quinta-feira, 28 de agosto de 2014

SENHORA DAS ÁGUAS

    NALDOVELHO

    Se eu digo pedra,
    você vem e me traz água,
    se eu digo fogo,
    você vem e me acalma.
    Se a luz do sol me aquece,
    a luz da lua me enternece,
    se em cada vão da estrada eu tropeço,
    você vem, me ergue e eu recomeço.
    Se eu recuso o abrigo,
    você me traz o aconchego preciso,
    me envolve em suavidade e acalanto,
    cura minhas dores, seca o meu pranto
    e ainda me ensina uma prece.

    Senhora das águas
    que transformam dor em poema
    e trazem ternura às minhas horas,  
    me dê sua benção
    para que eu possa continuar.

    Odô ia!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

PAIXÃO

    NALDOVELHO

    Paixão
    é pássaro de plumagem dourada
    e asas destrambelhadas,
    de voo desgovernado
    não chega a lugar algum.

    Portanto é melhor ter cuidado,
    não deixe esse pássaro maluco
    pousar em seu coração.

    Mas se isso acontecer
    só existe uma solução:
    se apaixone outra vez!  


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

CAMINHANDO

   NALDOVELHO

   Caminhando pelas minhas vontades
   eu visitei puteiros, vespeiros,
   lugares ermos solitários,
   becos sombrios e fedorentos,
   amei mulheres estranhas,
   me apaixonei por inteiro,
   vi meu corpo retalhado,
   maldita e afiada navalha,
   não perdi uma gota de sangue.

   Caminhando pelas madrugadas
   eu percorri trilhas de desassossego,
   bebi toneis de aguardente,
   fumei muitos baseados ,
   seduzi e fui seduzido
   por uma formosa sereia,
   até hoje corre em minhas veias
   o veneno que eu bebi em seus lábios,
   história que eu ainda não contei.

   Caminhando pela poesia
   eu descobri a magia das águas,
   aprendi a me reconstruir nos escombros,
   a encontrar um jeito de voltar,
   a submeter minhas vontades,
   a vencer minhas paixões,
   a amanhecer e colher na luz do sol
   o milagre da restauração,
   a continuar mesmo depois do meu fim.

CANÇÃO MALUCA

    NALDOVELHO

    Eu fiz uma canção maluca
    que fala de ruas em festa,
    de passarinhada em animada conversa,
    de flores germinando no outono,
    de abraçar e conversar com estranhos,
    de dobrar todas as esquinas,
    de abrir todas as cortinas.

    Eu fiz uma canção diferente
    onde eu olho para o passado
    com os olhos do presente
    e nela eu falo de praia deserta,
    de noites de lua inquieta,
    de mar a lapidar o rochedo,
    de vencer todos os meus medos.

    Eu fiz uma canção esperançosa
    onde eu digo que o presente
    é o alicerce do futuro,
    e nela eu falo da magia
    de acreditar que a poesia
    possa construir um novo tempo
    de voar com asas que temos por dentro.

    Eu fiz uma canção
    que não tocou em lugar algum,
    mas se você quiser, é só fechar os olhos
    e acreditar que a palavra do homem
    possa um dia ser palavra de anjo;
    quem sabe a minha canção maluca
    você possa então escutar?

sábado, 23 de agosto de 2014

NÃO TEM SERVENTIA “PROCÊS”!

    NALDOVELHO

    Pedrinha redondinha de beira de rio
    que nunca matou passarinho,
    faca afiada de fatiar poemas
    que nunca sentiu gosto de sangue,
    tesourinha de picotar emoções,
    às vezes gosto de embaralhar a vida,
    brincar de quebra cabeça depois;
    retrato da minha amada,
    a sete chaves em segredo,
    de modo que só eu possa ver,
    um pedacinho de lua cheia
    que eu garimpei, faz tempo,
    Zona da Mata, Minas Gerais,
    um pequeno e perfumado lencinho
    com o nome daquela menininha
    que beijou com gosto de amora,
    depois desapareceu na fumaça
    e não voltou nunca mais;
    uma bússola quebrada,
    nem me lembro de quando perdi o rumo,
    só sei que foi há muito tempo!
    três livros de poesia, versos pretensiosos,
    registro dos meus ais,
    numa pequena caixinha de madeira,
    pétalas ressequidas, espinhos
    e um lindo e imantado terço
    que a Irmã Adélia abençoou.
    E eu continuo a colecionar
    miudezas, estranhezas, delicadezas...
    O dia que eu morrer, enterrem tudo comigo,
    não tem serventia “procês”

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

MINHA SAUDADE

    NALDOVELHO

    Minha saudade
    mora no canto do meu quarto,
    às vezes, assim do nada,
    ela explode
    e espalha muitos cacos,
    tantos, que eu nem sei como fazer
    para recolher.

    Minha saudade
    é passarinho
    que fugiu do ninho,
    é roseira frondosa
    carregada de espinhos,
    é veneno que não mata,
    mas faz sofrer.

    Minha saudade
    é fruta adocicada
    de final amargo,
    é água cristalina,
    quanto mais eu bebo,
    mais eu me embriago
    de tanto bem querer.

    Minha saudade
    é farpa espetada,
    é unha encravada
    é casquinha de ferida,
    e eu passo um tempo enorme
    escarafunchando,
    poesia que me traz prazer.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

ESTÁTUAS DE PEDRA

   NALDOVELHO

   Estátuas de pedra
   protegem a imperatriz
   que abraçada ao poder
   ilude o seu povo.
   E as pedras não pensam,
   apenas ecoam
   toda esta insensatez.


COISA MILAGREIRA

    NALDOVELHO

    Coisa milagreira
    é sentir o vento no rosto,
    tarde noite de setembro
    e a primavera se assanha,
    traz aconchego na alma
    e o sol mergulhando na orla,
    convida a lua para reinar.

    Coisa milagreira
    é o vento tecendo um manto
    de poesia e acalanto,
    olhei pela janela do meu quarto
    e vi seu rosto desenhado no espaço,
    fios prateados a unir estrelas
    e muita música no ar.

    Coisa milagreira
    é colher sementes de sonho
    e colocá-las todas em xaxins,
    dar o tempo que o tempo precisa
    para depois sair pelo mundo
    a gritar versos de alcova,
    a poesia que eu consigo ofertar.

    Coisa milagreira
    é acordar enroscado em seus braços,
    é matar minha sede em seu regaço,
    é a cumplicidade da saliva
    trocada nas horas precisas
    e no céu a lua alcoviteira
    que vem nos abençoar.

domingo, 17 de agosto de 2014

AQUELA MULHER (R)

   NALDOVELHO

   Naquela estação de trem
   aquela mulher
   a espera do seu homem
   enrola os fios do tempo
   num novelo de amor e dor.

   Aquela mulher
   naquela estação de trem
   fez da saudade a sua morada,
   todos os dias, já faz tanto tempo!

CRÔNICA DE UMA LUA INQUIETA


NALDOVELHO

Lua inquieta, horas ardidas de frio, ruas que parecem desertas, mas sempre haverá o arrepio, um assombro num beco vazio, alguém abraçado aos escombros, tentando se libertar.

E a porta daquele bar aberta, uma boa dose de conhaque e na radiola, sonoridades da alma, e um saxofonista faz um estrago; contrabaixo, bateria e piano, harmonias de desenganos nas teias intrincadas de um jazz.

Ela se achega e pede um cigarro, carrega um sorriso amargo, beleza embaçada por mágoas. Pergunto se quer um conhaque, mas ela prefere um vermute, diz que é para suavizar a noite, pois o sol não tarda a raiar. Pergunta, então, o meu nome, e se a solidão também dói em mim, e os meus olhos respondem que sim!

Olhares, cumplicidades, afagos... Pago a conta e me enlaço em seus braços, e vamos pelas ruas silentes, em direção ao meu quarto e refúgio, entrelaçar nossos corpos sedentos, fingir que vivemos um sonho.

Chego à porta do meu quarto e estremeço com o vazio das horas. Ela disse com um aceno que vinha, mas sumiu na última esquina, evaporou em meio à neblina e nem me disse adeus. E eu nem sei o seu nome!

Crônica de uma lua inquieta numa noite friorenta de inverno, solidão em meio aos escombros, loucura a me causar arrepios. Vou para a cama e durmo, já nem sei se me importam os porquês. 

Hoje, já é um novo dia e eu continuo nessa cidade, exilado que sou de Você.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

MEU JEITO DE CAMINHAR

    NALDOVELHO

    Eu construo paredes
    onde possa pendurar
    portas, janelas, luminosidades,
    diversos tipos de telas
    algumas, em exuberantes matizes,
    em outras, nostálgicas tentativas
    de retratar imagens
    que existem dentro de mim.

    Eu construo sonhos
    a partir de um simples sopro,
    papeis espalhados pra todo o lado,
    palavras substantivas, outras adjetivas,
    e o verbo a desembaraçar a trama,
    e ainda que te pareça estranho,
    tem sempre uma melodia ao fundo,
    uma trilha sonora no ar.

    Eu construo motivos
    para continuar na estrada,
    apesar dos muitos estragos,
    coisas estilhaçadas, escombros,
    haverá sempre um sorriso,
    um gesto de delicadeza,
    coisas que vêm de dentro,
    meu jeito de caminhar.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

LONGE DAS MINHAS VERDADES - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Longe das minhas verdades,
    a palavra sorri libertada
    no encantamento do verso,
    na coragem do amor derradeiro
    de quem se atirou por inteiro
    ao arrepio do precipício
    e por um mero capricho da sorte,
    sobreviveu.

    Longe das minhas verdades,
    a palavra busca um rumo
    no aconchego de um rascunho
    e na tentativa de destilar a saudade,
    se miscigena, promíscua de outras verdades,
    e na esperança de um alento
    grita aos quatro ventos
    o nome do meu amor.

    Longe das minhas verdades,
    a palavra é faca afiada
    a sangrar a madrugada,
    e ao fatiar meu corpo em postas,
    lágrima se mistura com orvalho,
    e eu amanheço com olheiras,
    noite inteira a procura de um poema
    que possa exorcizar esta dor.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

PALAVRA TARDIA - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Parece que a palavra que eu trago
    embalada em meus livros
    nasceu em desalinho e de triste destino,
    nada diz que lhes possa acrescentar.

    Parece até que está suja de sangue,
    pois extraída as pressas do meu umbigo,
    de tão destrambelhada que era,
    nem deu tempo de limpar.

    Só que agora, as outras que eu tenho
    envoltas em minha língua,
    repousam castiças em meio à saliva,
    recusam ser remédio amargo.

    Palavras em versos, poesia bastarda,
    e o poema sobre a pedra fria
    a mastigar a lágrima arredia:
    palavra tardia, esta!
    


MANUSCRITOS - POEMAS DE LUZ E SOMBRAS

    NALDOVELHO

    Manuscritos encontrados 
    a noroeste de uma noite escura,
    revelam que a partir de agora
    todas as guerras serão sujas,
    todas as crianças serão puras
    e todas as mulheres serão santas,
    não importam os seus pecados,
    nem o que pensa o vizinho do lado,
    pois sem elas não haverá como
    sobrevivermos nesse lugar.
    Mostram que os caminhos são sagrados,
    mesmo os que estão errados,
    pois sempre haverá uma nova chance,
    e por mais que os religiosos neguem,
    mais cedo ou mais tarde
    chegaremos ao mesmo lugar.
    Revelam reencontros e partidas,
    novos amores a cicatrizar feridas,
    dias de sol, dias de chuva,
    calmaria e temporal;
    revelam que a magia dessa vida
    está em naufragar em arrecifes de coral,
    soçobrar numa praia distante
    e recomeçar renascidos
    e redimidos de todo o mal.
    Manuscritos nos revelam,
    que trilhamos o mesmo destino
    e que o tempo que temos é eterno,
    e que lá bem depois do infinito,
    encontraremos nosso Lar. 


sábado, 9 de agosto de 2014

RITOS SAGRADOS DA LUA CHEIA

    NALDOVELHO

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    tenta desesperadamente amanhecer,
    eu por aqui, anoiteço ao som de um blues
    e vejo uma lua descaradamente sedutora,
    dou uma volta pelas ruas da cidade
    e colho poeira de estrela
    encharcada de orvalho,
    e me enveneno com a nostalgia
    que maresia da orla me traz.

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    escreve cartas numa língua estranha,
    eu por aqui, aprendo palavras de anjo,
    e com elas cometo heresias,
    acolho em meu quarto, formosa Iara
    e aprendo com ela o mistério das ervas,
    pura feitiçaria de quem venceu sua dor.

    Enquanto você, aí do outro lado da vida,
    lê num jornal as notícias de ontem,
    eu por aqui escrevo um livro,
    que provavelmente você nem irá ler,
    pois quando você resolver anoitecer,
    eu e meus poemas seremos pedra
    depositada nas margens de um rio,
    ritos sagrados da lua cheia,
    poesia de quem morreu por amor.
  



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

ANJOS CAÍDOS

   NALDOVELHO

   Anjos despidos de suas asas
   e embriagados pela insensatez,
   gesticulam e afirmam que sim.
   Outros esbravejam enraivecidos,
   ameaçam a todos com suas espadas
   e afirmam que não!
   Ao caminhar pelas ruas
   um homem escorrega e caí,
   fica abraçado à sarjeta,
   e só depois de um tempo,
   se arrasta para um beco escuro,
   adormece e sonha ter encontrado a paz.
   Crianças brincam pelas praças,
   sorriem para os que passam,
   enquanto se alimentam
   dos pecados dos seus pais.
   Num templo, um homem travestido de santo,
   recolhe um dízimo a cada hora,
   vende lotes no paraíso
   e em suas mãos uma procuração
   que ele afirma ter sido passada pelo pai.
   Enquanto isso eu descubro
   que o diabo construiu
   em torno de nós um muro.
   Sonhadores visionários e poetas
   abraçados diante das impossibilidades
   cantam um hino de louvor
   aos nossos tropeços, aos nossos recomeços.
   Um hino que diz que o céu é aqui,
   que mais cedo ou mais tarde saberemos,
   e, quando assim for, poderemos dele usufruir.