que me alucina,
    eu sou a magia num emaranhado de possibilidades,
    a crença numa outra realidade, ainda que tardia,
    eu sou a minha cama desarrumada,
    meu travesseiro exalando saudades,
    eu sou o meu sorriso tímido, o meu olhar travesso,
    mas também sou o dia que caminha sem alarde,
    ruas, travessas, jardins, recantos da minha cidade,
    a vontade de te dar um abraço, raízes, teias, meus laços,
    eu sou um pote de delicadezas, mas também sou a dor,
    a raiva, a ardência de um desengano, a virada de mesa,
    eu sou o tempo que me resta e a necessidade do carinho,
    mas também sou minhas asas de voar sozinho,
    eu sou um punhado de pedras espalhadas pelo caminho,
    eu sou minhas manhãs friorentas de outono,
    um café bem forte, e ainda sinto falta de um cigarro,
    eu sou a minha inquietude, a lágrima não chorada, a amplitude,
    a interminável jornada de um homem por sua existência,
    eu sou o meu pé de amora que resiste a tudo,
    mas também sou a acerola promessa de outubro,
    e a necessidade de caminhar em círculos,
    cada vez mais fechados, tanto que qualquer dia
    eu corro o risco de me transformar num ponto,
    que quem sabe um dia possa ser um porto,
    seria tão bom te encontrar por lá!



quinta-feira, 4 de junho de 2015

MEU SILÊNCIO

    NALDOVELHO

    Ando já de algum tempo
    aprendendo a cultivar o silêncio,
    não o silêncio de quem se devora,
    mas o silêncio de quem caminha sozinho,
    saboreando o pulsar lento das horas.

    Ando já de algum tempo
    aprendendo a cultivar o silêncio,
    não o silêncio de quem se desespera,    
    mas o silêncio de quem se senta sozinho
    num restaurante lotado,
    faz ar de distanciamento
    e come chorando pra dentro.

    Já de algum tempo
    venho tentando apaziguar minha alma,
    curar minhas feridas,
    harmonizar meu coração
    e o faço acreditando que a vida
    que corre em minhas veias
    possa ser renovada a cada desilusão.

    Já de algum tempo
    venho aprendendo a cultivar meu silêncio
    e sei que ele é filho do amor derradeiro,
    e floresce em meio aos campos
    fertilizados pela paixão.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O POEMA PRECISA ACREDITAR EM DEUS

   NALDOVELHO

   O dia acordou mal humorado,
   nuvens rabugentas, um estrago!
   Tomou um café amargo,
   fumou um cigarro
   e caminhou trôpego pelas ruas,  
   mais parecia embriagado.

   Depois de um tempo
   o dia cuspiu tempestade,
   espalhou ventos pela cidade,
   atiçou a inquietude do poeta,
   misturou palavras e significados;
   não satisfeito, entrou numa igreja,
   assistiu a missa das seis
   e debochou da pretensão do padre
   que acredita poder falar com Deus.

   O dia perambulou feito um louco,
   sentiu a fome dos hereges,
   entrou numa pensão barata,
   pediu um prato de comida,
   comeu como se fosse um porco,
   arrotou constrangimentos,
   riu da ingenuidade dessa gente
   que insiste em acreditar em Deus.

   O dia entardeceu rebeldia,
   se misturou aos meliantes nas praças,
   fumou crack com os pivetes,
   bebeu muita aguardente,
   procurou por um beco fedorento,
   fez por lá suas necessidades,
   anoiteceu!

   A noite ficou assustada
   com as loucuras que ela via,
   pediu ajuda as estrelas
   para quem sabe num passe de magia,
   suavizar a aridez daquele dia,
   enternecer seu coração.

   O poeta entristecido a tudo observa,
   coração sangrando aos pedaços,
   cada pedaço um poema,
   esperança que possa nos trazer calmaria,
   para que possamos consertar todo o estrago,
   pois ainda que o poeta não tenha dito,
   o poema precisa acreditar em Deus!

OS SINOS DA IGREJA

    NALDOVELHO

    Os sinos da igreja despertam o poeta,
    já são seis horas, tarde noite chuvosa,
    e as pessoas não dão conta do estrago,
    não percebem o sofrimento dos seus,
    tão pouco as esquisitices de Deus,
    não conseguem se libertar das teias,
    aprisionadas a sua incompreensão.

    Os sinos atiçam as palavras,
    mas o poema se contorce em minha boca,
    presa fácil, esmagada entre os dentes,
    versos triturados, pastosos,
    não conseguem fluir significados,
    não se prestam às minhas verdades,
    palavras aprisionadas no breu.  

    Os sinos sacodem a noite,
    já são seis horas nesta cidade nublada,
    e no rádio do carro a Ave Maria
    atropela meu coração ateu,
    e eu me lembro do Júlio Louzada,
    da Vó Miudinha e de suas novenas,
    e a sua voz explode em meus ouvidos:
    - meu neto, você precisa acreditar em Deus!



COMEÇAR TUDO OUTRA VEZ

    NALDOVELHO

    O arrepio, o precipício, o sobressalto,
    a interminável sede, a angustia da fome,
    a inevitável volta ao passado,
    fazer de conta que está tudo acabado,
    abrir a janela, fazer um escândalo,
    expulsar fantasmas do quarto,
    começar tudo outra vez.

    A vontade de tomar um conhaque,
    quem sabe fumar um cigarro,
    me apaixonar novamente por você,
    abrir a porta, sair mundo afora,
    acordar no meio da noite
    em alguma cidade estranha,
    começar tudo outra vez.

    Dentro em pouco amanhece
    e o sol desconhece minhas razões,
    manhã cedo, mês de maio, outono,
    o corre-corre das pessoas, o abandono,
    andar pelas ruas dessa cidade perversa,
    a necessidade de uma mudança de planos,
    começar tudo outra vez.

    O arrepio, o precipício, o sobressalto,
    escrever mais um poema,
    pois a esperança explode em meu rosto,
    teima em alimentar minhas horas,
    com um olhar, um sorriso, um abraço,
    e no inevitável pulsar da paixão,
    começar tudo outra vez.

    A angustiante perda da razão,
    acreditar na possibilidade do sonho,
    aprender a perceber o dia que passa,
    sua beleza, em todos os seus detalhes,
    e as águas do mar indecisas na areia,
    e um vento gelado invade a tarde,
    começar tudo outra vez.

    No final daquela praia tem um rochedo,
    dizem que por lá mora uma sereia,
    que ela gosta de devorar memórias,
    e que ela pode nos absolver dos pecados...
    
    O arrepio, o precipício, o sobressalto,
    a interminável trajetória de um tolo,
    obrigado a recomeçar mais uma vez.